Esqueçamos por momentos o lado inacessível, pelo menos para o comum mortal, de uma marca de luxo como a Hermès. Em 2010, a casa centenária inaugurou um novo capítulo na área da experimentação artística. Um primeiro passo rumo à ideia de zero waste, tão em voga hoje, tão omisso na realidade de há oito anos. Nascia aí o Petit h, um atelier construído de raiz para congregar, de um lado, os artesãos da maison, mestres da manipulação da pele, da porcelana, do cristal e da seda, entre outras matérias-primas, e, do outro, dezenas de artistas e designers dos quatro cantos do mundo. A premissa começou por ser só uma: aproveitar as sobras dos restantes ateliers da Hermès para criar novas peças.

O trabalho de equipa revelou-se frutífero e, da loja da Rue de Sèvres, em Paris, onde as peças mais emblemáticas são expostas desde o primeiro dia, o resultado tem sido exibido de capital em capital. A partir desta quinta-feira e até dia 29 de setembro, o primeiro andar da loja do Chiado, vira galeria e, como tal, abre as suas portas ao público. Além de uma seleção de objetos que mais parece ter saído de um sonho mirabolante, a Hermès propõe momentos de mãos na massa com uma agenda de workshops. Parece que o atelier parisiense se mudou para Lisboa até ao fim do mês.

O design que nasce das sobras

“Tínhamos estes copos da Saint-Louis [a mais antiga produção de vidro e cristal em França], sobraram muitos botões e havia cortiça para envolver a peça. O artista chegou e achou que a combinação era interessante. ‘Se o virarmos ao contrário, fizermos um buraco e pusermos um botão não podemos ficar com um saleiro?’ É assim: partir de uma coisa que já existe para chegar a outra história”, conta ao Observador Godefroy de Virieu, designer e diretor criativo do atelier, durante uma visita guiada pelo primeiro andar da loja, por estes dias agradavelmente ocupado pelos objetos do Petit h. É como o próprio diz: cada peça tem uma história e todas elas acabam por evocar uma mesma ideia: nada do que sobra nos ateliers da Hermès se perde, tudo se transforma.

Godefroy de Virieu, diretor criativo do petit h © André Carrilho/Observador

Dentro da lista de materiais à disposição, artistas e designers têm liberdade total, sobretudo para desafiar a norma. Não é à toa que de uma Kelly (mala icónica da Hermès, rebatizada em honra de Grace Kelly) já nasceu um relógio de cuco, que de pedaços de bules nasceram cabides de parede e que de restos de seda foram feitos colares tridimensionais… mas a estes já lá vamos. “No atelier, quando se corta uma peça de pele, sobra aquilo a que se chama esqueleto, material que costumava acabar num contentor. Penso que terá sido isso a chamar a atenção da Pascale. Precisamente por ser uma casa desta dimensão, é preciso haver espaço para esta liberdade criativa que dá sentido aos materiais adormecidos.”, conta Vivieu, a viajar pela primeira vez com o Petit h. “Artesãos, artistas, matéria — é a receita”, conclui.

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Petit h, o sonho de Pascale Mussard

Quem é Pascale Mussard? A mulher que idealizou e deu forma ao Petit h é, na realidade, uma herdeira da maison. Além de uma infância passada nos ateliers da marca, o sangue Hermès corre-lhe nas veias. À sexta geração (sim, a casa foi fundada em 1837, embora inicialmente se dedicasse somente à produção de selas e de outros acessórios equestres), Pascale decidiu refrescar a relação da Hermès com o design e com a arte. Formou-se na área da gestão, acabando por assumir funções no negócio da família. Chegou mesmo a assumir a direção artística da marca, juntamente com o primo, Pierre-Alexis Dumas, depois de ter chefiado alguns departamentos da casa. Em 2009, deixou a direção, momento em que terá começado a preparar o Petit h.

