O ilhéu de Vila Franca do Campo, nos Açores, recebeu esta semana e pela sétima vez consecutiva uma etapa do Red Bull Cliff Diving World Series. Rhiannan Iffland venceu na competição feminina, Steven LoBue foi o vencedor do lado dos homens – ambos, com esta conquista em terreno insular, cavaram uma distância maior na liderança das respetivas classificações gerais.

Durante os dois dias de competição, os barcos, caiaques e canoas rumaram ao fabuloso ilhéu de Vila Franca do Campo, na ilha açoriana de São Miguel, para assistir aos saltos dos atletas. Mas se a verdadeira ação estava do lado de fora do ilhéu vulcânico, os segredos mais bem guardados do campeonato mundial de cliff diving estavam no interior da rocha.

Do lado de dentro do ilhéu, longe dos fãs e dos próprios jornalistas – pelo menos durante os saltos – os atletas descansam, concentram-se e treinam no meio da azáfama de produtores, membros da organização e relações públicas que correm e se atropelam, comunicando sempre via rádio.

Nas horas que antecedem os saltos, existem alguns objetos dos quais os atletas não prescindem. Uns mais expectáveis, outros nem tanto – como, por exemplo, bolas de malabarismo. Estes são os oito elementos vitais para os atletas do campeonato mundial de cliff diving.

Tapete de exercício

Antes de saltarem de mais de 20 metros em direção ao Oceano Atlântico, os atletas treinam mortais e piruetas nos tapetes de exercício que transportam consigo. Aproveitam os minutos mortos para aprimorar as técnicas e os movimentos, além de realizarem vários exercícios de alongamentos e flexibilidade.

Naquele pequeno metro quadrado, preparam os três segundos de queda livre acrobática e o impacto na água – que pode atingir os 85 km/h.

O pódio feminino: Rhiannan Iffland, Adriana Jimenez e Lysanne Richard. E o pódio masculino, composto por Steven LoBue, David Colturi e Gary Hunt

Shammy

Shammy ou chamois: uma pequena toalha multifunções que retira o excesso de água do corpo sem secar completamente, deixando a pele ligeiramente húmida. Antes de saltar, os atletas secam os pés, pernas e mãos para não correr o risco de escorregar na preparação do salto.

Numa prática que se aplica a quase todos os participantes na competição, o shammy é também a última coisa de que se separam antes de saltar: atiram a pequena toalha para a água, onde é recolhida pelos mergulhadores, para terem noção da trajetória que eles próprios vão fazer segundos depois.

Headphones

Nos últimos minutos antes de subirem à plataforma, os atletas costumam colocar os headphones e afastar-se um pouco da confusão, numa tentativa de se concentrarem para o salto. Além das playlists que preparam cuidadosamente, ainda são responsáveis pela música que toca quando o próprio nome é anunciado, no momento em que sobem à plataforma. David Colturi, o norte-americano que este sábado ficou na segunda posição da etapa açoriana, desfila ao som de “Alright”, do rapper Kendrick Lamar. Já a única brasileira da competição, Jacqueline Valente, samba enquanto mostra um cachecol do Brasil.

Chinelos

Jonathan Paredes é o expoente da necessidade deste elemento. O mexicano – que venceu o campeonato mundial em 2017 –, vai de chinelos até à plataforma e só se separa deles quando os atira para a água, em conjunto com o shammy. Assim que emerge à superfície depois do salto, volta a receber os chinelos e a toalha e viaja calçado na mota de água que o leva de novo à zona dos atletas.

Ainda que nenhum se compare a Paredes, todos os outros atletas utilizam chinelos ao invés de ténis nos bastidores: mesmo que esses mesmos bastidores fiquem localizados no meio de rochas e que isso implique alguns dotes de escalada.

Steven LoBue venceu a segunda etapa consecutiva e é o líder da classificação geral.

Relógio

Sim, muitos dos atletas saltam de relógio. E não, não se trata de um relógio normal. Normalmente, são relógios especializados que resistem ao impacto da água e registam a velocidade com que o corpo desce até mergulhar.

Óculos de sol

Pode estar a chover, pode estar sol, o céu pode estar nublado ou pode até ser quase de noite. A verdade é que o mais provável é que os atletas estejam de óculos de sol. Na cabeça, ao pescoço ou pendurados na camisola, são um dos acessórios fundamentais da competição.

Bolas de malabarismo

Este é muito provavelmente o objeto mais inesperado que se encontra nos bastidores do Red Bull Cliff Diving. O hábito foi introduzido por Gary Hunt, veterano da competição e vencedor do campeonato mundial em seis ocasiões. O britânico, exímio malabarista que tem o sonho de ser palhaço num circo de renome, contagiou os companheiros e agora é habitual ver vários atletas a atirar bolas para o ar antes do salto.

A atividade acaba por funcionar enquanto período de descontração mental antes do momento pelo qual todos esperam.

David Colturi realizou um grande salto final e perdeu a liderança por apenas um ponto

Toalha

Por vezes, os atletas de cliff diving dão a impressão de serem sobre humanos. Saltam de 27 metros para o Oceano Atlântico, fazem piruetas e mortais em queda livre e surgem à superfície depois de um impacto a 85 km/h como se nada fosse. Mas a verdade é que respiram, têm frio, calor e medo como todos os outros. E sair da água depois de um mergulho pode ter momentos desconfortáveis.

É por isso que nenhum atleta dispensa uma toalha logo depois do salto. Embrulham-se, secam-se e aproveitam aquela toalha quente para relaxar os músculos, muitas vezes expostos a condições climatéricas adversas.

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