Campeonato Sul-Americano Sub-17, 8 de Março de 2017. O Brasil defronta o Paraguai, em jogo a contar para o grupo B da competição, e até acaba por empatar a duas bolas, mas o mais importante desse encontro não seria o resultado: à passagem da meia hora, um miúdo de 16 anos pega na bola e fá-la passar por cima, não de um, nem de dois, mas de três adversários. O lance não teve grande efeito prático no jogo, para dizer a verdade, mas viria a ter na carreira de Vinicius Júnior, autor do malabarismo, que chamou para si as atenções da prova de aí em diante. Na altura, o jovem ainda nem se tinha estreado pela equipa principal do Flamengo, onde militava nos escalões de formação, mas despertava o olhar mais atento do povo brasileiro e dos tubarões europeus. E o resto do Campeonato Sul-Americano viria a confirmar as primeiras indicações: Vinicius foi o melhor marcador da prova com sete golos em nove partidas e conquistou o prémio de melhor jogador da competição, que terminou com a vitória do Brasil (na última partida, os canarinhos venceram a formação anfitriã do Chile por 5-0). As consequências não se fariam esperar e, dois meses depois, o Real Madrid pagava 45 milhões de euros ao Flamengo para garantir os serviços da promessa de 16 anos. O jogador manteve-se no Rio de Janeiro até completar 18 anos, no passado dia 12 de Julho, quando viajou para Espanha; esta quinta feira, foi oficialmente apresentado como ‘merengue’.

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Apontado como o próximo Neymar, Vinicius Júnior não teve uma infância fácil. O jovem avançado cresceu em São Gonçalo, uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, no alto do bairro Portão do Rosa. Aí, dividia uma casa de quatro divisões com os pais, os dois irmão e os avós; bem perto, no Salgueiro, considerado pela polícia brasileira um dos complexos de favelas mais perigosos do Rio, começou a dar os primeiros pontapés na bola.

“Não vale a pena ir lá fotografar. Podem assustar-se com a presença dos traficantes na zona”, conta Vinicius José Paixão de Oliveira, pai do novo ‘merengue’, em declarações ao jornal Folha de S. Paulo. A dura realidade de um futuro comum naquela zona, manchado pelo tráfico de droga e o crime, pairavam no ar de São Gonçalo. Com um milhão de habitantes, a zona onde Vinicius vivia era dominada pelo crime e pelo lixo – na rua, nas casas, em todo o lado. Mas Vinicius sabia o que queria e nada o impedia de manter o foco no futebol: quando muitos amigos da jovem estrela procuravam subir na vida através do mundo do crime, o avançado só queria jogar à bola e nunca enveredou por caminhos mais dúbios.

“Ele sempre foi obcecado por futebol. Jogávamos na rua da casa dele e, quando estava cheia de entulhos, limpávamos tudo com uma enxada só para podermos jogar”, conta um ex-vizinho, ao jornal Globo. Mas a busca incessante pelo sonho de viver do futebol levou Vinicius a abandonar a zona de São Gonçalo, com 14 anos. O avançado foi morar com um tio para Piedade, zona mais a norte do Rio, de forma a ficar mais perto do campo de treinos do Flamengo, a sua grande paixão clubística. 

De São Gonçalo, levou uma alcunha: Beiçola, ganha no bairro e no clube por jogou. A treinar nas escolinhas do Flamengo em São Gonçalo desde os seis anos, Vinicius Júnior desde cedo se revelou um caso particular: o responsável pelas escolas não cobrava a mensalidade de 100 reais (cerca de 23 euros) à família do avançado, por estar “espantado” com o seu futebol. E o caso não era para menos, já que, ao serviço das escolinhas do Flamengo, Vinicius Júnior arrecadou 20 títulos regionais, antes de viajar para perto do Estádio Luso Brasileiro, casa do clube do Rio.

Aí, a nova pérola ‘canarinha’ foi evoluindo nos juniores do Flamengo, até ao já falado Campeonato Sul-Americano 2017. A estreia pela equipa principal do Flamengo deu-se depois dessa competição e, pela altura em que o Real Madrid fechou a compra do brasileiro, este contava apenas 15 minutos de futebol sénior. Dado que não impediu Florentino Pérez de abrir os cordões à bolsa para garantir os serviços do jovem, que também era seguido de perto pelo rival Barcelona. O clube da capital espanhola chegou mesmo a fazer um seguro para evitar prejuízos caso Vinicius Júnior se lesionasse antes da viagem para Espanha.

No último jogo no Estádio Luso Brasileiro, Vinicius Júnior festejou a vitória sobre o Paraná e despediu-se dos adeptos que sempre o apoiaram no clube (Créditos: Getty Images)

Quando chegar a Madrid, vai pisar terrenos antes marcados pelo seu ídolo: Robinho. A antiga promessa do futebol brasileiro teve uma passagem não muito feliz pelo Real Madrid e encontra-se agora ao serviço do Atlético Mineiro. Quis o destino que a estreia de Vinicius Júnior na equipa sénior do Flamengo fosse exatamente contra o Atlético Mineiro, com Robinho em campo, pela equipa adversária. O jovem brasileiro jogou nove minutos e, no final da partida, recebeu a camisola do seu ídolo de presente, num dia que nunca mais irá esquecer. Registo curioso: Vinicius Júnior estreou-se no futebol profissional aos 16 anos; Neymar e Robinho apenas aos 17. 

Ao serviço do Flamengo, Vinicius Júnior realizou 69 partidas, nas últimas duas épocas, marcando 14 golos. O jovem avançado, que prefere atuar a partir da meia esquerda dando uso ao seu virtuoso pé direito quando flete para o meio, nunca se assumiu como titular absoluto na equipa brasileira, mas conquistou o coração dos adeptos, que por várias vezes gritavam pela sua entrada a partir da bancada. No coração, Vinicius leva São Gonçalo e as escolinhas onde deu os primeiros pontapés – “Ele visita-nos sempre depois de um título conquistado. Faz questão de trazer a medalha. Foi assim no início do ano, quando venceu o Campeonato Sul-Americano Sub-17″, conta Valéria Dinucci, administradora da escolinha de futebol, que assistiu de perto ao crescimento de Vinicius e o ajudou a ultrapassar algumas fases mais complicadas, como a morte do seu avô.

Hoje, Vinicius Júnior pode dizer que venceu a guerra contra o crime em São Gonçalo. Pelo menos, a sua. Quando tinha tudo para ir por caminhos errados, optou pelo certo e o destino sorriu-lhe. Agora, é um exemplo para quem se vê obrigado a optar pela realidade com que lida diariamente ou aquela com que apenas vai sonhando. “Ele sempre pensou no futebol, era muito calmo. Hoje, o Vinicius é usado como motivação aqui. Numa área conflituosa, estamos sempre a tentar influenciar os alunos com exemplos positivos“, confessa Rosângela, coordenadora de uma das escolas públicas que Vinicius frequentou, com quase 800 alunos, a maioria em situação de carência.

No Santiago Bernabéu, Vinicius Júnior tinha à sua espera uma apresentação com pompa e cirscunstância e a companhia de alguém especial para qualquer futebolista brasileiro: o Fenómeno, Ronaldo. Começa uma nova etapa na vida do Beiçola, que viajou até Madrid na companhia do pai e do tio. Dias depois de completar 18 anos, Vinicius Júnior é oficialmente jogador ‘merengue’ e leva consigo o peso de uma transferência milionária. Para trás, ficam os tempos em que limpava o lixo da rua para poder jogar; para a frente, só o futuro o dirá.