Cuidado: está quente

Boteco da Dri: o Brasil à mesa não é só rodízio, samba e caipirinhas

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Há um novo restaurante brasileiro onde a festa e a boa disposição andam de mão dada com a vontade de quebrar os estereótipos da picanha e do arroz com feijão. Conheça o primeiro "boteco" de Lisboa.

Diogo Lopes/Observador

Brasil, o “País Irmão”. Tanto hoje como durante séculos foi este o petit nom dos nossos vizinhos do outro lado do Atlântico, um bocadinho mais abaixo. Milhares de portugueses habitam nessas terras que em tempos viveram sob o julgo do “colonizador”, tal como sempre houve “canarinhos” em terras lusas. Mas agora pergunte-se: quanto sabemos realmente sobre a cultura brasileira?

Tirando lugares comuns como o futebol e (alguma) música, esta nação que é uma das que mais ligações tem connosco ainda é uma incógnita muito grande. A comida, como parte essencial da cultura de um povo, não foge desta triste regra e resume-se ao estereótipo do rodízio, da caipirinha e do arroz com feijão.

“Eu sou do Rio [de Janeiro], mudei-me para cá há dois anos”, explica ao Observador Renato Castro Santos, o diretor geral do recentíssimo Boteco da Dri. Um dos primeiros negócios de Renato em Lisboa foi um pequeno bar “que não correu tão bem como podia”. Acabou por encerrar, mas não foi por causa disso que este jovem de 32 anos desistiu de ter um projeto seu na capital. Um dia, um amigo próximo decidiu apresentá-lo a Daniel Baz, libanês de 26 anos que, vindo da Suíça, tinha acabado de se mudar para Lisboa. Deram-se bem e em menos de nada avançaram com este negócio: Renato seria o diretor e Daniel o proprietário.

“A ideia inicial não era fazer um restaurante brasileiro, mas eu e o Daniel fomos desenvolvendo a identidade do espaço. Sempre comentei com ele que sentia falta de uma qualquer representação menos cliché, banal, daquilo que é o Rio de Janeiro. Queria menos rodízio, menos samba e bossa nova”, afirma Renato enquanto beberica de uma cerveja, à mesa desta novidade. Passemos então a explicá-la melhor.

A sala de refeições do Boteco da Dri.©Diogo Lopes/Observador

Longa vida ao boteco

“O brasileiro tem muita representatividade cá, mas pouca identidade específica. É muito difícil definir o Brasil e vê-lo representado só por uma coisa ou outra é muito complicado. Nós queremos dar uma identidade diferente, um clássico da cultura brasileira, no geral, e carioca, mais em específico”, explica o mesmo Renato. Fala-se, portanto, num “boteco” brasileiro (aliás, como o próprio nome o indica), um espaço de petiscos e de cervejas com amigos, onde também se pode “sentar e jantar um prato mais substancial”. Sendo verdade a ideia de que só conhecemos a comida de um povo quando nos sentamos à mesa com ele, é fácil perceber que este tipo de restaurante popular brasileiro é o sítio certo para conhecermos melhor a comida típica do país. Um pouco como as (boas) típicas tascas portuguesas.

Daniel, em inglês — “ainda estou a aprender”, explicou num português macarrónico –, confessa que não conhecia muito da comida e dos hábitos mais corriqueiros do Brasil, contudo, é pronto a afirmar que assim que conheceu Renato o interesse explodiu. “Decidi que queria embarcar nesta aventura, que queria abrir um capítulo novo na minha vida”, afirmou.

E foi assim que o antigo restaurante Pescaria — original de 1928, um dos mais antigos de Lisboa, mas que tinha perdido muita qualidade, conta Renato — deu lugar ao Boteco da Dri. Localizado na orla do Cais do Sodré, na zona de armazéns junto ao Tejo, o projeto é uma das mais recentes apostas nesta área lisboeta, que o proprietário acredita vir a ser um futuro poiso obrigatório. “Achamos que esta zona vai mudar em breve. Há o Monte Mar, a Portugália, o novo LACS… A ideia de atravessar a linha de comboio está a tornar-se mais aceitável”, dizem-nos.

Mas e o nome? De onde vem? Neste capítulo, Daniel e Renato optaram por uma abordagem mais conceptual: “Tínhamos várias hipótese de escolha, mas decidimos juntar duas ideias ao mesmo tempo. A representação de uma pessoa que me era muito importante e a ideia da mulher brasileira que gosta de ir sair com os amigos, partilhar umas cervejas, comer”, conta Renato. Resumindo, a “Dri” é “uma metáfora da jovem mulher brasileira. É a personificação de um estado de espírito”.

Daniel Baz (à esq.) e Renato Castro Santos (à dir.), osproprietário e o diretor geral do Boteco da Dri .©Diogo Lopes/Observador

Na prática, fala-se de um espaço com uma mezzanine que funciona como espécie de lounge, tanto para quem espera por mesa como para quem quer apenas beber umas cervejas. Existe uma sala de refeições grande onde impera a descontração. Não há toalhas e os talheres estão todos num vaso metálico, na companhia dos guardanapos pretos. Ao lado deste recipiente está outro bem mais divertido, um copo com lápis de cera. “Como os nossos individuais são em papel (100% reciclado), queremos que as pessoas possam ir fazendo uns desenhos ou algo do género”, conta Daniel.

