Escapadinhas

Levei o meu cão a um hotel de luxo e ele foi cinco estrelas

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Senhor Costa, o cão-repórter, foi até Évora para ver como é ficar hospedado com os donos no Convento do Espinheiro, um hotel de cinco estrelas que já aceita hóspedes de quatro patas.

Autor
  • Catarina Homem Marques

Indiferente ao estatuto de rafeiro que o mundo lhe atribui, o Senhor Costa saltou do banco de trás do carro, cheirou o pneu do Jaguar que estava estacionado ao lado, achou pouco interessante e seguiu confiante em direção aos muros brancos e silenciosos de um antigo mosteiro do século XV convertido em hotel de cinco estrelas com spa, como se todos os fins-de-semana fossem assim.

Era um cão com uma missão, mas não estava muito preocupado com isso, sobretudo a partir do momento em que encontrou alguns arbustos no pátio da entrada. Só por algum excesso de zelo (e falta de hábito perante a situação), o Senhor Costa começou por ficar à espera no exterior enquanto um dos donos foi à receção perceber como funcionava o check in.

— “Não trouxe o cão? Ah, está lá fora? Mas ele pode entrar para a recepção” 

Assim explicou um dos rececionistas do Convento do Espinheiro, em Évora, antes de servir a bebida de boas vindas – um licor de poejo – que rapidamente o Senhor Costa tentou cheirar pondo uma das patas no balcão, agora que se começava a sentir mais confortável no seu papel de hóspede com acesso ao interior – nos espaços comuns, com trela, e sem direito a bebidas alcoólicas, claro.

Foi apenas há um ano que o Convento do Espinheiro decidiu assumir o título de hotel pet friendly, pouco comum em Portugal, menos comum ainda em hotéis de luxo. A opção não é utilizada todos os dias – levando o rececionista a hesitar um pouco em relação aos procedimentos de um check in com a companhia de um cão –, mas, de acordo com o hotel, a iniciativa tem recebido boas reações e cada vez mais pessoas vão optando por uma escapadinha com a companhia do animal de estimação. E os restantes hóspedes, pelo menos aqueles que foram passando pelo Senhor Costa na receção, reagiam com um sorriso.

Além dos procedimentos normais de qualquer check in, neste caso é preciso assinar um termo de responsabilidade. E ler a política de animais de estimação. Tudo o resto ficou esclarecido na altura da reserva, que tem de ser feita com antecedência – e por isso o Senhor Costa já viajou com uma bagagem muito leve, despreocupado e bonacheirão, só com a dose necessária de comida e um confortável número de biscoitos para os bons momentos. No quarto, tinha à espera o comedouro, o bebedouro e até uma cama para cão – que cheirou, curioso, sabendo que à primeira oportunidade a trocaria pela king size dos donos.

Um relvado, esse artigo de luxo canino

— “De seguida, colocamos algumas informações importantes para o bem-estar dos nossos clientes de quatro patas.”

Como é óbvio, o Senhor Costa não perdeu tempo nenhum com as instruções. O cão-repórter começou a investigar todos os cantos do Quarto Design do piso térreo (os únicos que recebem cães, por terem acesso direto a um pequeno pátio com jardim), aproveitando para mudar o comedouro para debaixo de um candeeiro de pé alto e consciente de que alguém se informaria em seu nome sobre o preço (30€/noite, bastante mais em conta dos que as estadas humanas), as interdições (restaurantes, spa e piscina), regras gerais (deixar sempre a sinalética “não incomodar” se o cão estiver sozinho no quarto) e outras minudências muito menos interessantes do que o cheiro da pele da cadeira Dolce & Gabbana, pelo menos da sua perspetiva.

