“Todos os dias, os guardas diziam às crianças da minha cela que elas seriam adotadas e que nunca mais veriam os seus pais”. Angel, um menino mexicano de 13 anos, foi separado em maio da sua mãe, com quem tinha entrado ilegalmente nos Estados Unidos. O centro de detenção de imigrantes em McAllen, no Texas, onde passou seis dias com outros menores, foi “um pesadelo”. Costumava chamá-lo de “canil”, onde as celas eram frias e as noites nunca tinham sossego total.

“Eu não sabia onde a minha mãe estava”, escreveu Griselda, uma rapariga de 16 anos da Guatemala, queixando-se dos gritos constantes dos guardas. Já para Brandon S., que esteve no centro de detenção em San Ysidro, na Califórnia, o problema eram “as luzes da sala que eram muito brilhantes e estavam acesas dia e noite”. Ninguém sabia que horas eram nem o cenário que estava lá fora.

Estes são três os 200 testemunhos que, segundo o El Pais, foram reunidos em junho e julho por organizações sociais num processo na Califórnia contra a administração de Donald Trump pelo forma como tratam os imigrantes que fogem ilegalmente dos seus países devido à violência. O frio extremo, o elevado número de pessoas nas celas, a falta de qualidade da água e da comida e até as ameaças e o assédio dos guardas são situações comuns descritas em cada história.

A política de separação de famílias na fronteira dos Estados Unidos foi alterada a 20 de junho, quando a administração de Donald Trump, depois de várias críticas, emitiu uma ordem que definiu que as famílias passariam a ser detidas em conjunto — crianças e pais. A administração pediu para a detenção ser por período indefinido, mas um juiz decidiu que a validade da detenção seria 20 dias, estando assim em concordância com o chamado “Acordo de Flores” de 1997, que determina que um menor, mesmo estando com os pais, não pode ser detido por mais de 20 dias. Até ao final deste mês, as cerca de 2.600 famílias que foram separadas vão ter de ser reunidas novamente.

Os testemunhos não são apenas de crianças. Há adultos que também dizem não ter tido condições nos centros de detenção. Daise M., uma mulher de 38 anos, viajou das Honduras para os Estados Unidos com a sua filha de 16 anos, depois de ter sido ameaçada de morte. “Eles deram-nos comida, mas estava congelada e não servia para comer. Cheirava tão mal que decidimos ficar com fome em vez de comer”, contou. Agora que voltou a reunir-se com a filha, Daise contou que a jovem continua “deprimida, tem pesadelos e muita ansiedade sobre a separação”. As guardas, acrescenta, “não a deixavam dormir e espancavam-na para mantê-la acordada”. Não tomaram banho durante cinco dias e quando o puderam fazer as instalações estavam “sujas e repugnantes”.

Em declarações ao El País, Peter Shecy, advogado do Centro de Direitos Humanos e Direito Constitucional, diz que 90% dos testemunhos são “chocantes e atrozes”, tendo pedido no processo “a nomeação de um agente especial para garantir que as autoridades estão a cumprir a decisão de 1997”.