Beleza e Bem Estar

Solários. Com tanta informação, porque continuam a ser usados?

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A obsessão dos solários voltou e alguns países estão a tentar bani-los. Conheça histórias que mostram o perigo real destes aparelhos e alguns factos para deixar de vez de os utilizar.

O solário pode expor a pele a radiação UV quase quinze vezes maior que o sol do meio-dia do Mediterrâneo.

GREG WOOD/AFP/Getty Images

Estávamos em 2012 quando a modelo Kate Moss iniciou no Reino Unido uma campanha solidária de consciencialização sobre os perigos dos solários. Na altura, muitas das principais agências de modelos britânicas aderiram à campanha de combate ao cancro de pele, declarando que se recusariam a representar modelos que fossem utilizadoras de solários. Com o mercado da moda a deixar de apoiar o bronze, pensava-se que seria o principio do fim desta tendência dos solários mas a verdade é que pouco ou nada mudou.

No Observador já falámos de mil e um temas de beleza. Mas nunca falámos de solários. Na única ocasião em que abordámos o tema foi para contar a história de uma mulher viciada em solários desde os catorze anos e a quem, aos trinta e dois, foi diagnosticado cancro de pele.

Mas, infelizmente, os reality shows e as redes sociais (e não só, calro) voltaram a tornar o bronze uma obsessão. E já tem nome: “tanorexic” — um distúrbio em que a pessoa acredita que a pele morena a torna mais bonita e desejável. E não há qualquer dúvida dos riscos destes aparelhos. Então porque é que ainda tanta gente é fã de solários?

A popularização dos solários nas redes sociais

No início deste ano, o presidente da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC), Osvaldo Correia, afirmou que os solários são um “cancerígeno completo”, apelando para o reforço da sua fiscalização, enquanto não podem ser encerrados definitivamente. Mas a verdade é que há muita falta de consciência, informação e as pessoas continuam em negação relativamente aos riscos, dizendo que são mitos e dramatismos porque, seguindo todos os cuidados, os solários são seguros. Esta moda continua popular porque, como diz a revista britânica Stylist, as pessoas acreditam realmente que as consequências dos solários não lhes vão acontecer a elas e estudos mostram que associamos os solários a beleza e saúde — pessoas saudáveis, bonitas, morenas.

Esta associação extrapolou drasticamente com o fenómeno dos blogues e redes sociais onde é possível ver pessoas jovens com influência a incentivar ao uso dos solários, alegando que os riscos não passam de mitos. Nos últimos meses, várias figuras públicas e influenciadoras portugueses fotografaram-se a ir ao solário, exaltando o seu bronze que fica natural. E não é preciso ir mais longe: o universo dos blogues é ainda mais perigoso porque não há controlo da informação que é partilhada sem conhecimento por pessoas que se assumem como especialistas para a sua audiência.

Uma blogger portuguesa escrevia no início do verão que “o simples facto de passarmos dois ou três meses na praia a apanhar escaldões e passar as piores horas de calor ao sol é mais perigoso que fazer umas sessões de solário”, acrescentando ainda que “isto é um bocadinho um mito porque as pessoas acham que por fazerem sessões de solário estão a aumentar drasticamente a probabilidade de ter cancro quando na verdade fazemos coisas no nosso dia a dia que são tão ou mais perigosas para a saúde”.

Alguns factos sobre os solários

  • Solários são cabines equipadas com tubos de luz que libertam radiação UV artifial concentrada.
  • Como não há fiscalização, a radiação dos solários pode produzir um risco de cancro até seis vezes maior que o sol do meio-dia (o mais perigoso).
  • O solário pode expor a pele a radiação UV quase quinze vezes maior que o sol do meio-dia do Mediterrâneo.
  • Estudos mostram que os utilizadores de solários antes dos 35 anos aumentam o risco de desenvolver melanoma em 75% e o risco de carcinoma espinocelular é mais do dobro relativamente às pessoas que não usam solários.
  • O limite legal de radiação máxima nos solários não pode exceder os 11 DEM por hora (dose eritematosa mínima) mas este nível de radiação já é o equivalente ao sol nos trópicos, perto do equador (e isto se os solários respeitarem a legislação).
  • A Organização Mundial de Saúde declarou este nível de radiação 11 como “extremo” e aquele que, na vida real e na rua, nos faria correr para a sombra.
  • Alguns países como o Brasil e a Austrália já baniram os solários e outros, como França e Reino Unido, estão em campanhas para o mesmo (no Reino Unido já foram banidos a adolescentes com menos de 18 anos).

Esta informação está na Internet e por aqui vai ficar eternamente. Sempre que alguém pesquisar no Google “solário em Lisboa”, esse post vai aparecer. E uma pessoa vai ler, pode acreditar que a blogger tem razão e que, afinal, não há riscos. Mas eis a verdade:

Estudos do The Cancer Research UK mostram que o risco médio de cancro nos solários é mais do dobro do que no mesmo período de tempo no sol do verão do meio-dia. Números exatos? O solário pode produzir um risco de cancro até seis vezes maior que o sol do meio-dia (que é o mais perigoso).

Jovens são a população em maior risco

Porque os especialistas assumem que são quem está mais suscetível a esta moda que parece não parar. E a existência de solários low-cost veio piorar este “monstro” — há locais que fazem sessões de dez e vinte minutos a quatro e a seis euros.

Em 2015, a selfie de uma jovem americana tornou-se viral e as pesquisas no Google por cancro de pele bateram recordes e voltaram a lançar atenção sobre este tema. Tawny Willoughby de vinte e sete anos partilhou que foi obcecada por solários desde os quinze anos, chegando a fazer sessões quatro vezes por semana. Aos vinte e um anos, foi-lhe diagnosticado o seu primeiro cancro de pele e nos seis anos seguinte teve cinco carcinomas basocelulares, o tipo mais comum de cancro de pele, e um carcinoma espinocelular, outro comum.

Quando partilhou a sua fotografia, Tawny escreveu: se alguém precisa de um pouco de motivação para não se deitar num solário e ao sol, aqui está. Felizmente, Tawny não teve nenhum melanoma — o tipo de cancro de pele que pode espalhar-se para outros órgãos do corpo — mas teve vários carcinomas durante os últimos seis anos. No Facebook escreveu:

Por mais que tente ultrapassar, vivo com raiva a maior parte do tempo. Estou zangada porque a sociedade diz às adolescentes que o bronzeado é bonito. Estou zangada porque apesar de ouvirmos que o bronze pode causar cancro, parece que ninguém leva isto a sério ou sabe exatamente o que isso significaria para si. A parte mais assustadora sobre os danos causados pelo sol é que não sabemos quanto dano já fizemos ou como os nossos corpos vão reagir a isso. Podemos parar de nos bronzear hoje e ainda ter cancro de pele daqui a vinte anos devido ao dano que provocámos ontem. E eu quero que as pessoas ouçam a minha história e percebam que isto pode acontecer com elas, que a juventude e a beleza não são protetores contra o cancro.

Tawny Willoughby à esquerda durante a adolescência bronzeada de solários e à direita durante os tratamentos de carcinomas.

Mas a história de Tawny não é a única que se popularizou na Internet. Margaret Murphy é outra história que pode acompanhar, bem como a de Alicia Hunter e de Katie Miller — histórias que mostram o perigo dos solários na primeira pessoa.

Assim, da próxima vez que quiser mesmo um bronze falso, tente estes auto-bronzeadores ou vá a uma loja fazer um jet bronze. É seguro, sem riscos e a sua pele vai ficar-lhe grata para sempre.

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