Rússia

Wagner. Os mercenários que exportam a influência de Putin

Da Ucrânia à Síria, o grupo de mercenários Wagner esteve sempre presente em todos os conflitos de interesse para o Kremlin. Pelo menos quatro jornalistas morreram enquanto investigavam esta relação.

AFP/Getty Images

Três jornalistas russos foram assassinados na República Centro Africana (RCA) no início da semana passada. Orhan Dzhemal, Aleksander Rastorguyev e Kirill Radchenko tinham entrado no país com vistos de turistas e planeavam ficar duas semanas a investigar no terreno o Grupo Wagner. Esta empresa é identificada na imprensa internacional como sendo de mercenários russos que atuam na República Centro Africana, no Sudão do Sul, na Síria e na Ucrânia.

Depois de terem sido raptados por “10 homens armados”, os seus corpos foram encontrados na segunda-feira, 30 de julho, a 23 quilómetros da cidade de Sibut, um dia após terem visitado um acampamento onde estariam os referidos mercenários russos em Berengo.

A RCA é um dos países mais pobres e violentos mundo, apesar das enormes quantidades de diamantes, ouro e de urânio por explorar. Com um embargo de armamento desde 2013, Vladimir Putin conseguiu, com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, enviar 5.200 Kalashnikov, lança-granadas e algumas armas mais pequenas.

A decisão das Nações Unidas em estabelecer uma missão de paz em 2014, da qual Portugal faz parte, abriu a porta não só para o envio de armas, mas também de “instrutores” para treinar soldados locais. E essa foi a porta de entrada para o Grupo Wagner na RCA. Alguns investigadores suspeitam que a presença no território serve para proteger investimentos em minas de diamantes e ouro em territórios rebeldes e expandir a influência russa no continente.

Em Abril, a população local impediu um avião Cessna russo de descolar, perto dos depósitos de diamantes de Kaga Bandoro, zona que terá sido visitada pelos três jornalistas mortos. A organização para quem trabalhavam, a TsUR, do antigo oligarca dissidente Mikhail Khodorkovsky, afirma que os jornalistas estavam a tentar filmar na zona de Ndassima, perto das minas de ouro, cuja segurança está a cargo da Rússia.

O próprio ministério dos Negócios Estrangeiros russo confirmou, citado pelo The Telegraph, que uma “concessão para exploração mineira” iria começar este ano, sem especificar quando. Duas empresas mineiras ligadas à Rússia foram registadas na RCA depois do anúncio do acordo, garante organização Transparency International.

O Kremlin não comenta a existência do Grupo Wagner. A guerra civil ucraniana, onde ganharam notoriedade pela suas operações ao serviço das forças separatistas pró-Rússia, foi uma espécie de ensaio para as suas futuras operações junto do regime de sírio, de Bashar al-Assad. Entraram na zona de combate síria em 2015, numa altura em que o regime de Damasco tinha perdido grande parte do seu território para os grupos armados da Al-Nusra, ISIS e o Exército Livre da Síria (grupo apoiado por Washignton, que os considera a oposição moderada). Vladimir Putin anuncia a intervenção russa na Síria e, quase em simultâneo, entram no país os mercenários da Wagner.

Logo em Outubro de 2015, depois de Moscovo ter iniciado os raides aéreos, começaram a surgir as primeiras informações de cidadãos russos encontrados mortos entre soldados das forças pró-Damasco. Em Fevereiro de 2018, estas forças entraram em colisão com soldados americanos que se encontravam no terreno. Desde a guerra do Vietname que tal não acontecia.

O Secretário de Estado da Defesa norte-americano, o General James Mattis, falou do incidente numa audiência no senado. As forças americanas entraram em contacto com o comando russo na Síria para questionar se as tropas faziam parte do exército russo, a resposta de Moscovo foi um evasivo “não”. Perante a resposta russa o general Mattis ordenou a “aniquilação” dos soldados russos. Dezenas de mercenários russos morreram na sequência da resposta americana, como noticiou o Público.

[veja as declarações da audição do General James Mattis no senado sobre os mercenários russos]

O jornalista russo Maxim Borodin, que investigava as ações do grupo de mercenários na Síria, morreu em abril depois de cair da varanda do seu apartamento na cidade russa de Ecaterimburgo. Horas antes da queda, enviou uma mensagem às cinco da manhã a um amigo afirmando que a sua casa estava rodeada por militares. Borodin tinha descoberto e noticiado que vários dos mercenários russos da Wagner mortos na Síria eram da mesma região que o jornal de onde publicava.

O governo Russo afirma que é absurdo ligar a morte dos três jornalistas na RCA com a presença militar de forças paramilitares russas e aos projetos mineiros que a Rússia tem no país. No entanto, os três jornalistas veteranos tentavam estabelecer precisamente essa ligação, de que a Rússia estaria a “colonizar” os recursos do país utilizando uma versão “não oficial” do seu exército.

Apesar de os motivos que levam a Rússia a um dos países mais voláteis do continente africano serem pouco claras, não é, no entanto, a única potência que explora o potencial económico da RCA, a China, extrai petróleo no país há mais de 10 anos, porém, sem usar uma presença tão musculada.

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