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A entrevista de Bourdain antes de morrer: “Sentados meio bêbados debaixo da lua cheia, percebemos quão sortudos somos”

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Reunimos 39 ideias da última entrevista feita a Bourdain, publicada um mês depois da sua morte. O chef fala sobre Obama, os Clintons, as viagens, a comida, a dificuldade em descansar e a paternidade.

Jose Sena Goulao/LUSA

A transcrição da entrevista ultrapassa os 60 mil caracteres, o que indicia desde logo a longa duração da conversa. Em fevereiro, o chef, escritor e apresentador de programas de televisão Anthony Bourdain sentou-se durante duas horas e meia num bar nova-iorquino chamado Coliseum. Ao seu lado estava Maria Bustillos, editora da revista Popula.

Na entrevista, revelada agora (um mês e meio depois da morte de Bourdain), o especialista em gastronomia fala das viagens e do que elas significam, da importância do dinheiro e dos luxos, das drogas, do movimento #Metoo e de como era incapaz de passar muito tempo sem trabalhar. Esta é, até ver, a última entrevista de Bourdain a ser publicada e o Observador reuniu 39 ideias fortes do chef:

Sobre as viagens:

  1. “Gosto da ideia de inspirar ou encorajar as pessoas a obter um passaporte e a irem procurar as suas próprias aventuras.”
  2. “Prefiro que as pessoas vão, digamos, a Paris e encontrem a sua própria viagem, sem fazer um itinerário em específico e mantendo-se abertas ao que pode acontecer. Aos erros.”
  3. “Os erros são a parte mais importante das viagens. As mer** que não se planeiam, estar preparado para se adaptar e receber informação de uma forma útil, em vez de dizer: ‘ó, porra, acabaram-se os bilhetes para o Vaticano’ ou “aquela fila para a Torre Eiffel demora umas seis horas’.”
  4. “Quanto mais se viaja mais se olha para dentro. O Mark Twain disse que viajar é fatal para o preconceito. (…) De repente, estás na casa de outra pessoa, no país de outra pessoa. Não estás no comando.”
  5. “Sendo um americano com um passaporte, já tens o teu bilhete de saída [em caso de problemas]. Podes abrir o paraquedas de emergência a qualquer momento. Isso é suficiente.”

Anthony Bourdain em maio de 2016. (Nicholas Hunt/Getty Images for Turner)

Sobre o trabalho:

  1. “Entretinha-me com a ideia de que trabalhava com um objetivo, com um fim, com o facto de um dia poder deitar-me numa rede, numa colina na Toscânia, com uma grande pilha de livros. Hoje, percebo que não conseguiria… Não conseguiria fazer isso. Consigo fazê-lo por pequenos períodos de tempo. Mas [em definitivo] não consigo. Não consigo.”
  2. “Ajudou-me muito que a Asia [Asia Argento, então namorada de Bourdain] seja igual a mim. Que não haja vergonha quanto a isto, sabes… Ela vai apontar o quão ridículo é ficar a relaxar na praia sem fazer nada, vai dizer logo ‘isto não me interessa nada. Isto é viver como um morto’.”
  3. “Acabo um livro ou algo como uma temporada inteira de um programa [de televisão], olho para o calendário e percebo que tenho três semanas sem nada agendado. Primeiro, isso parece uma boa ideia para o resto do ano. Mas durante esse período, logo depois de me libertar do fardo que é uma pilha de trabalho frenético, entro em pânico e começo a comprometer-me em excesso com muitos projetos (…) Preciso de prazos, preciso de pressão, preciso que a minha mente esteja a trabalhar.”

Sobre vida e princípios:

  1. “Desde o início, fiz sempre apenas e só a televisão que queria fazer.”
  2. “Nunca tive de ser particularmente simpático com pessoas de quem não gosto. (…) Para ser honesto, na minha vida profissional não tenho nunca conversas ao telefone com pessoas de quem não goste ou que não respeite. Não tenho de atender ou cair nas boas graças de alguém que seja um otário.”
  3. “Quando vemos pessoas que conseguem fazer tanto com tão pouco, uma e outra vez, como resistem às dificuldades e persistem… repare, eu acredito em algumas virtudes básicas, sabe? Perdão, humildade, curiosidade, empatia.”
  4. “Desprezo tanto o comunismo quanto desprezo o nosso sistema [de vida]. Mais, até.”
  5. “Não preciso de vitórias. Preciso de sobreviver. Nunca fui uma pessoa competitiva. Desporto, sempre odiei profundamente. Sempre. (…) Só quero sobreviver. Não preciso de ser o número um. Não preciso de bater toda a gente. Não preciso de estar à frente dos outros. Só quero estar aqui no final de um dia, a fazer o que faço, sem ninguém me chatear.”

