Num comunicado de três páginas, divulgado terça-feira e assinado pelo Secretariado Executivo do Comité Permanente, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) reage à decisão, aprovada por unanimidade a 17 deste mês na 38.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da SADC, de considerar aquela data como feriado regional e como Dia da Libertação da África Austral.

Segundo a argumentação usada na proposta apresentada por Angola, o “23 de março” marca a data do fim da batalha do Cuito Cuanavale, na província do Cuando Cubango (sul de Angola), o maior conflito militar da guerra civil angolana, que decorreu entre 15 de novembro de 1987 e aquele dia de 1988.

O conflito opôs os exércitos das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), apoiado por Cuba, e da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com apoio da África do Sul.

Para Luanda, o fim da batalha marcou um ponto de viragem decisivo na guerra, incentivando um acordo entre sul-africanos e cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à implementação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial que vigorava na África do Sul.

“A UNITA lamenta profundamente o facto de que os chefes de Estado e de Governo da SADC se tenham deixado manipular pelo executivo angolano, movido há muito por interesses não confessados”, lê-se no documento do antigo movimento guerrilheiro, atualmente o maior partido da oposição angolana.

Para a UNITA, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), “coligadas” com militares da então União Soviética e de Cuba, tinham como objetivos militares a tomada de Mavinga e da Jamba, na altura bastiões do movimento do “Galo Negro”, tentativa que saiu “frustrada” e “obrigou ao recuo das forças militares atacantes até à margem direita do rio Cuíto, onde se verificou o impasse militar”.

Segundo o movimento então liderado por Jonas Savimbi, foi esta situação que conduziu à retirada das forças militares estrangeiras de Angola, cubanas e sul-africanas, negociada em Nova Iorque, em dezembro de 1988, e às consequentes negociações políticas conducentes à independência da Namíbia, a 21 de março de 1990, ao fim do “apartheid”, na África do Sul, a 17 de março de 1991, e à democratização de Angola por via dos Acordos de Paz Para Angola, firmados em Bicesse, a 31 de maio de 1991.

A História está aí para registar que a batalha do Cuíto Cuanavale não representou o fim da guerra em Angola nem significou a libertação da África Austral. Angola, Zâmbia, Botsuana, Moçambique, Malawi, Tanzânia, a Suazilândia [atual Eswatini], Zimbabué e a própria África do Sul já eram independentes antes dessa batalha”, refere a UNITA no comunicado.

Segundo a versão da UNITA, o processo negocial angolano “teve de passar por novas batalhas militares”, como foi a última campanha para a tomada da Jamba em 1990, “igualmente fracassada”, e também por outros anteriores a Bicesse, como foram os fracassados Acordos de Gbadolite, em que se pretendia o exílio de Savimbi.

“Por tudo isto, é uma mentira grosseira atribuir a libertação da África Austral à batalha do Cuito Cuanavale, que apenas existiu devido ao fracasso da tentativa de tomada da Jamba”, considera a UNITA, acrescentando que o partido “saúda a libertação de toda a África e não apenas da África Austral”.

“A África Austral precisa, acima de tudo, de ser libertada da fome, pobreza e exclusão a que está submetida a grande maioria dos seus povos. Precisa de ser libertada especialmente do fenómeno da delapidação dos seus recursos e do flagelo da corrupção, promovidos e protegidos por alguns dos seus governos que, paradoxalmente, se intitulam de ‘libertadores da África Austral'”, acrescenta-se no documento.

A UNITA adianta “saber o bastante dessa História” para poder afirmar que “a motivação dos líderes angolanos que promoveram, no seio da SADC, a consagração da data de 23 de Março, não se enquadra nas aspirações de liberdade e unidade dos africanos, porque deturpa factos importantes que, a seu tempo, a revelação da verdadeira História cuidará de corrigir”.

“Infelizmente, a deturpação de factos para falsear a História, tem sido um apanágio do partido-Estado angolano [Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA]. Foi assim durante a luta anticolonial, no período de transição para a independência, foi assim em relação ao holocausto angolano que se seguiu ao 27 de maio de 1977 e tem sido também assim durante a governação corrupta de Angola que empobreceu os angolanos nos últimos 40 anos”, acrescenta o partido.

“A UNITA repudia veementemente a atitude do partido-Estado de Angola de deturpar os efeitos determinantes da grande batalha ocorrida nas margens do rio Lomba na mudança do curso da História política da região, e de escolher, em seu lugar, o momento do impasse militar, no local do recuo, a margem direita do rio Cuíto, para simbolizar a libertação da África Austral”, critica.

Por fim, a UNITA lamenta o facto de, “mais uma vez”, “o Executivo angolano e o MPLA “permanecerem virados” para uma governação para o exterior, “prenhe de ‘show-offs'”. “[O Governo angolano e o MPLA] preferem despender milhões de dólares com a organização de competições internacionais enquanto o povo morre de fome, com satélites que não funcionam quando a saúde adoece, com ‘marketing’ de vitórias e heróis inexistentes enquanto prossegue o roubo e a impunidade”, termina.