O acordo foi fechado no final de Maio, mas provavelmente só no passado domingo é que muitos dos milhares de adeptos da Premier League se aperceberam dele. Frente ao Manchester City, não só o logo “Visit Rwanda” correu na manga esquerda das camisolas dos jogadores dos gunners, como marcou presença nos backdrops laterais do estádio Emirates. Mas como é que um dos países mais pobres do mundo, que ainda recebe ajuda humanitária externa, decide investir num dos clubes mais ricos do futebol mundial?

Se há notícias que causam espanto, esta é uma delas. No final da época passada, o governo do Ruanda fechou um acordo de patrocínio de três anos no valor de 30 milhões de libras (praticamente 34 milhões de euros) com o Arsenal. O negócio, encabeçado pelo Presidente Paul Kagame, foi levado avante mesmo sem aprovação parlamentar, fazendo subir de tom as acusações contra a autocracia do poder presidencial no Ruanda.

Recorde-se que Paul Kagame foi eleito em 2017 para um terceiro mandato de sete anos à frente do governo ruandês, numa eleição em que a oposição foi fortemente reprimida e que terminou com 98,8% dos votos a favor do atual presidente (a constituição foi inclusivamente revista para permitir que Paul Kagame se recandidatasse a um terceiro mandato). Este é apenas um dos episódios que tem manchado o respeito pela liberdade de expressão nas últimas duas décadas, marcadas por ataques a opositores políticos, jornalistas e ativistas dos direitos humanos.

Contudo, nada disto parece incomodar o fundador da Frente Patriótica Ruandesa (FPR). No poder desde 2000, altura em que substituiu o cessante Pasteur Bizimungu com quem participou num governo de coligação em 1994, após a guerra civil, Kagame tem conduzido o país a uma estabilidade e crescimento económico ímpar no continente africano. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), é expectável que a economia do Ruanda cresça entre 7 e 8% este ano, bem acima da média de crescimento de 4,9% dos mercados emergentes, e o Banco Mundial classifica este estado da África oriental como o segundo país no continente onde é mais fácil fazer negócios, a seguir à Mauritânia.

Um dos sectores chave que têm sustentado este crescimento é o mercado do turismo – e é precisamente aqui que entra a ligação com o Arsenal.

Estratégia de marketing ou capricho presidencial?

Declarado adepto do Arsenal, Paul Kagame não esconde a devoção ao seu “clube amado” nas redes sociais. No Twitter chegou mesmo a defender a saída de Arsène Wenger, pouco antes do treinador francês ter anunciado o fim de 22 anos de ligação à frente dos gunners. E foi nesse enlace de acontecimentos que se deu a confirmação do Ruanda como parceiro turístico oficial do clube de Londres.

De acordo com o Rwanda Development Board (RDB), o departamento governamental responsável pela atracção de investimento externo para a economia nacional, esta estratégia faz parte de um plano ambicioso de aumentar as receitas turísticas para quase 900 milhões de euros no país nos próximos seis anos (entre 2010 e 2016, as receitas já tinham crescido de 202 para 404 milhões de euros e o número de visitantes cresceu para 1,3 milhões de pessoas). Contra aqueles que pediam que o investimento fosse direccionado para bens essenciais como a água e a electricidade, Clare Akamanzi, CEO do RDB, defendeu esta estratégia numa publicação na sua conta do Twitter, dizendo que o turismo é a principal fonte de receita externa do país e que quanto mais dinheiro o sector gerar, mais poderá ser investido na “nossa população”.

Contudo os argumentos não convenceram a crítica, acusando o presidente de pôr as suas paixões pessoais à frente dos reais interesses da nação. E não é de espantar que assim seja. O Ruanda é atualmente o 18º país com o PIB per capita mais baixo do mundo. Já o Arsenal, segundo o ranking Football Money League 2018, é o sexto clube mais rico do mundo, com 487.6 milhões de euros.

O Reino Unido, país que após o genocídio que vitimou mais de meio milhão de pessoas, mantém um plano de ajuda humanitária e de redução de pobreza no Ruanda, está atento a esta situação. Em entrevista a John Humphrys, no programa Today da BBC, Clare Akamanzi perdeu a paciência com o jornalista britânico quando este, após qualificar de bizarra a decisão do país despender tanto dinheiro num patrocínio a um clube como o Arsenal, sugeriu que o combate à pobreza no Ruanda só tem sido possível devido à ajuda externa que o país tem recebido nos últimos anos (para 2018/2019, o Reino Unido prevê transferir 64 milhões de euros em ajuda humanitária ao Ruanda). Akamanzi reagiu acusando Humphrys de fazer uma análise enviesada dos factos e advogando que nos últimos 15 anos o Ruanda reduziu a sua dependência externa de 80 para 17%, “algo possível precisamente porque, entre outros sectores, o turismo foi dos que mais cresceu”, empregando actualmente cerca de 90 mil ruandeses. “Como é que isso poderia acontecer se não fossemos activos a marcar a nossa posição no mundo?”

O certo é que nos próximos três anos o “Visit Rwanda” vai continuar a aparecer na manga esquerda dos equipamentos da equipa principal, sub-23 e de futebol feminino do Arsenal. E Paul Kagame estará lá a torcer pelas vitórias dos gunners.

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