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The Subversive Sirens. Este grupo de nadadoras quer mudar o mundo, uma piscina de cada vez

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As "Subversive Sirens" eram apenas duas no início. Depois Tana, Nicki e Zoe juntaram-se a Signe e Suzy. São uma equipa de natação sincronizada fora do "normal" e vão competir nos Gay Games, em Paris.

As "Subversive Sirens" vão competir nos Gay Games em agosto.

Autor
  • Catarina Gonçalves Pereira

“Não precisas de ter um tamanho pequeno para seres uma atleta. Como mulheres de tamanho grande temos de aprender a viver nos nossos corpos agora e não esperar pelas ‘medidas certas’ para fazermos aquilo que queremos e de que gostamos”. Quem o diz é Zoe Hollomon. Tem 39 anos e contou ao Observador que se juntou a uma equipa de natação sincronizada de Minneapolis em outubro do ano passado. Mas não é uma equipa qualquer.

São cinco mulheres, entre os 39 e os 49 anos, com muita força de vontade e sentido de entreajuda que, mais do que colegas de equipa, já se tornaram grandes amigas e confidentes. As Subversive Sirens, que lutam pela inclusão de pessoas negras, queer e com um peso superior àquele que é esperado para um atleta, querem quebrar estereótipos e ideias pré concebidas.

Tudo começou em 2014, quando Signe Harriday decidiu fazer algo para combater a realidade que há muito observava: “Viver enquanto mulher é um desafio”, diz. “Ainda mais quando nos é dito pelos media, pelas nossas comunidades e até por nós próprias que, para ser importante no mundo, temos de ser perfeitas ou atingir a perfeição”, explicou Harriday ao Observador.

Foi depois de assistir aos Gay Games — o maior evento cultural e desportivo sem quaisquer padrões de qualificação para participar, cujo principal objetivo é promover o espírito de inclusão de pessoas LGBTI –, em Cleveland, que ficou fascinada com o ambiente que se vivia. E do fascínio surgiu o sonho: competir nos Gay Games. “Isso é um sonho tão exequível”, disse-lhe Suzy Messerole, com quem trabalhava na altura no Movimento Million Artists.

E como duas pessoas pensam bem melhor que uma, Signe e Suzy juntaram-se para criar aquilo que são hoje as Subversive Sirens. De entre todas as possibilidades de desportos que podiam praticar, a natação sincronizada pareceu-lhes a melhor opção. “Adoramos nadar. Na verdade a Signe aprendeu a nadar muito antes de saber andar“, contou Suzy entre risos. Sonhavam em voz alta enquanto discutiam possibilidades de nomes para a dupla que iam criar e sabiam que gostavam da ideia de serem “sirens” (“sereias”), mas não conseguiam encontrar a combinação perfeita. “Soava poderoso e mágico. Mas que tipo de sereias íamos nós ser?” Quando se lembraram de “subversiva” pareceu-lhes imediatamente a palavra ideal porque procuram “subverter o sistema” — “Estamos, de certa forma, a virar o mundo ao contrário ao fazermos algo que não era suposto. Além de que adorámos o facto de os nossos nomes começarem por S”.

Nadar para quebrar estereótipos

Signe e Suzy embarcaram na aventura de aprender natação sincronizada, mas hoje já não estão sozinhas. Aliás, rapidamente Zoe Hollomon e Tana Hargest, de 48 anos, foram invadidas pela alegria e entusiasmo das colegas com quem já tinham trabalhado. “No ano passado comecei a ver publicações da Signe e da Suzy nas redes sociais a praticarem natação sincronizada e pensei que era maravilhoso. Disse à Signe que desejava poder juntar-me a elas. Ela sugeriu que eu me juntasse e aceitei a oferta”, contou Tana. O mesmo aconteceu com Hollomon — “Precisava de cuidar de mim, física e emocionalmente, e foi uma forma criativa de investir em mim própria e de estar em solidariedade com outras mulheres de cor e pessoas queer“.

Acho que é realmente uma forma de, enquanto adulta, cuidar de mim própria e fazer coisas que me trazem felicidade. Não pode ser apenas trabalhar”, reforçou Hollomon.

Suzy Messerole e Tana Hargest. (Fotografia de Jenn Ackerman)

O facto de colocarem o trabalho e “os outros” sempre em primeiro lugar foi uma das razões que as levou a juntarem-se às Subversive Sirens. Mas também o fizeram porque queriam valorizar as formas dos seus corpos e a cor da sua pele. “Queria desafiar-me e tentar algo novo que estivesse fora da minha zona de conforto. Acho que também estava à procura de uma oportunidade de me conectar com o meu corpo“, explicou Tana.

