“Happy End”

A vida de uma família abastada de Calais em que todos os membros, da neta pequena ao avô, têm algo a esconder e vivem num deserto de amor e numa desolação das almas, sob fundo de crise dos migrantes ilegais. Michael Haneke falha, em todos os azimutes, o seu novo filme, que pretende ser um retrato do estado lamentável da condição humana nos dias agitados que correm e uma exposição da insensibilidade e da má consciência dos ricos e privilegiados, feitas com a impassibilidade gelada e o laconismo emocional que lhe são proverbiais. Mas “Happy End” (até o título cai no fácil e no óbvio) fica-se por uma demonstração inerte e entediante de pessimismo radical e de indignação “humanista” e social, através de um compêndio de “déjá vus” do cinema de Haneke. Com Isabelle Huppert, Matthieu Kassovitz e Jean-Louis Trintignant, cuja personagem a certa altura faz uma ponte para a que interpretou em “Amor”, o filme anterior do cineasta.

“Linhas de Sangue”

Realizado por Sérgio Graciano e Manuel Pureza, “Linhas de Sangue” é  um daqueles colossais mal-entendidos que surgem de vez em quando num cinema português polarizado entre os títulos “autoristas” e as produções pseudo-industriais, uma pretensa comédia satírica de acção disforme e grosseira, sem rei nem roque, vácua de estrutura, lógica ou uma suspeita que seja de piada, que se recusa a acabar e arrasta por mais de duas horas sem nexo nem justificação. O cartaz do filme, aliás, é a expressão gráfica do caos em que o mesmo vive. O elenco contabiliza dezenas de actores e de caras “conhecidas” e “famosas” da televisão e das revistas de futilidades, que por ali andam a penar fazendo figuras tanto mais embaraçosas quanto maior é o tempo que estão em cena. Um dos momentos mais ineptos, grotescos e desesperantes do cinema português recente.

“A Gaivota”

Mais uma adaptação ao cinema de uma peça de Anton Tchékhov, um dos dramaturgos favoritos da Sétima Arte. Desta feita é a “A Gaivota”, já antes filmada por várias vezes, em adaptações fiéis ao texto original como em versões mais livres, por cineastas tão variados como Sidney Lumet ou Claude Miller, bem como por realizadores russos como Yuli Karasik. Esta é assinada por um homem do palco, o americano Michael Meyer, nome muito conhecido da Broadway, que também já realizou um par de filmes, e com argumento de um dramaturgo premiado, Stephen Karam. No elenco, o ponto forte desta fita, surgem nomes como Annette Bening, Saiorse Ronan, Elizabeth Moss, Corey Stoll, Brian Dennehy, Billy Howle ou Mare Winningham. “A Gaivota” foi escolhida como estreia da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.

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