Do pastel de vento à batida de coco

As cervejas chegam no fim, quando um rapaz de jaleca preta e boné com a pala para trás aproxima-se da mesa. “Conseguem arranjar espaço aí?”, pergunta. Nas suas mão estão duas tábuas de madeira com bolinhas amarelas. “Este é o nosso pão de queijo”, atira, com um incontornável sotaque brasileiro. A pessoa em questão é o chef Pedro Hazak, o grande responsável pelas iguarias que aparecem na carta do Boteco da Dri.

“Acho que esta é uma das minhas coisas favoritas da carta”, atira Renato, enquanto estica o braço para pegar num pão de queijo com chouriço e linguiça. “Cortamos o enchido em cubos pequenos e misturamos diretamente na massa” diz o chef Pedro logo de seguida. O pão de queijo (5€/4 doses do normal; 6€ com chouriço e linguiça) é um dos petiscos mais populares do Brasil e aqui fazem-no “à séria”. A farinha utilizada, por exemplo, é de mandioca e vêm diretamente de lá, do sítio onde nasceu.

Pedro Hazak está em Portugal há dois anos e meio e passou pelas cozinhas de Diogo Noronha, no Rio Maravilha, e de José Avillez, no Bairro, por exemplo. Antes disso, ainda na terra natal, trabalhou 6 anos com o chef Frederico Trindade. Depois dos pães de queijo chegam os pasteis de vento, outro clássico da comida tradicional brasileira. “Neste mix [5€] temos três tipos: o de carne, camarão e queijo”, explica o chef. Algo semelhante aos pasteis de massa tenra portugueses — “Acho que estes conseguem ser ainda mais leves”, diz Pedro. As gulodices fritas que surgiram acompanhadas de uma maionese de alho e salsa são totalmente feitas de raiz e ganham o seu nome porque “assim que são fritas, insuflam logo”.

O pão de queijo normal (à dir.) e o com chouriço e linguiça (à esq.). ©Diogo Lopes/Observador

Renato brinca: “Sinto-me em casa em Portugal. Basta olhar para o outro lado do rio e está lá o Cristo Rei! Tal como no Rio!”. O antigo produtor de festas (ainda quando estava no Brasil) explica, bem humorado, que a ideia da carta é pôr toda a gente a partilhar num ambiente descontraído, onde quem quiser está mais do que à vontade para se levantar a meio da refeição e começar a dançar — “Como já aconteceu!”. O espaço tem programação musical sob a forma de DJ sets ou alguns concretos ao vivo, sendo que a playlist, garante em conjunto com Daniel, “vai ter mais que samba e bossa nova”. Afinal, a ideia é oferecer o Brasil mas de uma forma que procura a integração e a assimilação de outras culturas. Veja-se, por exemplo, o falafel da Dri (8€), o prato que Daniel, entre risos, diz ser “seu”, ou a deliciosa saladinha de polvo (5,50€), uma “revisitação da salada de polvo portuguesa” mas com “o molho vinagrete para temperar carnes” muito típico em terras brasileiras — “a ideia é dar uma brasileirada na receita portuguesa”.

Picanha. É impossível não vir parar a este tipo de carne quando se fala em comida brasileira. Por muito que ela não seja, de longe, a única coisa neste receituário, a verdade é que ela tem a sua importância e é precisamente por isso que aqui também tinha de estar. Renato explica que vem sempre acompanhada de arroz branco e farofa (28€, dá para três pessoas ou mais) e que a carne vem do Uruguai. Por muito que se possa desconfiar em relação a esta proveniência, Renato explica que as dúvidas, muitas vezes, são infundadas: “França é conhecida como tendo os melhores vinhos do mundo. É verdade que os tem, mas Portugal, por sua vez, tem vinhos incríveis a preços bem longe daqueles praticados na França. Ou seja, ambos fazem vinho, e os dois fazem-no bem. Acontece isso com a carne: a do Brasil tende a ser melhor, mas a argentina ou uruguaia é igualmente saborosa”. Na carta vai encontrar ainda outros pratos como a feijoada brasileira (16€) ou até o picadinho de carne (18€). Como já não sobrava mais espaço na mesa (e na barriga), teve de se deixar essas iguarias para uma outra visita.

Antes do final da refeição, depois de se provarem sobremesas como a muito típica mousse de maracujá e chocolate (5,50€), vem o “digestivo”. “Esta é a forma como os cariocas gostam de terminar a refeição”, diz Renato apontando para uns pequenos copos com um líquido branco pastoso. Trata-se de uma batida de coco, uma espécie de cocktail com leite deste fruto e cachaça (claro). Delicado e não muito agressivo, o líquido fluí e o estômago agradece.

Feitas as contas, o Boteco da Dri é uma novidade que, apesar de já ter bases sólidas, é vista a longo prazo. No próximo verão, por exemplo, Daniel e Renato pretendem utilizar uma extensa zona exterior como deck, onde tanto se pode beber um copo como comer uma feijoada. No meio de tudo isto há outro pormenor “delicioso”: o Dri está aberto até às quatro da manhã. É aproveitar.

Boteco da Dri
Cais Gás, 19, Cais do Sodré, Lisboa
De terça-feira a domingo, das 19h às 4h (fecha segunda-feira)
25€ (preço médio)

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