Bulimundo, Huun-Huur-Tu, Inner Circle, BaianaSystem, Sons of Kemet, Meridian Brothers e Vieux Farka Touré. É provável que nenhuma destas bandas lhe diga nada. Ir à confiança e estar aberto a sons de todos os cantos do mundo, da Jamaica ao Japão, faz parte da filosofia do Festival Músicas do Mundo (FMM), que chega agora à 20ª edição, de 19 a 28 de Julho, em Porto Covo e em Sines.

Se já é veterano no evento sabe do que estamos a falar. Se ainda está a deixar crescer as rastas, damos-lhe um empurrão e preparamos-lhe a lição com 20 curiosidades sobre o festival, considerado o ano passado um dos melhores da Europa.

Recorde de bandas

A primeira edição do festival, em 1999, no castelo de Sines, contou apenas com sete concertos e um cheirinho de multiculturalidade: Corvos (Portugal), Clã (Portugal), Carlos Núñez Band (Espanha), Opus Ensemble (Portugal), Abed Azrié (Síria/França/Espanha), Quinteto de Carlos Martins (Portugal) e Sonny Fortune (EUA) compunham o cartaz. Esta vigésima edição bate recordes na história do festival. São 59 concertos com bandas dos cinco continentes. Só falta mesmo um passaporte para carimbarmos todos os países que já ouvimos em Sines e Porto Covo sem precisar de vacinas nem de visto.

Problemas com vistos

Por falar em vistos, trazer músicos de lugares remotos e tratar de toda a burocracia tem sido um dos grandes desafios da câmara de Sines, a organizadora do festival. Aliás, não é invulgar haver cancelamentos de última hora. Por exemplo, a banda do Congo Konono n.1, inicialmente anunciada no cartaz do festival, teve de cancelar o seu concerto de 28 de Julho por problemas com vistos para a digressão europeia. Os Inner Circle, banda de reggae da Jamaica que este ano celebra 50 anos de carreira, vão substitui-los.

Primeira enchente

A primeira grande enchente do festival aconteceu em 2001 e a culpa é da dupla Sly & Robbie. Os jamaicanos tocaram com os Black Uhuru, também da Jamaica, e conseguiram a primeira grande plateia de Sines: 10 mil pessoas (não sabemos precisar quantos charros foram fumados). Voltariam a Sines dez anos depois, em 2011, para uma espécie de revival com Junior Reid, vocalista dos Black Uhuru.

A verdadeira enchente

Os números de 2001 são pequenos quando olhamos para as últimas edições do festival. Mais de metade dos concertos são gratuitos e sem controlo de entrada, o que dificulta as contas da organização. Entre 2014 e 2017, estima-se que em cada ano ali estiveram “cerca de 90 mil pessoas”. A verdadeira enchente foi em 2013, com “cerca de 100 mil espectadores”. Nesse ano, Hermeto Pascoal (Brasil), Amadou & Mariam (Mali), Rokia Traoré (Mali), Femi Kuti (Nigéria), Skip & Die (África do Sul/Holanda) e Bomba Estéreo (Colômbia) eram alguns dos nomes do cartaz de luxo.

A culpa é de Vasco da Gama…

Segundo o site do festival, Vasco da Gama é o culpado por esta obsessão pela world music. O objectivo da primeira edição do festival era “valorizar o castelo de Sines, ligado à biografia do navegador Vasco da Gama, através de um acontecimento que mostrasse a diversidade das expressões musicais do mundo”, lê-se. O navegador nasceu em Sines em 1469. Não se sabe ao certo o local, mas uma das teorias aponta para a segunda torre de menagem do castelo.

…e de Carlos Seixas

Na verdade, o responsável pelas escolhas musicais do festival desde a primeira edição é o director criativo e de produção Carlos Seixas. Já foi professor de matemática e agora contas só as destas 20 edições do FMM: 1 milhão e 120 mil espectadores, 531 concertos e 3010 músicos oriundos de mais de 100 países e regiões. Carlos Seixas já foi eleito Personalidade do Ano em 2014 pela Aporfest.

Porto Covo

Em 2005, o festival expandiu-se de Sines para Porto Covo, com um palco montado num descampado próximo do porto de pesca, com vista para o mar. Os concertos em Porto Covo foram interrompidos em 2009 e voltaram em 2014 num novo palco, no Largo Marquês de Pombal.

