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Está a causar furor em Espanha, depois de já o ter feito na América Latina. A novela turca Fatmagül conta a história de uma jovem que é violada por um grupo de homens e fica obrigada a casar-se com um dos cúmplices, para evitar o crime, acabando por se apaixonar pelo rapaz.

O que agora é uma história de novela era uma realidade do código penal turco apenas há duas décadas. A lei previa que todos os indivíduos que praticaram crimes sexuais seriam absolvidos caso casassem com as suas vítimas, incluindo casos de violação de menores.

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Escrito pelo escritor comunista Vedat Türkali, o argumento foi adaptado a filme em 1986, numa versão claramente mais dura do que a que é apresentada na novela. A jovem, que vive numa cidade à beira do mar Egeu, é vítima de uma violação por parte de um grupo de jovens ricos que lá estavam de férias. Para esconder o escândalo, Kerim, um rapaz pobre que presenciou o ato mas não participou nele, é obrigado a casar com a jovem.

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Apesar dos progressos feitos pelas mulheres turcas nos últimos trinta anos, no entanto, há quem tema que os valores do islamismo conservador estejam a voltar. A série apresenta menos álcool, menos cenas que contenham beijos ou gestos considerados “inapropriados”, segundo os conservadores padrões turcos. Algo que não acontecia há 30 anos.

Há dois anos, a Turquia de Erdogan tentou passar uma lei que acabaria por perdoar mais de três mil pedófilos, caso estes casassem com as suas vítimas. A lei perdoaria todos os casos de violação desde que não fosse usada “força, ameaça ou qualquer outra restrição de consenso” envolvendo raparigas de 15 ou mais novas.

Grupos de direitos de mulheres na Turquia conseguiram, no entanto, pressionar vários membros da oposição a votar contra a lei, que acabou por não passar. No mesmo ano, a Turquia aboliu do seu código penal a lei que classificava como abuso sexual todos os atos sexuais com menores de 15 anos.