Guerra

Bomba que matou crianças no Iémen foi fabricada nos Estados Unidos

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Números de série da bomba guiada por laser indicam que foi vendida no âmbito de um acordo de venda de armamento aprovado pelo Departamento de Estado norte-americano.

Middle_E_News/Twitter

A bomba que matou dezenas de crianças no Iémen, a 09 de agosto, num ataque aéreo da coligação liderada pela Arábia Saudita contra um autocarro, foi fabricada nos Estados Unidos e vendida aos sauditas no âmbito de um acordo de venda de armamento aprovado pelo Departamento de Estado norte-americano, avançou a CNN.

Especialistas ouvidos pela cadeia de televisão norte-americana indicaram que a bomba MK82, de 500 libras (227 quilos), foi fabricada pela Lockheed Martin, um dos principais fornecedores de material de guerra dos Estados Unidos. A informação sobre o fabricante e o modelo preciso consta dos números de série da arma, visíveis em estilhaços recuperados no local e fotografados por operadores de câmara da CNN.

A notícia do ataque contra o autocarro no Iémen, a 09 de agosto, correu mundo, em grande parte devido às imagens recolhidas minutos antes do impacto da bomba por uma das crianças que viria a morrer, Osama Zeid Al Homran. A criança gravou um pequeno vídeo com o seu telemóvel, mostrando um grupo de miúdos na brincadeira dentro do autocarro. Pelo menos 51 pessoas morreram no ataque, 40 das quais crianças.

Testemunhas oculares do ataque ouvidas pela CNN indicam que a bomba atingiu em cheio o autocarro, que circulava num mercado bastante movimentado. “Eu vi a bomba a atingir o autocarro. Mandou [o autocarro] contra aquelas lojas e espalhou corpos para o outro lado daqueles prédios. Encontrámos corpos em todo o lado, uma cabeça dentro da cratera da bomba. Quando a encontrei, desatei a fugir com medo”, relatou uma das testemunhas. Alguns corpos estavam de tal forma mutilados que a identificação se tornou impossível.

A MK 82 – modelo Paveway – usada no ataque aéreo contra o autocarro onde seguiam dezenas crianças iemenitas é muito semelhante à munição utilizada em outubro de 2016, num outro ataque aéreo no Iémen que matou 155 pessoas e deixou feridas centenas de outras. Na altura, o então presidente norte-americano Barack Obama proibiu a venda deste tipo de bombas guiadas por laser à Arábia Saudita, alegando “preocupações relacionadas com os direitos humanos”, recorda a CNN.

Meses antes, em março de 2016 , outras 97 pessoas tinham morrido num ataque aéreo no qual foi usada uma outra bomba fornecida pelos EUA, uma MK84 guiada por laser. No entanto, a proibição de venda de bombas laser a Riade decidida por Obama foi anulada pela administração Trump.

Questionado pela CNN acerca da proveniência da bomba usada, o porta-voz da coligação liderada pela Arábia Saudita (e apoiada pelos Estados Unidos), o coronel Turki al-Maliki, não respondeu diretamente. “O governo democraticamente eleito do Iémen foi afastado por milícias Houthis apoiadas pelo Irão. A coligação está no Iémen com o apoio do Conselho de Segurança da ONU para restaurar o governo legítimo. A coligação opera ao abrigo da lei internacional relativa aos direitos humanos, adotando todas as medidas, que sejam praticáveis, para minimizar as baixas civis. Qualquer baixa civil é uma tragédia”, afirmou o responsável, salientando que “não seria apropriado” fazer mais comentários enquanto não estiver concluída uma investigação ao incidente.

A Arábia Saudita rejeita a acusação de que está a visar alvos civis, considerando que o ataque contra o autocarro se tratou de “uma operação militar legítima” e uma retaliação pelo lançamento de um míssil balístico por parte dos rebeldes houthis, um dia antes.

Uma porta-voz do Pentágono, a comandante Rebecca Rebarich, também se escusou a confirmar a proveniência da bomba usada contra o autocarro das crianças. “Os EUA têm vindo a trabalhar com a coligação liderada pela Arábia Saudita para os ajudar a melhorar os procedimentos e os mecanismos de supervisão que reduzam as baixas civis”, disse apenas.

As Nações Unidas exigiram uma investigação independente ao ataque, um dos mais mortíferos desde que começou a guerra no Iémen, no início de 2015. Desde esse ano que a coligação liderada pela Arábia Saudita tem dado apoio ao presidente no exílio Abdu Rabbu Mansour Hadi, combatendo os rebeldes Houthis.

Os Estados Unidos são – a par da França e do Reino Unido – um dos maiores fornecedores de material de guerra à Arábia Saudita. Em maio de 2017, naquela que foi a sua primeira viagem ao exterior como Presidente, Donald Trump assinou um acordo de material militar com o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, em Riade, avaliado em mais de 110 mil milhões de dólares. No mesmo mês, a administração americana voltou a dar autorização para a exportação de bombas Paveway para a Arábia Saudita.

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