São dois dos mais recentes brinquedos do mercado, para quem busca um superdesportivo de 700 cv. Um deles representa o máximo que a Porsche consegue produzir, capaz de circular em estrada, uma vez que o 911 GT2 RS é um animal feroz quando toca a acelerar e travar. Já em relação a curvar, a conversa parece ser outra. Por outro lado, o 720S é apenas o mais recente dos McLaren, marca britânica que está um pouco mais acima na “cadeia alimentar” dos modelos deste calibre, uma vez que se a marca alemã comercializa veículos com motores a partir de 4 cilindros, dois litros e 300 cv, os ingleses ficam-se pelo V8 com 3,8 litros e 540 cv.

Digamos que a McLaren (com os seus motores V8) é mais rival da Lamborghini e Ferrari (apesar destes oferecerem unidades V8, V10 e V12) do que da Porsche (só H4 ou H6), mas face às promessas do GT2 RS, este era um comparativo que se impunha realizar e foi a Auto Moto francesa que teve a sorte e o bom gosto de lhes colocar primeiro as mãos em cima.

Quem tem o melhor chassi?

O GT2 RS é o mais rebuscado dos 911 e recorre a uma série de peças em fibra de carbono para reduzir o peso, a um escape em titânio com o mesmo objectivo e a um roll bar instalado onde costumam estar os pequenos assentos posteriores para reforçar a rigidez do chassi. Ainda assim, o modelo alemão anuncia um peso de 1.545 kg, isto apesar de possuir exclusivamente tracção traseira e um comprimento de 4,54 metros, em sintonia com o rival britânico.

Para tentar suavizar o comportamento, uma vez que este GT2 RS, à semelhança dos restantes 911 (à excepção do RSR, exclusivamente de competição), tem o motor “pendurado” parcialmente atrás do eixo traseiro, o mais possante dos desportivos da casa monta um sistema de quatro rodas direccionais, já conhecido noutros modelos dispendiosos, mas que também vem de série em veículos substancialmente mais acessíveis, como o Renault Mégane. As quatro rodas direccionais melhoram a aderência em curva, com o GT2 RS a montar igualmente um sistema de estabilização por aplicação de torque vectorial, tudo para tornar o modelo menos brusco em caso de perda de aderência.

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Comparado com o 911, o 720S é um veículo mais moderno e sofisticado. Começa por não herdar um chassi convencional em chapa de aço estampado, mas sim um todo em fibra de carbono (o que permite ganhar peso e aumentar rigidez), à semelhança dos hiperdesportivos com mais de 1.000 cv e os carros de competição, F1 inclusive. É certo que tem o mesmo comprimento do Porsche, mas é mais largo e utiliza essa vantagem para alojar vias igualmente mais avantajadas. A distância entre eixos é muito maior (2,67 contra 2,45 m), o que ajuda a explicar a maior estabilidade e progressividade, especialmente após perder a aderência.

O facto de ser mais baixo 10 cm e colocar o motor em posição central traseira, exactamente onde deve estar, para maximizar o comportamento, torna o McLaren mais eficaz, o que se traduz por uma maior facilidade de condução quando se vai mais depressa, gerando reacções mais previsíveis e mais facilmente controláveis.

Quem tem o melhor motor?

A McLaren utilizou neste 720S o habitual V8 biturbo que monta em todos os seus modelos, mas com algumas alterações, com os ingleses a afirmar que 41% das peças são novas. A cilindrada subiu de 3,8 para 4,0 litros, com o incremento do curso, o que implica uma nova cambota, que recorre a outro princípio de fabrico para ser mais ligeira. Os dois turbocompressores são maiores e passam a poder girar mais depressa, para assegurar uma pressão mais elevada.

A Porsche monta uma versão revista do seis cilindros opostos horizontais, um tipo de mecânica que é característica do 911 mas que apresenta algumas limitações. Os técnicos da marca, que há muito exploram todo o seu potencial, tiraram mais um coelho da cartola, pois extrair 700 cv do 3.8 é obra, com o escape em titânio a ser responsável por uma sonoridade ímpar.

Associado a uma caixa de dupla embraiagem, o 720S usufrui de 720 cv e 770 Nm, associados à nobreza de um oito cilindros, enquanto o Porsche fornece 700 cv e 750 Nm. A vantagem de potência existe e favorece o carro inglês, mas talvez seja mais evidente a diferença no número de cilindros, isto para os clientes mais exigentes e de ouvido mais apurado.

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A velocidade máxima em ambos os casos equivale-se, com 340 km/h para o GT2 RS e 341 km/h para o McLaren, o mesmo acontecendo com a capacidade de arranque, com o Porsche a reivindicar 2,8 segundos para ir de 0 a 100 km/h, contra 2,9 do 720S. Os valores atingidos pelo 911, que é ligeiramente menos potente e mais pesado (1.545 contra 1.494 kg) provam a excelente tracção do modelo, uma das vantagens de possuir o motor em cima do eixo motriz. Já o facto de o GT2 RS anunciar consumos 10% superiores pode ter a ver com o facto da arquitectura do motor ser mais antiga, ou recorrer a uma maior pressão de sobrealimentação.

Quem é o mais rápido?

Para analisar o desempenho do chassi, os homens da Auto Motor optaram por desligar as ajudas electrónicas, o que dificultou ainda mais a vida ao GT2 RS. Sem controlo de tracção (não sabemos se também sem o torque vectorial) e sem pilotos profissionais aos comandos, mas apenas com o que parecem ser condutores com à vontade e experiência neste tipo de carros, o Porsche revela aquilo que nós já tínhamos antecipado. Complicado de conduzir em ritmo mais rápido, com a frente a ter primeiro uma atitude subviradora, fugindo de frente, para depois a traseira se passar de forma repentina.

O 720S dá um décimo do trabalho a quem vai ao volante, sendo ainda assim mais rápido. A transição da fase em que escorrega de frente, para depois passar a derrapar de traseira é mais suave e progressiva, como aliás concluímos de uma análise meramente técnica. A frente também é mais eficaz, tanto mais que o carro é mais largo e sobre as rodas anteriores incide mais peso, o que ajuda à aderência.

Resultado: 1 minuto 00,55 segundos para o McLaren e 1.02,75 para o Porsche. São 2,2 segundos, o que é uma diferença importante, especialmente numa pista que parece ser a mais pequena do circuito La Ferté Gaucher, que tem versões de 1.6, 2.0 e 3,6 km.