Avenida da Praia

Em Sines, os palcos dividem-se entre o castelo, o Centro de Artes de Sines, o Largo Poeta Bocage e a Avenida da Praia (ou Avenida Vasco da Gama). É esta Avenida que recebe as maiores enchentes, principalmente de madrugada, com concertos gratuitos noite dentro. O último concerto desta edição do festival (Cero39, da Colômbia) está marcado para a madrugada de domingo, às 05h45. Mantenha-se acordado até lá porque vale sempre a pena.

Fogo de artifício

Também no sábado, último dia do festival, há uma tradição que se mantém: o fogo de artifício no castelo a encerrar os festejos.

Financiamento

Segundo a agência Lusa, o orçamento do festival é de 780 mil euros, financiados pela Câmara Municipal de Sines, que recorre a apoios. “Reivindica um ‘caráter de serviço público’, revelado na gratuitidade de quase dois terços dos concertos.”

Prémios e mais prémios

Ao longo desta 20 edições, o FMM soma prémios, o último o de Melhor Programa Cultural da Península Ibérica no Iberian Festival Awards 2018. Pela revista Songlines foi considerado um dos Melhores Festivais Internacionais em 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Em 2017, o festival recebeu o EFFE Award, atribuído pela European Festivals Association a “seis dos mais influentes festivais europeus”.

Copo reutilizável

A partir de 2018, também se pode candidatar a prémios de sustentabilidade. A organização quer reduzir o plástico no festival e tem um novo copo reutilizável, obrigatório nos concertos no castelo. Na compra da primeira imperial paga 2€ e ganha o copo. As cervejas seguintes vão custar-lhe 1,5€.

Campismo

Durante o festival, que acontece sempre em Julho, é quase impossível arranjar alojamento em Sines e Porto Covo. Há quem durma na praia, há quem monte a tenda em qualquer pedaço de relva que encontrar e há quem opte pelo parque de campismo gratuito da organização (com WC e duches), a 15 minutos a pé do castelo. Também há novas opções de glamping para quem quer mais luxos.

Mali

O Mali é um dos países de destaque na programação de várias edições do festival. Este ano, em Junho, o Centro de Artes de Sines recebeu uma residência artística do grupo Maravillas de Mali, a primeira orquestra de música afro-cubana do país, criada nos anos 60 por estudantes malianos enviados para Cuba para aprender música. Regressam a Sines na sexta, 27, para um concerto no castelo à 01h45.

Portugal

Claro que há sempre artistas nacionais no cartaz. Este ano, Aldina Duarte (19 de Julho), Fogo Fogo (20 de Julho), Susana Travassos (26 de Julho), Scúru Fitchádu (27 de Julho), Live Low (28 de Julho) e Sara Tavares (28 de Julho) foram os escolhidos.

Miúdos

O festival tem programas especiais a pensar nos miúdos, como os workshops matinais com músicos que tocam no festival. As inscrições fazem-se através do telefone 269 860 080 e são para crianças entre os 6 e 12 anos, de 25 a 28 de Julho, sempre às 11 da manhã. Na programação paralela ao festival também há yoga para famílias e visitas aos bastidores. Miúdos até aos 12 anos não pagam bilhete.

Feira do livro e do disco

É a melhor oportunidade para descobrir discos que não encontra em mais lado nenhum. De 23 a 28 de julho, das 16h00 às 02h00, a Capela da Misericórdia, em Sines, recebe a Feira do Livro e do Disco, com a participação da livraria A das Artes, da loja de discos VGM e do ateliê de tipografia artesanal O Homem do Saco.

Esgotado

A julgar pelas edições anteriores, prepare-se para bilhetes esgotados para os concertos no castelo. Compre com antecedência. Os bilhetes têm um custo diário de 10 euros (25 de julho), 15 euros (26 e 27 de julho) e 20 euros (28 de julho). O passe para as quatro noites custa 50 euros e o passe para as noites de 27 e 28 de julho custa 30 euros. Os bilhetes vendem-se em fmm.bol.pt.

Tasquinhas

O festival coincide sempre com as Tasquinhas de Sines, também na Avenida da Praia, um best of da gastronomia local para que não perca tempo em filas de restaurantes. Este ano há um concurso para eleger a melhor feijoada do mar.

Rastas, cães e vinho de pacote

Este é o festival ideal para estrear aquelas calças largas às riscas que comprou numa feira de artesanato. Ou para beber vinho de pacote na praia ao som de djembés e pensar naquele curso de malabarismo com fogo que anda a adiar. Não se esqueça que estamos no festival do país com mais cães e mais gente descalça.

Todas as informações sobre a edição deste ano do Festival Músicas do Mundo aqui.