Monica Lewinsky tem uma perspetiva única sobre o bullying. Não é para menos. Há cerca de 20 anos, Lewinsky protagonizou um escândalo presidencial, quando a sua relação com Bill Clinton foi parar às primeiras páginas dos jornais. O escrutínio foi intenso. As manchetes também. Seguiu-se o silêncio inevitável, que só mais recentemente foi quebrado quando Lewinsky voltou à esfera pública para juntar-se ao movimento #MeToo, lançado por mulheres vítimas de assédio sexual. O trabalho de ativista não ficou por aqui: a norte-americana deu também a cara por uma campanha contra o cyberbullying, a mesma que lhe garantiu uma nomeação aos Emmy.

A campanha de sensibilização In Real Life é um retrato duro sobre a forma como os insultos partilhados nas redes sociais impactam as pessoas. O vídeo com pouco mais de dois minutos mostra diferentes situações em que pessoas são insultadas, seja pela sua orientação sexual, cor de pele ou aspeto físico. Todas as trocas de insultos são representadas por atores. Todas os indivíduos em redor, que chegam a intervir para defender as vítimas e confrontar quem faz bullying, são pessoas reais. “Este comportamento não é aceitável na vida. Então, porque é que é normal online?”, é a pergunta que aparece mesmo no final do vídeo.

A iniciativa de Lewinsky, ativista contra o bullying, garantiu-lhe presença nos Creative Arts Emmys Awards, que acontecem no próximo dia 8 de setembro — cerimónia anual que distingue os profissionais por detrás das câmaras (não confundir com os Emmy Awards, marcados para 17 do mesmo mês). Além do vídeo, Lewinsky tem dado discursos em vários cantos do globo, participado nas famosas TED Talks e escrito ensaios para a Vanity Fair. A campanha de sensibilização, realizada pela agência de publicidade BBDO, com a qual colaborou, parece ser a cereja no topo do bolo.

Em setembro de 2010, o estudante universitário Tyler Clementi, de New Jersey, saltou da Ponte George Washington depois de o colega de quarto ter alegadamente divulgado um vídeo dele a fazer sexo com outro homem. Clementi, cujo suicídio ganhou contornos mediáticos, foi vítima de cyberbullying. A história trágica que até deu origem a uma fundação teve um especial impacto em Lewinsky, que escolheu abraçar o tema. Em março de 2015, numa TED Talk realizada em Vancouver, no Canadá, a ex-estagiária do presidente Bill Clinton dizia perante uma plateia cheia que, durante dez anos, “foi publicamente silenciada”. O que lhe aconteceu aos 22 anos de idade tornou-se público de tal forma que, hoje, o nome Monica Lewinsky aparece em quase 40 canções de rap. “Aos 22 anos apaixonei-me pelo meu chefe”, admitiu. Dois anos depois apercebeu-se da gravidade do erro. Lewinsky foi “publicamente humilhada no mundo inteiro”. “Fui o paciente zero ao perder a minha reputação pessoal num escala global de forma quase instantânea.”

Quando ouviu falar pela primeira vez na nomeação, Lewinsky julgou de imediato que esta se destinava a uma atriz que tivesse interpretado a sua personagem num programa de televisão, até porque, como contou à Vanity Fair, está habituada a que a sua identidade seja “propriedade pública”. Tantos anos depois do affair que a tornou famosa, Lewinsky está a caminho do Emmy.