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A ex-diretora de comunicação do gabinete de Relações Institucionais da Casa Branca Omarosa Manigault Newman deu uma entrevista à NBC News onde partilhou uma suposta gravação do momento em que foi despedida pelo chefe de gabinete de Donald Trump, John Kelly. Esta segunda-feira, surgiu uma nova gravação onde, num telefonema entre Donald Trump e Omarosa, o Presidente dos EUA diz que “não fazia ideia” do seu despedimento.

A gravação terá sido feita a 12 de dezembro de 2017, sem que John Kelly e os advogados presentes aquando da conversa tivessem dado conta disso, e só agora foi divulgada. A ex-estrela do reality-show “O Aprendiz” (edição de 2004), apresentado por Donald Trump, fez parte da Casa Branca deste Presidente desde o início do seu mandato, em janeiro de 2017. Nos últimos dias, Omarosa tem promovido o seu livro de memórias (em inglês, “Unhinged”) sobre o tempo que passou na Casa Branca.

“Temos de falar contigo sobre a tua saída da Casa Branca”, começa por dizer John Kelly a Omarosa. “Chegou à minha atenção ao longo dos últimos meses que, da sua parte, tem havido problemas de integridade que na minha opinião são muito significativos. Tem a ver com o uso de veículos oficiais e outros problemas”, acrescentou o chefe de gabinete de Donald Trump, sem entrar em pormenores.

Mais à frente na gravação, que tem 3 minutos e 40 segundos, John Kelly diz preferir que “isto fosse uma separação amigável”. “Há problemas legais bastante significativos que esperamos que não se tornem em algo que possa tornar-se feio para si”, refere.

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Omarosa acaba por falar, mas pouco. “O Presidente está a par disto?”, pergunta. “É melhor não irmos por aí. Esta discussão não é negociável”, responde-lhe John Kelly.

A ex-concorrente do reality-show de Donald Trump e até então funcionária da Casa Branca continua. “Eu não quero negociar. Nunca tive a oportunidade de falar consigo, John Kelly, por isso se isto é a minha saída, gostava pelo menos de ter uma oportunidade para entender…”, diz, até que é interrompida pelo chefe de gabinete de Donald Trump.

“Não… Podemos falar sobre isto noutra altura. Isto tem a ver com violações de integridade graves. Vamos deixar as coisas por aqui. O staff e todas as pessoas do staff trabalham para mim e não para o presidente. Depois da sua saída, informá-lo-ei”, conclui John Kelly, para depois se ausentar da reunião, que terá prosseguido entre Omarosa e os advogados que já estavam presentes na sala.

[Ouça o áudio do despedimento neste vídeo]

Esta segunda-feira, a NBC News publicou um novo excerto de áudio, igualmente gravado por Omarosa, de uma chamada de telefone onde Donald Trump demonstra o seu espanto ao ter visto nas notícias que a sua conhecida de longa data estava prestes a sair da Casa Branca. As primeiras notícias sobre a sua saída davam conta de que se trataria de uma decisão de Omarosa e não da Casa Branca.

“Omarosa, o que é que se está a passar? Acabei de ver nas notícias que estás a pensar sair? O que é que se passou”, perguntou-lhe Donald Trump.

Quando ouve a explicação de Omarosa (“o general Kelly veio ter comigo e disse que vocês querem que eu me vá embora”), o Presidente dos EUA nega e alega desconhecimento:

Não, nem me disseram nada sobre isto. Sabes que eles gerem uma máquina muito grande, mas eu não fazia ideia. Eu não sabia disso. Raios parta! Não me agrada nada ficar sem ti”.

Horas depois de esta segunda gravação ser conhecida, Donald Trump decidiu atacar Omarosa no Twitter. “A maluca da Omarosa, que foi despedida três vezes em “O Aprendiz”, agora foi despedida uma última vez. Nunca teve sucesso e nunca terá. Ela implorou-me por um emprego, com lágrimas nos olhos, eu disse que sim”, começou por dizer.

Depois, acrescenta que ela “era perversa, mas não era esperta”. Sobre a articulação, ou falta dela, com John Kelly durante este processo, Donald Trump explica ainda: “Quando o general Kelly assumiu funções disse-me que ela era uma falhada que só trazia problemas. Eu disse-lhe que devia tentar resolver as coisas a bem, se possível, porque ela só dizia coisas ÓTIMAS sobre mim — até ser despedida!”.

Omarosa garante que há gravação de Trump a dizer a “n-word”, mas entrevista lança dúvidas

Outro elemento que veio à superfície a propósito da promoção do livro de memórias de Omarosa remete para um episódio em que Donald Trump terá dito a palavra nigger, utilizada nos EUA para referir uma pessoa negra de forma ofensiva, já desde os tempos da escravatura. A gravação terá sido feita durante a produção do programa “O Aprendiz”. Ou seja, antes de Donald Trump ter entrado em campanha para as eleições primárias do Partido Republicano, em 2015.

No entanto, de acordo com os vários relatos que surgem desta questão, Omarosa não é clara quanto a este episódio e aos seus contornos. De acordo com o livro “Unhinged”, Omarosa conta que apenas lhe disseram que essa gravação existia.

De acordo com a NPR, é esta a parte em que esse episódio é referido:

Inacreditavelmente, esta pessoa — que não vou identificar — atendeu o telefone. Falámos. Nesta conversa de telefone, foi-me dito exatamente o que Donald Trump disse — sim, a n-word, e outras, numa clássica tirada de Trump enraivecido — e quando é que o disse. Durante a produção [do programa] ele tinha um microfone e há uma gravação de áudio. Ao longo de mais de um ano, eu tive tanto medo de saber destes detalhes através de alguém que tivesse estado na sala. Mas ao ouvir a verdade libertei-me desse medo. E só agora que o medo já se foi é que me apercebo do seu peso.”

Em entrevista à NPR, Omarosa disse: “Ouvir aquela gravação mudou tudo para mim”. Desta forma, ao contrário daquilo que escreve no seu livro de memórias, a ex-diretora de comunicações de relações públicas da Casa Branca diz que ouviu diretamente a gravação.

“Eu ouvi o Presidente dos EUA usar não só a n-word mas também outras coisas horríveis durante a produção d’O Aprendiz”, diz Omarosa na entrevista à NPR. Quando confrontada com a disparidade desse relato em relação àquele que faz no livro, responde: “Não, essa parte está no livro”. Mas não está, o que lança dúvidas sobre a veracidade desta e de outras histórias ali contadas.

Confrontada com essa mesma questão na entrevista à NBC News, Omarosa volta a insistir que ouviu a gravação. “Ouvi a voz dele”, diz, referindo-se a Donald Trump. Porém, desta vez, especificou que terá ouvido a gravação já depois da publicação do livro — algo que não concretizou na entrevista à NPR.

“Assim que ouvi por mim mesma, confirmei aquilo que eu mais temia, que era Donald Trump ser um aldrabão que estava mascarado de uma pessoa com abertura para lidar com comunidades diversas. Mas quando ele fala daquela maneira, como faz naquela gravação, fica verdadeiramente confirmado que ele é um racista”, disse à NBC News.