Obituário

Luís Amaro (1923-2018), um príncipe do serviço

"Quem o observe à distância e atente nos seus modos educados, na gentileza polida e na máxima discrição, não pode adivinhar quanto a literatura portuguesa deve a este homem raro", escreve Vasco Rosa.

Autor
  • Vasco Rosa

Visito Luís Amaro, de 95 anos, no Domus Vida na Travessa da Praia, à Junqueira, onde o secretário da Colóquio Letras de 1972 a 2000 vive desde Maio de 2014, afastado da sua biblioteca e arquivo, mas nunca sem livros por perto. A sua cabeça muito branca inclina-se neste momento sobre as pequenas páginas duma antiga edição, encadernada a couro, da Lírica de Camões, que ele lê, rodeado de vizinhos apáticos, com o júbilo de quem redescobre a palavra dum poeta, como ele, de resto, também é.

Quem o observe à distância e atente nos seus modos educados, na gentileza polida e na máxima discrição, não pode adivinhar quanto a literatura portuguesa deve a este homem raro, a quem a longevidade não roubou lucidez, memória e macieza. Vive agora afastado das suas estantes e fichários, mas quando se lhe oferece ocasião de ajudar alguém manda vir de sua casa algum maço — preso por modesto cordel — de pequenos rectângulos de papel reaproveitado onde registou dados bibliográficos ou outros. Nos arquivos literários depositados na Biblioteca Nacional, entre os quais o seu, há muitas dezenas, diria mesmo centenas de cartas de Luís Amaro de ou para outras figuras das letras portuguesas, em que um invulgar espírito de serviço e de boa e franca convivialidade demonstra as qualidades do antigo secretário da Colóquio Letras que antes de o ser havia tido longa e certamente enriquecedora experiência profissional no escritório da editora-livraria Portugália, fundada e sustentada pelo industrial algarvio Agostinho Fernandes.

Como secretário duma casa editorial de alguma centralidade na vida cultural portuguesa, sobretudo das décadas de 1940-60, Luís Amaro pôde contactar muitos escritores e tradutores, o que o habilitou sem dúvida de um modo especial para as funções que haveria de desempenhar numa revista institucional de literatura como não havia ou haveria outra no nosso país, fora do impulso incisivo (e por vezes insidioso) de tendências estéticas contrastivas ou da rotina quase obsoleta de repositórios académicos ou universitários. Serviu três directores: Jacinto do Prado Coelho (1971-84), David Mourão Ferreira (1984-96) e Joana Morais Varela (1996-2000), mas sobretudo instituiu aí uma bitola ou crivo de máximo rigor filológico e ortográfico, que tantos autores haveria de favorecer e alguns discípulos oficinais de criar. Foi também determinante no exemplar processo de integração da valiosa biblioteca do alfarrabista e bibliófilo Bordalo Botto na biblioteca geral da Fundação Gulbenkian, hoje Biblioteca de Arte, onde figuram obras do primeiro modernismo que sequer podemos encontrar na Biblioteca Nacional.

Os parágrafos acima escrevi-os há dias, como abertura dum trabalho que a revista Colóquio Letras me encomendara para incluir no seu número de Janeiro próximo (um redondo e histórico n.º 200), no qual se propunha evocar o seu longevo secretário de redacção através duma entrevista de vida conduzida por mim. Tal propósito já não pode ser realizado, pois Luís Amaro faleceu esta manhã, após prolongado internamento no Hospital Egas Moniz, na sequência duma dupla pneumonia que fatalmente o derrubou.

Desaparece um príncipe de serviço das letras portuguesas, um caso muito raro de alguém que — apesar da sua discrição — se tornou uma referência testemunhal da nossa vida literária da segunda metade do século passado, cuja história crítica bem precisa de ser iluminada por novas abordagens sustentadas, interpelando narrativas estabelecidas de cujo aprumo podemos duvidar. Pedro Piedade Marques, por exemplo, que desenvolve um apreciável e muito meritório trabalho historiográfico sobre edição e editores, bem gostaria de ter podido ouvir Luís Amaro contar-lhe pequenas histórias do árduo contacto dos editores com os serviços censurais do Estado Novo. De facto, já serão muitos poucos os sobrevivos capazes de — ou interessados em — ajudar a fixar uma nova história da literatura e do livro portugueses do século XX, em que casas editoras e revistas literárias de qualquer tipo ou pinta vejam reconhecido o seu protagonismo fundamental. Como sucede no campo das artes, nenhuma séria campanha de registos pró-memória literária foi feito a devido tempo, com prejuízo evidente para as gerações futuras. Até diante disso Luís Amaro foi sagaz, no relato feito para uma fotobiografia de Agostinho Fernandes e da sua Portugália (2000, 2.ª ed. 2008).

Nesta hora triste e de saudade, não é ainda chegado o momento de se acautelar devidamente a conservação integral (quer dizer, não dispersada) da sua biblioteca privada e o destino útil do seu arquivo literário, mas conviria que fosse seriamente pensado nisso. Amigos e admiradores sinceros não faltarão à chamada para o que for preciso fazer. À hora em que escrevo (15h), nem a Biblioteca Nacional nem o Ministério da Cultura — seguramente avisados do óbito — tornaram pública qualquer nota de pesar. Na hierarquia cultural, a oligarquia tem sempre prioridade absoluta e os casos de bom serviço de pouco valem para elas. Que esta omissão não antecipe já um pior esquecimento futuro…

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