A passada quinta-feira tinha tudo para ser um dia inesquecível para um grupo de crianças em Dayhan, no norte do Iémen, que estava a fazer uma visita de estudo há muito antecipada. Mas, acabou por ser uma tragédia. Um ataque aéreo levado a cabo por uma coligação da Arábia Saudita atingiu o autocarro onde viajavam e matou 40 crianças, entre os 6 e os 11 anos, e mais 11 adultos.

Ainda antes, Osama Zeid Al Homran, um dos alunos que estava no veículo, filmou o início da viagem, que tinha como destino um cemitério local, um dos únicos espaços verdes que ainda existem no país devido à guerra. No vídeo, divulgado esta sexta-feira pela CNN, as crianças conversavam alegremente e recitavam versos do Alcorão. Depois, correram para o cemitério para brincar.

“Eles estavam tão entusiasmados com aquela viagem”, disse Yahya Hussein, um professor de 40 anos que acompanhou as crianças na visita que marcava o fim da escola de verão religiosa. “É tudo o que têm falado nos últimos dias”, acrescentou. Quando os rapazes voltaram para o autocarro, uma bomba foi lançada. O professor estava atrasado e tinha ido estacionar o seu carro quando o ataque aconteceu. “Ouvi uma grande explosão e havia pó e fumo por todo o lado”, relatou à CNN. Na descrição do cenário, Hussein só tinha uma imagem na cabeça: “Havia partes do corpo e sangue espalhados por todo o lado”.

O ataque matou 51 pessoas no total, 40 delas crianças, segundo dados mais recentes revelados pelo ministro da Saúde de Houthi, Taha al-Mutawakil, numa conferência de imprensa na passada sexta-feira. Há também 79 pessoas feridas, 56 delas crianças.

No domingo, centenas de pessoas reuniram-se para o funeral das crianças, na cidade de Saada. Muitos levaram cartazes com imagens dos feridos depois da explosão. Outros tinham cartazes que diziam “A América matou as crianças do Iémen”, referindo-se ao facto de a bomba que atingiu o autocarro ser de fabrico norte-americano.

O secretário da Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, disse que, enquanto foi pedido à coligação liderada pela Arábia Saudita para investigar o caso, vai enviar um tenente-general a Riade para ajudar nos inquéritos e evitar que situações destas “aconteçam no futuro”. Já o porta-voz do Comando Central dos EUA, major Josh Jacques, disse que poderão nunca saber se a bomba utilizada foi comprada aos EUA.

A coligação da Arábia Saudita reconheceu ter feito um ataque aéreo num autocarro, mas nega ter atingido civis, defendendo que não se tratavam de crianças, mas sim de “combatentes Houthis”, disse à France Press o seu porta-voz, Turki al-Maliki. Os sauditas afirmam também que o que aconteceu na quinta-feira foi uma “operação militar legítima” e uma resposta a um míssil balístico enviado por Houthi à província de Jizan no dia anterior.

A guerra no Iémen tornou-se a pior crise humanitária do mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), há mais de 22 milhões de pessoas que necessitam de ajuda e proteção. Mais de 10 mil civis já morreram no conflito e 40 mil ficaram feridos.