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Boris Johnson acusou Theresa May de “vacilar” na estratégia de saída do Reino Unido da União Europeia, tendo desenhado um modelo que colocará o país numa posição de “vassalagem económica”. No entanto, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico mostra-se otimista e acredita que ainda é possível dar a volta: “Não é tarde demais para salvar o Brexit”, afirmou Johnson, no seu discurso de demissão, esta quarta-feira, no Parlamento britânico. “Ainda temos tempo nestas negociações.”

Ao contrário do que se tinha imaginado, numa antecipação ao seu discurso, o antigo presidente da Câmara de Londres, que apresentou a sua demissão no passado dia 9 de julho, não protagonizou um ataque implacável à primeira-ministra britânica, mas apelou a que se regressasse à visão do Brexit que apresentou no ano passado.

O Evening Standard recordou que, noutras ocasiões, ministros que bateram com a porta aproveitaram os discursos de demissão para atacar o líder do governo. Aliás, as palavras de saída do vice-primeiro-ministro Geoffrey Howe, em 1990, foram o ponto de partida para a saída de Margaret Thatcher do poder — aconteceu nove dias depois.

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Johnson, que antes de integrar a equipa de May fez campanha pelo Brexit, começou por elogiar Theresa May, descrevendo-a como sua “amiga”. “Todos os que trabalharam com ela vão reconhecer a sua coragem e resiliência”, afirmou o ex-ministro, considerando que “foi um privilégio colaborar com ela na promoção de um Reino Unido global”, um país “ansioso” por fazer um acordo “ambicioso e compreensivo” com a União Europeia.

Mas nos últimos 18 meses, acrescentou, surgiu um “nevoeiro de insegurança”, o que fez com que a visão para o Brexit, apresentada no ano passado, nunca chegasse a Bruxelas. “Em vez disso estremecemos. Concordámos em entregar 40 mil milhões de libras de taxa de saída [aquilo que o Reino Unido já se tinha comprometido a pagar à UE], sem que houvesse qualquer discussão sobre a nossa futura relação económica”, afirmou Johnson, sublinhando que “há vários setores em que os ministros não terão qualquer poder para iniciar, inovar ou até desviar-se” da UE, sendo que era precisamente isso que se pretendia com a saída da UE.

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Para Boris Johnson, que falou durante 12 minutos, o Governo ainda “nem sequer tentou” apresentar à União Europeia o tipo de saída a que se tinha proposto. “Temos de tentar agora, porque não vamos ter uma outra oportunidade para fazer isto da forma correta. É absurdo imaginar — como receio que alguns dos meus colegas o façam — que nos podemos dar ao luxo de fazer um acordo fracassado agora e, mais tarde, fazê-lo de novo.”

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O antigo ministro disse ainda que a solução passa por “acreditar no país” e naquilo que é capaz de alcançar, acrescentando que as pessoas que admiram o Reino Unido esperam que o país consiga “voltar a retomar o controlo” da situação e que se comporte como “um ator independente no palco do mundo, que faça acordos de comércio livre para o benefício e prosperidade dos britânicos”.

“Essa foi a visão do Brexit pelo qual lutámos; essa foi a visão que a primeira-ministra descreveu corretamente no ano passado. Esse é o prémio. E se a primeira-ministra conseguir dar-nos essa visão novamente, então acredito que conseguirá um grande Brexit para o Reino Unido, com uma abordagem positiva e confiante que irá unir este partido, esta Casa e unir também o país.”

Tão amigos que eles nunca foram: o que está a causar tantas demissões no governo de May?