Com 49 anos, e depois de ter estado “inativa fisicamente durante um longo período de tempo” devido a uma lesão nas costas, Nicki McCracken decidiu começar a fazer um novo desporto quando encontrou o grupo “The Minnesota Northern Pikes”. A paixão pela ginástica e a atração pela água levaram-na a crer que a natação sincronizada era “uma fantástica combinação das duas”. Com esse grupo aprendeu os movimentos básicos e foi depois que se juntou às Subversive Sirens.

Signe Harriday e Nicki McCracken. (Fotografia de Jenn Ackerman)

Na natação sincronizada, as atletas têm corpos “com todas as formas e tamanhos”, mas “há um tipo específico que tende a favorecer” quem pratica este desporto. Segundo Jadine Cleary, antiga treinadora da equipa nacional de natação sincronizada do Canadá, que treinou atletas para os Jogos Olímpicos, os atletas devem “ser fortes, flexíveis e elegantes”. Os seus corpos devem parecer-se com os de “dançarinas, com longas pernas e uma boa extensão”.

Por estarem cientes desta “narrativa mainstream“, na sociedade em geral, mas também no desporto — e mais concretamente na natação sincronizada, onde a maioria das atletas tem um certo tipo de corpo e cor de pele –, as Subversive Sirens tiveram necessidade de mostrar a elas próprias e às outras pessoas que “os estereótipos que existem limitam a nossa imaginação” e que é possível fazer tudo aquilo que se quer.

O mais importante é que consegues fazer aquilo que quiseres? Sim, definitivamente. Há tanta vergonha na sociedade por sermos de tamanho grande. As pessoas são ensinadas a pensar assim desde pequenas e isso é horrível. Queremos dizer às mulheres, homens e pessoas queer que podem fazer coisas maravilhosas com os seus corpos e mentes”, disse Zoe Hollomon ao Observador.

Confessou também que, para lá da mensagem que querem passar, e no que à prática do desporto diz respeito, “há algumas coisas que são difíceis”. Suster a respiração durante algum tempo, especialmente quando o coração está acelerado, “pode ser assustador”, e estarem em sintonia em termos de tempos é por vezes um desafio, mas, com o treino — que não tem faltado — e com o tempo, já se tem vindo a habituar. Nicki concorda que não é fácil: “Eu brincava a dizer que ia ser como dançar debaixo de água, mas é dançar debaixo de água enquanto tentamos não nos afogar. É muito mais difícil do que alguma vez pensei que pudesse ser”. Com espírito de entreajuda, porém, tudo se consegue e, em conjunto, tem sido relativamente fácil enfrentar os obstáculos com que se deparam.

Zoe Hollomon (Fotografia de Jenn Ackerman)

Mais do que o corpo, a mente

Nicki sente-se mais forte e saudável desde que começou a praticar natação sincronizada, agora está “mais elegante” e tem “músculo a sério”. Nadar levou-a a experimentar outras coisas: começou a fazer boxe e o ano passado fez escalada em Itália, algo que antes estaria longe das suas ideias. “Nunca me considerei uma atleta até agora. A natação sincronizada deu-me confiança para tentar outros desafios a nível físico. Acho que a grande mudança tem que ver com a confiança que ganhei“, afirmou. Confiança essa que se alastrou a outras áreas da sua vida.

Acho que as pessoas, as mulheres em particular, deixam de fazer as coisas de que gostam porque querem esperar até que atinjam o peso desejado ou determinada forma. As pessoas perdem muito ao esperarem por serem “perfeitas” para começarem a fazer determinadas coisas”, continuou.

Para Signe é fundamental estar integrada num grupo que a “obriga” a ir treinar — “Pode ser realmente difícil arranjar tempo para tomares conta de ti. Com as vidas ocupadas é difícil colocarmo-nos em primeiro lugar”. Juntas são um apoio umas para as outras, ainda que cada uma sinta as coisas de forma bem diferente. “Eu preciso das Subversive Sirens. O que quer dizer que ainda sinto o peso do que o mundo diz sobre o meu corpo“, conta Signe, acrescentando que o grupo a ajuda “a acalmar as vozes que enviam mensagens negativas” sobre quem é ou a forma como é.

The Subversive Sirens durante os treinos (Fotografia de Jenn Ackerman)

Pelo contrário, Tana diz que nunca teve problemas com a sua imagem. Se para muitos encontrar conforto no próprio corpo é um desafio, para ela nunca o foi. “O meu corpo é gordura, mas também é músculo. Sou flexível e resiliente. Tenho boa resistência e a sorte de estar livre de doenças e de dores no corpo”, explicou. O que ganhou com a natação sincronizada foi precisamente um “aumento da consciência corporal“.

Ajudou-me a perceber o meu corpo de uma forma muito profunda. Tenho meditado nos últimos 18 anos e nadar é definitivamente uma forma de meditar.”, prosseguiu Tana.