Leitores, eis Senhor Costa na relva. Senhor Costa, diz olá às pessoas

E nada incomodado por não poder ir à piscina – o Senhor Costa nem sequer gosta muito de água –, o cão-repórter depressa descobriu o artigo de luxo que mais podia desejar, escondido mesmo atrás da mesa onde estava uma garrafa de champanhe no gelo só a atrapalhar: um relvado. Foi ali que pôde andar solto, correr solto, rebolar solto, sujar o nariz num monte de terra solto, enfiar uma pata num fio de água solto, apesar de advertido em contrário para depois não sujar tudo, até cair exausto, e solto, nas pedras do pátio em frente ao quarto para recuperar forças aos pés dos donos, que fizeram o sacrifício de beber apenas o champanhe e deixar a relva toda só para ele.

Além deste pequeno relvado, que é o único sítio exterior ao quarto em que o hotel aceita que os cães estejam sem trela (desde que acompanhados pelos donos), o Convento do Espinheiro tem um terreno de 8 hectares bom para longos passeios, cheio de cheiros novos, labirintos entre árvores e plantas. Ou seja, tem mais do que espaço para se pensar na possibilidade de um parque canino devidamente vedado, com estruturas de entretenimento pensadas para os animais ou até percursos de agility, com um enorme potencial futuro na vertente pet friendly do Convento do Espinheiro. Ainda assim, tal como está, o exterior do hotel tem condições ideais para entreter o cão e o preparar para a pequena sesta que fará no quarto enquanto os donos vão aproveitar as partes do hotel que ele não pode frequentar – como o SPA, as provas de vinhos na adega, um mergulho ou um passeio de bicicleta.

É aí que uma das recomendações do hotel se torna mais difícil de cumprir: nunca deixar o cão no quarto sem supervisão por mais de 30 minutos. Conhecendo o Senhor Costa, a sesta duraria mais do que isso, o que torna os 30 minutos um pouco irrealistas e limitadores. Mas o hotel propõe uma alternativa, ainda que dispendiosa: pedindo à receção ou ao concierge com 24 horas de antecedência, é possível solicitar um serviço de pet sitting (20€/hora) para garantir companhia para os cães durante passeios mais longos.

Por favor, não incomodar o cão

Quem não conhece o Senhor Costa não achará estranho que ele tenha chegado ao Convento do Espinheiro e, passado uma hora, estivesse alegremente a comer parte da ração que vinha na bagagem para o fim de semana.

Mas conhecendo-o, e tendo de lidar há alguns anos com a mania de deixar de comer nos primeiros dois dias depois de uma viagem para um sítio novo, o apetite invulgar do cão-repórter num espaço estranho parece ser um sinal de que se adapta facilmente à vida de hotel.

Não importa se nasceu numa associação de cães abandonados em Figueiró dos Vinhos. Importa que, deitado em cima de um tapete felpudo, com vista para o jardim, foi um hóspede satisfeito e, pelo menos até queixa em contrário – nem sequer dos vizinhos de quarto que tentou ir visitar uma ou outra vez durante os seus passeios pela relva ou do senhor que passou com um carro de serviço de quarto demasiado perto da porta e levou uma ladradela –, não incomodou ninguém.

Tal como o Senhor Costa se adaptou, também o Convento do Espinheiro se tem vindo a adaptar a esta decisão de receber cães. No primeiro ano, o hotel apenas aceitava cães até 20 quilos. Agora, numa novidade anunciada pela primeira vez, passou a receber cães até aos 40 quilos (embora continue a limitar a um por quarto), por sentir também que os espaços de passeio, com sombras e acesso a água, estão agora mais preparados para estes hóspedes em particular.

O spa continua interdito, embora o Senhor Costa tivesse agradecido um bom corte de unhas ou uma sessão de festas lombares antes de voltar a percorrer o hotel todo com a trela para o check out, voltar a cheirar os arbustos da entrada e regressar a casa, onde, se não fosse um cão fixe, se poderia ter começado a queixar do tamanho da cama e da ausência de 8 hectares na varanda de trás. É sempre difícil quando as férias acabam.

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