Sobre o dinheiro e os luxos:

  1. “Gosto de um quarto de hotel verdadeiramente bom, especialmente depois de ter ficado em alguns bastante precários. [Mas] o modo como compro coisas mudou bastante ao longo dos anos, talvez seja resultado da idade e de dois casamentos.”
  2. “Sei bastante bem o que é que não me vai fazer feliz. O carro perfeito não me vai fazer feliz. A casa perfeita provavelmente vai deixar-me triste e aterrorizado.”
  3. “Sou alguém que gosta de alugar coisas. É da minha natureza, gosto da liberdade de poder mudar de ideias acerca do que quero ser passados seis meses, passado um ano.”
  4. “Ao sentar-se sozinho ou com alguns amigos, meio bêbado debaixo de uma lua cheia, uma pessoa percebe quão sortuda é. É uma história que não pode contar, que, quase por definição, não pode partilhar. Aprendi em tempo útil a olhar para essas coisas e a perceber: acabei de ter um momento muito bom.”

Sobre os filhos e a paternidade:

  1. “A Asia [Asia Argento, à época namorada de Bourdain] disse-me isto: as crianças são criadas independentemente de nós. Tudo o que podemos fazer é mostrar… No meu caso, a minha filha sente-se amada. Sabe que é amada. Tem boa auto-estima. Isso é muito importante. E é boa em artes marciais. Portanto, sabe que pode vencer qualquer rapaz da sua idade. Isso é tudo quanto posso fazer como pai. Não posso escolher a música que ela ouve, quem namora, no que é que é que ela se vai transformar e isso. Posso dar-lhe algumas coisas básicas.”
  2. “Confia na tua criança, dá-lhe amor, fé e fala de alguma porra inteligente qualquer em frente a ela. E eles vão ficar bem. Tentar transformar uma criança num eu em ponto pequeno… Deixa-me doente.”

Anthony Bourdain em novembro de 2016 (Mike Coppola/Getty Images for Turner)

Sobre os seus programas de televisão:

  1. “Uma das coisas em que comecei a reparar foi: vai-se a um sítio como Beirut, e dás por ti a falar com uma mulher muçulmana. Se fores um jornalista com uma agenda, que vai para lá cobrir uma determinada história, com um determinado ângulo, vai-se direto ao assunto, às perguntas difíceis. Eu dou-me ao luxo de estar lá para comer. Presumivelmente. Estou lá para comer e para fazer perguntas muito simples.”
  2. “O que é que te faz feliz? O que é que gostas de comer, onde é que gostas de ir tomar um copo? De que é que tens saudades do sítio de onde partiste? [Ao perguntar isso] Descubro, inevitavelmente, estando apenas a passar o tempo e a fazer perguntas muito simples, que as pessoas me dizem as coisas mais espantosas. Muitas vezes, coisas que lhes seriam muito pouco confortáveis de dizer fora desse contexto informal: coisas que temos de editar ao montar o programa, porque podem causar-lhes problemas mais tarde”
  3. “Falo muito sobre mim durante as cenas [de gravação]. Prossigo e prossigo… À procura de maneiras de desarmar as pessoas, dizendo-lhes simplesmente coisas sobre mim que possam ser dolorosas ou embaraçosas. Mais tarde, editamos tudo aquilo. O ponto é sempre levar as pessoas a um ponto em que se sintam à vontade para dizer alguma coisa. Ou então faço uma procissão de perguntas realmente estúpidas, na esperança de que me deem uma resposta inteligente. E aí susténs a respiração e ouves.”
  4. “Tenho uma tendência que é dos nova-iorquinos, que revela mais do que o que é necessário sobre ele. Mas lembro-me, por exemplo, de uma mulher muçulmana, uma refugiada do Líbano, que começou a falar-me da descoberta da sua sexualidade. Começou por falar-me do quão horrível era ter de fugir do seu país, e de como descobriu a sua bissexualidade. Ela falou de forma muito franca sobre como teve esta revelação sexual durante uma época de guerra e foi impressionante; para a proteger, não usámos muito do que foi gravado.”
  5. “As pessoas de repente chegam a um ponto… Muitas vezes há álcool envolvido. Isto é muito importante: tu estabeleceste alguma coisa ao aceitar a comida dos outros, sem fazer qualquer julgamento e sem emitir expressões do tipo ‘uhhhhh, não sei’. E sem ceticismo.”
  6. “O erro letal é aceitar a cooperação de quaisquer entidades oficiais, sejam turísticas ou governamentais. Tentamos mesmo evitar isso. (…) Acontece haver uma pessoa que achas que é motorista ou tradutor e que está na verdade a trabalhar para o Ministério do Interior por detrás das tuas costas. Está a aterrorizar e intimidar as pessoas com quem vais falar para garantir que não dizem nada que embarace o governo ou pior — o pior de tudo — para garantir que as coisas aparentem ser melhores do que na realidade são.”