Também Zoe está agora mais consciente dos limites a que pode levar o seu corpo. Faz algo que nunca imaginou conseguir: “Como mulher de tamanho grande, agora vejo-me como uma atleta e tenho imenso orgulho nisso. É muito bom“. As Subversive Sirens garantem que o que sentem ou não relativamente aos seus corpos não é relevante nesta altura do campeonato. Agora, o foco está nos Gay Games que começaram este fim de semana em Paris e que se prolongam até dia 12. Para trás querem deixar os medos e inseguranças porque acreditam que partilhar aquilo que fazem e encorajarem as outras pessoas a fazerem o mesmo é “muito mais importante do que qualquer insegurança” que possam ter com a imagem dos seus corpos.

The Subversive Sirens durante os treinos. (Fotografia de Jenn Ackerman)

Dos treinos em “casa” para os Gay Games em Paris

“Mal podemos esperar por encontrar outros nadadores de todo o mundo”: este é o espírito que se vive entre elas por estes dias. Signe, Suzy, Zoe, Tana e Nicki fazem parte dos 10,317 mil participantes registados nos Gay Games e já estão em contacto com outras equipas de natação sincronizada, tal é o entusiasmo. O sonho tornou-se realidade e estas cinco mulheres vão rumar à Europa já na próxima semana para mostrarem as acrobacias que andam a treinar há meses dentro de água. Durante os últimos dois meses, os treinos têm sido mais intensos. Encontram-se entre duas a quatro horas por dia, quase todos os dias. “É difícil conciliar as coisas, mas estamos a fazer com que funcione”, afirmou Tana.

Quando nadam na piscina no Blaisdell YMCA, as Subversive Sirens têm sempre uma plateia. “Há homens, mulheres, crianças, imensas famílias muçulmanas que assistem aos nossos treinos e que nos adoram ver nadar. Perguntam-nos coisas sobre o que estamos a fazer e veem que conseguimos”, conta Zoe. Mas nada se compara com o público que vão encontrar em Paris. A participação nos Gay Games vai ser a primeira competição das Subversive Sirens. Algumas nunca estiveram sequer num encontro de natação sincronizada.

The Subversive Sirens durante os treinos. (Fotografia de Jenn Ackerman)

Os treinos têm sido conduzidos por elas próprias: cada dia uma delas assume a liderança e conduz o treino. Mas não o fazem sozinhas, têm o apoio de um coreógrafo e de um treinador, que determinam as áreas em que se vão focar. De vez em quando nadam ainda com as mulheres do grupo “The Minnesota Northern Pikes” — do qual Nicki fazia parte –, que lhes dão sempre “inúmeros conselhos”.

“Tem sido muito produtivo, temos feedback de diferentes pessoas. Cada uma retém a informação de forma diferente e este processo tem melhorado a nossa sincronização”, explicou Signe. Quanto às três sequências que vão apresentar no grande dia, essas já estão todas definidas e, por esta altura, os fatos-de-banho já devem ter chegado às suas mãos.

Como não podia deixar de ser, nos Gay Games, as Subversive Sirens vão nadar ao som de Prince. “Somos do Minnesota e, assim sendo, todas adoramos o Prince, que era de cá. Tens realmente de adorar a música que estás a nadar porque vais ficar a ouvi-la horas e horas e horas durante os treinos de preparação e depois durante a competição”, acrescentou Signe. Entre o entusiasmo e o nervosismo, as Subversive Sirens dizem que “seria muito bom trazer uma medalha para casa” ainda que os Gay Games tenham uma “atmosfera muito inclusiva e divertida e não tanto competitiva”.

“Estar debaixo de água com as minhas colegas de equipa é revigorante. Sinto-me uma sereia. Parece mágico. Estou um pouco nervosa com a competição, há muitas incógnitas para mim”, diz Signe, acrescentando que o principal objetivo é estar ao lado das colegas “para o que der e vier” e fazer o melhor para elas. Quanto ao júri e ao público? Esses são aspetos secundários — “As minhas ‘Sirens’ são o meu foco principal”, concluiu. No meio de tudo isto, e nos tempos que correm, há também uma mensagem para a administração Trump.

Estamos entusiasmadas porque vamos representar o Minnesota, as pessoas queer e negras, especialmente com esta administração que é uma desgraça. Queremos que as pessoas saibam que eles não nos representam, nem a nós nem aos nossos valores”, afirma Zoe.

Quando Signe e Suzy se juntaram nunca imaginaram que iam “tocar a vida de outras pessoas”, mas pelas mensagens e contactos que têm recebido através das redes sociais, as americanas parecem estar a inspirar cada vez mais por este mundo fora. Estas cinco mulheres estão a conseguir coisas que nunca antes imaginaram e às vezes ainda não acreditam: “Estamos na piscina e eu simplesmente paro para ver o que está a acontecer. Nós somos espetaculares“, remata Tana.

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