A forma como Raúl Alarcón ganhou a camisola amarela na chegada a Oliveira do Hospital, a maneira como consolidou a posição na etapa entre a Guarda e a Covilhã e o caminho que fez para defender a liderança na subida à Senhora da Graça não deixavam grandes dúvidas: o espanhol estava bem mais forte do que a concorrência para defender o título que tinha conquistado de forma surpreendente em 2017, quando ainda se pensava que o companheiro Gustavo Veloso ficaria na frente. Ainda assim, a Máquina, como ficou conhecido quando chegou a Portugal, é o campeão que celebra com um V que não é de vitória.

“Fiz um V de Vinhas, por tudo aquilo que o Rui passou. O esforço que está a fazer para não abandonar a prova depois de tudo o que aconteceu e ainda assim estar a meu lado… Tinha que lhe dedicar a vitória, ele é meu ‘irmão’. Também dedico aos meus companheiros, mas principalmente para o Vinhas a quem agradeço tudo o que está a fazer”, explicou Raúl Alarcón na chegada à Senhora da Graça, recordando a grave queda que o vencedor da Volta em 2016 teve: mesmo com sangue, cheio de escoriações, visivelmente debilitado e com um desmaio, o português ainda se levantou e fez 120 quilómetros até à meta.

“Não posso demonstrar muito, mas toda a gente sabe como gosto dele. Ele sabe melhor do que ninguém quão feliz estou. Desde 2013 que somos companheiros de equipa. Aliás, somos companheiros de quarto desde essa altura. Ajudei muito o Raúl e ele também me ajudou muito. No ano passado, foi o pilar da minha vitória. Ele e todos os outros colegas. Mas ele foi o mais especial. Passámos por vários momentos difíceis e conseguimos ultrapassá-los. O ano em que vim para a W52-Quinta da Lixa não foi fácil para ele, porque estava sem equipa. Lutámos, lutámos e conseguimos que ele viesse comigo. Após esse momento difícil, as coisas começaram a melhorar. O ano passado correu-me bastante bem, este ano está a ser o ano dele”, tinha comentado Rui Vinhas no ano passado. Também é destes “pormenores” que se fazem os campeões.

Aos 32 anos, o corredor nascido em Sax, Valência, teve um ano mais vocacionado para a Volta a Portugal e conseguiu mesmo esse grande objetivo da temporada, naquele que foi mais um prémio para alguém que chegou muito cedo ao topo, teve uma queda até ao fundo e ressurgiu como poucos poderiam antever. Tendo como referências Pablo Lastras, pela combatividade e pela pessoa que era, e Johan Museeuw, Alarcón passou pela Saunier Duval-Prodir (onde fez a Paris-Roubaix e Voltas ao Qatar, Suíça e Polónia) mas, quando sonhava com outros voos, a equipa acabou e passou para a Comunidad Valenciana, naquele que considerou ser um trajeto em forma de “montanha russa” que o colocou a ponderar se valia a pena. E valeu mesmo.

Em 2011, chega à Barbot, que passaria a Efapel, tendo companheiros como Rui Sousa, Filipe Cardoso, Sérgio Ribeiro ou César Fonte. No ano seguinte, com David Blanco, perdeu protagonismo e mudou-se para o Louletano, onde conheceu Rui Vinhas e deu pela primeira vez nas vistas como número 1 quando ganhou na subida à Serra da Estrela. Fez mais um ano na equipa algarvia, que tinha também Vicente de Mateos e Hernâni Broco, não renovou contrato e, estando no desemprego, foi ajudar um amigo na sua oficina a lavar carros para ganhar algum dia. Chegou o projeto da então W52 Quinta da Lixa e a sua vida mudou.

Se não fosse corredor, gostava de ser professor de Educação Física, mas esse objetivo acabou por ficar para trás com a entrada na equipa que tem dominado o panorama nacional nos últimos anos, agora com o nome de W52 FC Porto. E foi nos dragões que ganhou também a alcunha de Hércules de Alicante. Este ano, com um estatuto diferente depois da conquista da Volta a Portugal de 2017, começou com um 66.º lugar na Volta ao Alentejo, ficou no 12.º posto na Volta a Castela e Leão, ganhou o Grande Prémio de Portugal N2 e confirmou o grande momento na Volta a Portugal, com três triunfos em etapas.

Com o triunfo na Senhora da Graça, as decisões nesta Volta ficaram praticamente fechadas, com a vantagem de 1.01 minutos para Joni Brandão, do Sporting Tavira, a ser suficiente para assegurar a amarela nos quase 18 quilómetros de contrarrelógio em Fafe.

Aleksandr Grigoryev, do Sporting Tavira, teve durante algum tempo a melhor marca do crono com 27.19, até que Rafael Reis, especialista neste tipo de corridas que já tinha ganho o prólogo em Setúbal, foi o primeiro a baixar a fasquia dos 17 minutos em Fafe (26.50). No entanto, o melhor estava ainda para vir e sempre com elementos da W52 FC Porto em destaque: primeiro foi Gustavo Veloso a baixar para os 16.10, depois foi Ricardo Mestre a colocar em 26.07, por fim foi João Rodrigues a fazer 25.38. Os tempos intermédios praticamente garantiam o triunfo final do espanhol, mas houve ainda um ponto extra de interesse de certa forma inesperado, como vencedor de Vicente de Mateos – terceiro triunfo em 2018 – a fazer a marca de 25.17 (média superior aos 41 quilómetros por hora) e a atacar o segundo lugar da geral de Joni Brandão, que ainda assim assegurou essa posição (25.55). Raúl Alarcón terminou o contrarrelógio com 25.53 e fez a festa. Individual e coletiva, porque também a W52 FC Porto assegurou a vitória na classificação por equipas.

Além do pódio composto por Raúl Alarcón (W52 FC Porto), Joni Brandão (Sporting Tavira) e Vicente de Mateos (Aviludo Louletano), fecharam o top-10 desta Volta a Portugal em bicicleta Edgar Pinto (Vito Feirense), Frederico Figueiredo (Sporting Tavira), João Benta (Rádio Popular Boavista), João Rodrigues (W52 FC Porto), Ricardo Mestre (W52 FC Porto), Domingos Gonçalves (Rádio Popular Boavista) e Henrique Casimiro (Efapel).