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As autoridades da província de Jiangxi, no sudeste da China, estão a levar ao extremo uma campanha que procura erradicar o enterramento de mortos, ao desenterrar vários caixões apesar das críticas que vão desde os media liberais sinólogos, como o South China Morning Post, àqueles que pertencem ao Estado chinês.

De acordo com o South China Morning Post, estão a surgir vídeos nas redes sociais chinesas de caixões a serem desenterrados e os corpos exumados, apesar dos protestos dos familiares que se têm concentrado nos cemitérios. As imagens que foram publicadas mostram como algumas pessoas se têm deitado, em lágrimas, dentro dos caixões que foram retirados, como forma de protesto.

Segundo o jornal Thepaper.cn, do Estado chinês, as autoridades locais instaram às populações de 24 aldeias e vilas do condado de Gaoan, na província de Jiangxi, entregassem de forma voluntária 5800 caixões. De acordo com o mesmo jornal, citado pelo anglófono South China Morning Post, terá sido oferecida a quantia de 2 mil yuan (251 euros) por cada caixão entregue voluntariamente. Porém, há várias famílias que estão a resistir a fazê-lo de livre vontade, o que motiva as autoridades locais de Jiangxi a levarem retroescavadoras para os cemitérios com o fim de retirar de lá os caixões.

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O The Guardian explica que em 1956 Mao Tsé-Tung, num gesto que com ecos do que uma década depois se viria a transformar na Revolução Cultural, descreveu que as tradições fúnebres utilizadas à altura era uma “superstição feudal” e promoveu a cremação como o procedimento mais adequado para os mortos.

Porém, de acordo com o South China Morning Post, as autoridades estão a defender esta medida como sendo uma forma de preservar a qualidade dos terrenos, para que estes sejam eficazmente usados para fins agrícolas.

Seja qual for a razão, a medida está a ser criticada até nos meios de comunicação centrais do Estado chinês. No People’s Daily, lia-se num editorial: “Haverá alguma razão para avançar com uma medida tão dura e até bárbara?”. E continuava com uma mensagem para as autoridades locais: “Mesmo que as reformas para os funerais sejam implementadas eficazmente, os sentimentos das pessoas foram magoados e a credibilidade da administração foi perdida”. Além disso, refere-se naquele editorial daquele jornal próximo do Partido Comunista Chinês que “o ressentimento acumulado disparar a instabilidade”.

O South China Morning Post disse em editorial que esta política é “deplorável”. “Uma vez que interferiu com as últimas homenagens que os chineses prestam aos seus ancestrais, a abordagem agressiva das autoridades de Jiangxi é deplorável”, lê-se num editorial publicado esta quinta-feira.