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Como quase todos em Portugal, a primeira vez que ouvi falar de Madonna foi quando vi o videoclip de “Like A Virgin” na televisão. Era a época dos videoclips e toda a gente tinha cabelo e roupa vistosos, poses, drama e cenários turísticos. Madonna parecia-me, à luz das referências mais indiepunk que achava cool na altura, uma mistura de Bananarama e Siouxsie Sioux, a brincar às noivas top model em Veneza. Portanto, chamou a atenção. Não posso dizer que a canção tenha colado como adesivo (enquanto adolescente de 14 anos, aspirante a pseudo punk, resistia na altura a música que fosse simplesmente pop…) mas achei engraçado ela chamar-se Madonna e a canção “Like A Virgin” (a legendagem de filmes e séries na rtp fez muito pelo meu inglês).

Longe de imaginar o efeito de contágio galáctico de canção e videoclip, acabei por ceder a “Like A Virgin” como quem se concede uma desculpa para comer bolos. Só não estava preparada para o quão insidioso tudo se tornou. Passados poucos meses, na feira quinzenal da vila, havia t-shirts pretas sem mangas e cintos com pins para usar “à Madonna” (descaídos) e toda a gente falava da Madonna e toda a gente gostava da Madonna e fazia os gritinhos de “Like A Virgin”. Menos “os velhos”. O corte geracional era evidente.

Nesse processo, a meio dos anos 80, no interior de Portugal, onde ir à missa ao Domingo ainda podia ser mais importante do que terminar o liceu, vi miúdas bem comportadas, que usavam cabelo com risco ao meio, fazer permanentes e colorações, assumir o soutien de renda por baixo do top semitransparente e vestir meias de rede, porque queriam ser como ela (algumas mantiveram o look muitos anos). Madonna era poderosa, sexy, inteligente e confiante. Era um modelo feminino que as adolescentes e as mulheres jovens podiam seguir, mesmo que não percebessem bem as letras das canções e estivessem a milhas de Nova Iorque. Ela parecia ter tudo sob controle. Isso inspirava ao atrevimento.

[o vídeo de “Like a Virgin”:]

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Apesar dos hits, a diferença que Madonna faz não está tanto no seu contributo para a história da música em si (que tem momentos), mas sim no papel que desempenhou, e desempenha, social e culturalmente. O que também inclui a moda, e de forma muito marcada. Mas, acima de tudo, Madonna rompeu com os cânones da emancipação feminina, usou sensualidade e assumiu o confronto, manifestou vontade e tomou o poder.

Não foi a primeira mulher com projecção pública a fazê-lo (ela própria homenageou algumas que a precederam como Jean Harlow ou Marlene Dietrich, até Marilyn), mas foi a primeira estrela pop mulher a fazê-lo de forma tão incisiva e os dividendos são evidentes. Apesar do discurso que fez em 2016, quando recebeu o prémio de Mulher do Ano da Billboard, em que falou de como as mulheres poderem ser giras e sexy mas não podem armar-se em demasiado espertas, nem ser donas da sua própria imagem ou sexualidade numa indústria dominada por homens, ela própria fez tudo isso e saiu vencedora, incluindo envelhecer, algo também proibido. Ela percebeu cedo o poder da provocação, do sexo, dos media, dos grandes espetáculos com bailarinos, do cinema, da moda, da comunidade LGBT e tudo o que se passa nas margens. Percebeu sobretudo o valor da imagem e explorou-o, multiplicando-se em réplicas de si mesma. Manteve-se sempre atenta às mudanças e tendências e incorporou-as nas canções e naquilo que hoje em dia se chama sem complexo “marca”. Madonna foi sempre boss. Isso é evidente até mesmo para quem nunca comprou discos dela.

