E se, meia hora antes do início de cada aula, as crianças não abrissem qualquer livro e ouvissem apenas histórias inspiradoras e meditassem? Não aconteceu em Portugal, mas na Índia o novo ano letivo de 100.000 crianças em Nova Deli começou com uma nova disciplina: a felicidade.

A iniciativa do Governo foi apresentada pelo ministro da Educação de Nova Deli, Manish Sisodia, num estádio cheio de professores, que marcaram presença no lançamento da nova unidade curricular. O objetivo é aumentar o bem-estar dos alunos, numa altura em que o ensino indiano encoraja uma aprendizagem mecânica, que cria grandes níveis de stress nos estudantes.

“Nós demos os melhores profissionais para a indústria. Nós fomos bem sucedidos até agora. Mas fomos capazes de entregar os melhores seres humanos à sociedade e à nação?”, questionou o ministro.

Na Escola Secundária de Governo de Chilla Village, visitada pelo Washington Post, a nova disciplina já começou a ser implementada. “Devemos trabalhar felizes”, disse Aayush Jha, de 11 anos, aluno do sétimo ano. “Quando trabalhamos com tristeza, o trabalho não será bom”, acrescentou.

Já o professor de matemática Sonu Grupta contou aos alunos a história do físico Stephen Hawking, que mesmo com uma doença neurodegenerativa conseguiu fazer o que mais gostava. No andar de cima, Santosh Bhatnagar, que ensina sânscrito, pediu aos alunos da sua turma do sétimo ano que fechassem os olhos e imaginassem algo que os fizesse felizes.

O currículo da disciplina da felicidade tem um conjunto de 20 histórias e 40 atividades, elaboradas de forma a treinar as crianças a pensar de forma lógica e criativa e a compreender o seu papel na sociedade. “Aprendi que devemos aprender a ter fé em nós mesmos e que aqueles que tentam nunca falham”, disse Dipanshu Kumar, de 12 anos, na classe de Gupta.

No entanto, nem todos os professores estão convencidos, avança o jornal norte-americano. Muitos consideram que as escolas públicas estão demasiado cheias para um currículo tão baseado na interação na sala de aula: “Se tivermos 80 alunos na nossa turma, como podemos acompanhar cada criança em apenas 35 minutos?”, questionou Bharti Dabas, que ensina inglês numa escola do Governo. Por outro lado, há quem não acredite que as aulas de felicidade possam mudar a cultura enraizada nos exames.

Este sistema, implementado por Sisodia, foi inspirado na região de Bhutan, que no início dos anos 70 implementou o chamado “índice de felicidade nacional bruta”, que serviu para medir o seu desenvolvimento, como uma alternativa ao indicador do produto interno bruto.

Manish Sisodia é conhecido pelas suas políticas pouco ortodoxas na educação, incluindo a promoção do ensino público em detrimento da educação privada. Desde 2011 o seu partido, Aam Aadmi, decidiu aumentar as despesas com a educação, que agora representam 26% do orçamento da cidade.