[Veja em baixo o ambiente de diversão em que se encontrava Bourdain no seu último vídeo]

Sobre o #Metoo e o clima nas cozinhas:

  1. “Se isto resultasse num puritanismo ou numa moral vitoriana seria monstruosa. Temos a carta de Deneuve e tudo mais; é mesmo difícil encontrar um meio termo aqui.”
  2. “Cresci num tempo pós-hippie em que as pessoas estavam a aprender a dizer que sim. Fui uma vez a uma universidade americana, estava rodeado de mulheres. Comecei a minha carreira na universidade de Provincetown que é 90% gay e qualquer mentalidade ou ethos que existisse nas minhas primeiras cozinhas (…) eram sexualmente muito libertadores. Toda a gente dormia com toda a gente, mas há coisas que não se faziam: não assediavas mulheres, não por quaisquer considerações éticas, mas porque isso não era fixe! Simplesmente não era — isso era o que a equipa de futebol fazia.”
  3. “Muitos dos chefs, todos os chefs sacanas, em especial os opressores, os da velha escola, foram abusados em crianças, abusados ou negligenciados pelos pais. Fisicamente, mentalmente, de todas as formas possíveis. Depois, tornaram-se parecidos com quem abusava deles e perpetuaram o sistema.”
  4. “Muitos chefs não perceberam (…) Eles não tiveram poder durante grande parte das suas carreiras. Não sei. Durante a maior parte da minha carreira, os chefs foram figuras sem poder.”

Sobre a forma como imagina a morte de Harvey Weinstein:

  1. “A minha teoria de como ele morre é: ele está a escovar os dentes numa casa de banho, está nu vestido só com o seu roupão famoso, revelador. Está a segurar o telemóvel numa mão, porque nunca se sabe quem é que, do “comboio Weinstein”, o traiu recentemente. E ele está a escovar os dentes, de repente tem um AVC, tropeça para trás e cai na banheira, com o roupão aberto fora da banheira. Nos seus últimos momentos, ele faz scroll pela sua lista de contactos à procura de pessoas a quem possa ligar, que vão realmente atender o telefone. E morre assim, sabendo que ninguém o vai ajudar e que não está com a melhor das aparências no momento em que morre.”

Um mural de homenagem ao chef, em Santa Monica, na Califórnia (Christopher Polk/Getty Images)

Sobre a política americana:

  1. “[Bernie Sanders] teria sido um oponente de sonho para o Trump. Vivemos numa sociedade profundamente racista. Odiamos intelectuais, odiamos judeus (…) Sou judeu, quer falar sobre os votos que ele podia tirar ao Trump? O que ia conseguir é que muitas pessoas de m**** que não planeavam votar passassem a ir só para manter o judeu fora da Casa Branca.”
  2. “Ver os Clintons a pedir desculpas ao Weinstein, vê-la [Asia Argento, então namorada do chef, que acusou Weinstein de a ter violado] a enviar mensagens às irmãs, ouvir as declarações…”
  3. “[Bill Clinton] é um homem muito charmoso, é magnético como a porra. Tal como ela. Quando estás com eles numa sala, pensas: uau, ela é verdadeiramente calorosa e simpática e divertida. Depois, vês que eles foram eficazes a desmantelar, destruir e a desacreditar sem vergonha alguma daquelas mulheres por dizerem a verdade.”
  4. “Vejo isto desta forma: nunca votaria em circunstância alguma em alguém como o Bill Clinton, hoje. Mas acho que o impeachment ao tipo por causa da [Monica] Lewinsky foi ridículo. Foi a forma como envergonharam, desacreditaram e minaram a credibilidade da mulher que os tornou totalmente desadequados para qualquer cargo futuro. Mas não acho que ele devesse ter sido retirado do cargo naquela altura.”
  5. “Achei o Obama sempre muito pouco convincente em público, na maior parte do tempo. Estava sempre à procura de um pouco mais de paixão e menos calculismo. Ao vivo, é em absoluto o tipo mais gracioso, agradecido, verdadeiro, divertido e honesto que se pode conhecer. Voltaria a votar nele mais uma porra de um vez, em qualquer momento.”

Sobre as drogas:

  1. “Posso fumar erva em minha casa, quando não preciso de usar o meu cérebro. Mas em tudo o que exija interações sociais com pessoas, ou em qualquer situação em que haja a possibilidade de ter de atender o telefone ou tomar uma decisão? Aí não o vou fazer!”
  2. “Sempre que estou em Inglaterra, estou na rua a beber com pessoas perfeitamente simpáticas e razoáveis. E então alguém… acontece sempre alguém dizer: vamos arranjar coca. E de repente toda a gente está pedrada com cocaína. Estamos em que ano, 1986?! Quem é que ainda toma cocaína? Mas que porra?”

Sobre dançar:

  1. “Não acho que seja um tipo capaz de fazer breakdance. Mas repare, se alguém de quem gosto me ensinasse a dançar um slow, ou me recordasse as minhas primeiras aulas de dança, ficaria muito feliz.”
  2. “Se conseguisse dançar tango, asseguro-lhe que o faria até ao último dia da minha vida. Mas não consigo.”

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