O militar português do corpo de paraquedistas que ficou ferido durante uma “operação de manutenção” da sua G3, na República Centro Africana, esta quinta-feira, tem um “prognóstico reservado” e precisa de “cuidados médicos diferenciados”, refere ao Observador fonte oficial do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA). O soldado, que estava a uma semana de terminar a missão, chega esta sexta-feira à noite a Portugal, a bordo de um Falcon da Força Aérea.

A troca do contingente já tinha data marcada: 6 de setembro. Nesse dia, chegam a Bangui os mais de 100 militares que partem de Lisboa na noite anterior e regressam a casa os homens que estão há seis meses na República Centro Africana (RCA). O militar português ferido esta quinta-feira devia integrar este grupo mas acabará por regressar mais cedo, a bordo do Falcon da Força Aérea, por “decisão clínica”, tomada em articulação com Portugal.

O militar “sofreu um trauma ocular no seguimento da libertação acidental de uma peça durante uma operação de manutenção de armamento, que atingiu o militar no globo ocular esquerdo”, referia o comunicado divulgado pelo EMGFA.

O soldado ainda foi assistido em Bangui e passou pelo hospital sérvio que dá apoio à Missão das Nações Unidas na RCA (a MINUSCA). Mas, por “falta de capacidade” para realizar cirurgias oculares naquele equipamento, foi tomada a “decisão clínica” de fazer regressar antecipdamente a Lisboa o militar.

As missões na RCA, nomeadamente quando os militares saem em patrulha nas ruas da capital, obrigam a largos períodos de exposição ao pó. Nos momentos em que estão aquartelados, os homens aproveitam para fazer a manutenção das suas armas. Era isso que o soldado ferido fazia, numa “ação rotineira” que acabou por resultar em ferimentos com alguma gravidade. “Sempre que há uma dessas operações, os militares fazem limpeza da arma, é banal para eles“, diz o porta-voz do EMGFA, Coelho Dias.

Depois de regressar a Lisboa, o militar vai ser alvo de novos exames médicos e, muito possivelmente, uma intervenção cirúrgica. O comunicado divulgado esta quinta-feira à noite pelo EMGFA referia que “foi superiormente decidido evacuar de imediato o militar para território nacional para que possa recuperar todas a suas capacidades visuais“. Mas essa possibilidade de recuperação total, sem mazelas, não está ainda garantida.

É o segundo caso de um militar português ferido na missão das Nações Unidas, naquela que é uma das missões com maiores riscos para as forças portuguesas destacadas em missões no estrangeiro. Em abril, os estilhaços de uma granada, durante um cerco a radicais islâmicos, em Bangui, deixou um paraquedista com lesões — nesse caso, sem gravidade. Nessa missão, os militares ensaiaram um cerco a um dos grupos que ameaçam a estabilidade no país mas, durante a fase da consolidação, algumas dezenas de elementos radicais conseguiram fugir ao controlo das forças locais e espalharam-se pela cidade.

Ambos os militares integraram a Força de Reação Rápida das Nações Unidas, o braço-direito do comandante da missão. Eram elementos da 3ª Força Nacional Destacada naquele cenário, a primeira composta por militares paraquedistas. Antes, estiveram no país duas forças de outra força especia do Exército, os Comandos. Recentemente, e devido à tensão que continua a registar-se no terreno, Portugal decidiu reforçar o efetivo que tem na missão, com o envio de seis viaturas Pandur e um grupo de 20 militares que vão operar esses meios.