Mas, mesmo quem nunca comprou discos dela dificilmente passou ao lado da música. Por ser uma artista camaleónica, Madonna tem fases e canções para quase todos os gostos. Depois de “Like a Virgin”, e enquanto “Papa Don’t Preach” e “La Isla Bonita” não faziam muito por mim, até porque tocavam em todo o lado até ao enjoo, descobria “Holiday” e “Lucky Star”, canções do primeiro álbum que só apareciam de vez em quando por arrasto (podia ser só aquela coisa hipster “o primeiro álbum é que é bom”, tão comum anos 80, mas achava as canções realmente mais giras do que os novos sucessos, de resto, continuo a pensar o mesmo).

[“Holiday”:]

Por isso, quando os Sonic Youth aparecem como Ciccone Youth a fazer versões noise desses seus hits pop, não fiquei tão incomodada como alguns fãs mais fundamentalistas da armada sónica, mas percebi que Madonna era realmente transversal, estava numa categoria à parte, de onde, verdade seja dita, nunca saiu.

Mais tarde, nos anos 90, enquanto eu perdia o medo de dançar e outros complexos de estilo, sentia em “Vogue” e no álbum Erotica o pulsar do house que agitava os clubes do underground de Nova Iorque, Londres ou Lisboa. Madonna navegava a onda da club culture cultivando o lado mais sexy, na música e na imagem. Erotica, produzido por Shep Pettibone, estava em sintonia com um movimento maior que tinha começado com a febre acid house de final dos anos 80 e no início dos anos 90 já tinha contagiado toda a Europa. As origens, ironicamente, estavam nos clubes de disco e house de Nova Iorque, que Madonna conhecia bem (era daqui que vinha “Vogue” e toda a citação da cultura voguing), mas foi preciso os ingleses descobrirem a música de dança feita pelos americanos e bandas como (primeiro os New Order) Happy Mondays ou Primal Scream assimilarem as fórmulas, para que o fenómeno alastrasse globalmente a um público, em muitos casos, mais habituado a ouvir rock e a ter algum constrangimento na expressão física do seu contentamento.

[“Erotica”:]

No início dos anos 90, com cada vez mais gente aberta a soltar-se numa pista de dança, Madonna encontrou nos clubes o meio para expressar as suas ideias mais controversas, ou pelo menos, mais explícitas, sobre sexo, dinâmicas de poder, questões de género e outros tabus como a sida. É o meu álbum preferido de Madonna, mas não estou muito acompanhada nessa opinião, até porque é um dos seus discos menos obviamente pop, o que talvez explique o relativo esquecimento em que caiu. Na verdade, Erotica foi ofuscado por Sex, o livro com capa em alumínio e fotos softcore porn de Madonna e amigos como Isabella Rossellini, Naomi Campbell e Vanilla Ice, tiradas por Steven Meisel. Há quem olhe para Sex com a displiciscência de quem vê um calendário de garagem versão posh, há quem veja nele uma afirmação política e artística sem precedentes. Seja como for, o livro foi fulcral para reforçar o estatuto de Madonna como ícone pop e ainda hoje causa espanto.

A capa do popular e polémico livro “Sex”

No séc XXI, o sexo continua a ser assunto em muitas canções, há coreografias de vários tipos de cópula na generalidade dos videoclips e todas as mulheres na música pop parecem ser donas de si mesmas, mas já não há grande choque ou consternação do outro lado. Se Lady Gaga, Miley Cyrus, Beyoncé ou Rhianna são indiscutivelmente poderosas, sensuais, provocatórias e são também marcas com uma estratégia de marketing, é porque Madonna fez tudo antes. Ainda continua a fazer tudo agora, com 60 anos, o que é extraordinário e muito pouco consensual. A académica Camille Paglia, por exemplo, criticou-a por tirar fotos em topless, acusando-a de querer competir com as mulheres mais jovens ao expor o seu corpo envelhecido daquela maneira. Madonna, obviamente, sabe que está a abrir caminho para que mais mulheres não jovens façam o mesmo, continuando assim o seu percurso de criadora de tendências. É um pouco como aconteceu com os cintos de pins “à Madonna” nos anos 80…

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3