Das montras às exposições, Mussard sempre quis estabelecer uma ponte entre a Hermès e as artes. A criação do novo atelier foi o ponto alto desse impulso. “Desde a infância que sempre senti que é impossível deitar fora o que é bonito. Acredito que é obrigatório tomar conta do que nos é dado, especialmente de um material que foi tão cuidadosamente escolhido”, afirmou à revista Architectural Digest, em 2014. Já o avô, Émile Hermès, tinha dado os primeiros passos neste sentido. Ao produzir as primeiras capas para agendas, a partir de sobras de pele, deu início à lógica de aproveitamento que motivou a neta, décadas mais tarde, a iniciar um novo projeto dentro da maison.

A arca do tesouro, com pequenas peças de inspiradas na cultura portuguesa © André Carrilho/Observador

No início deste ano, Pascale Mussad retirou-se. Aos 61 anos, abandonou a direção do Petit h, confiando a tarefa ao designer Godefroy de Virieu. A empresa veio mais tarde esclarecer que Mussard continuaria a fazer parte da administração da holding que detém a Hermès, bem como a ocupar os cargos de supervisora da Hermès Parfums e de vice-presidente da Fondation d’Entreprise Hermès. Da direção criativa de Pascale ficou um extenso rol de designers e artistas com os quais o Petit h trabalha. A seleção não tem fronteiras, tal como a especificidade dos ofícios de quem trabalha no atelier de Pantin, nos arredores de Paris. “A Pascale viaja muito, conhece pessoas do mundo inteiro e está ligada a imensos artistas. Convidou muitos deles e, hoje, cerca de 100 trabalham com o Petit h”, explica Godefroy de Virieu, rodeado pelas dezenas de objetos que a Hermès trouxe para Lisboa.

Onde está a Birkin?

Percorrida a loja e subidas as escadas, encontramos um primeiro andar totalmente transformado. Não que ele estivesse aberto ao público até agora, mas diz quem cá esteve que as paredes brancas e a área ampla foram uma tela em branco para Joana Astolfi. Depois das montras, a relação da marca com a arquiteta estreita-se. O que vemos, a começar nas cortinas recortadas que dão às escadas um aspeto de túnel, é um projeto desenhado à medida para residência do Petit h em Lisboa. Afinal, digressões como esta não são assim tão frequentes. O projeto sai da Rue de Sèvres duas ou três vezes por ano. Agora, para em Lisboa, mas até ao fim do ano ainda vai dar um salto a Hong Kong.

Mas voltemos ao Chiado, onde o espaço foi pensado para se parecer com um gabinete de curiosidades. Mesmo a propósito, porque nas prateleiras e pedestais estão peças únicas, reinterpretações de materiais nobres como a pele, incluído a de crocodilo tão utilizada nas malas da marca, a porcelana, a seda dos famosos carrés (lenços) e a cortiça (sim, há cortiça portuguesa nos ateliers da Hermès). Circular pela sala é tropeçar constantemente em objetos de desejo. O portefólio é extenso, o espaço limitado, mas o Petit h não quis perder a oportunidade de estabelecer uma relação com Portugal. No centro, está uma arca (do tesouro). Lá dentro, há sardinhas em pele, molas de madeira gigantes forradas em couro, porta documentos e alfinetes em seda — é a face mais modesta de um atelier de luxo, luxo nos materiais, luxo na forma minuciosa como cada objeto é manufaturado e luxo no preço que, a partir desta arca, onde ainda é possível encontrar etiquetas com três dígitos (200€), é sempre a subir. Mais ou menos inalcançáveis, todas as peças estão à venda.

Thomas Boog usou fechos de malas Hermès para decorar a moldura de um espelho © André Carrilho/Observador

Vestígios de Birkin, a mítica mala da Hermès? Encontramo-los num espelho de parede desenhado por Thomas Boog. Com fechos de malas, o autor cobriu uma moldura cintilante. Mas Godefroy de Virieu também tem trabalho para apresentar em Lisboa. Nas mãos do designer, os retalhos de seda, outrora inutilizados, ganharam nova vida nas velas de um veleiro, mas também em colares leves. Estes últimos foram das primeiras peças desenhadas por Virieu para o Petit h. “Fui ter com o artesão especializado nos plissados dos lenços e perguntei-lhe se seria possível fazer uma plissagem a três dimensões”, relata. Embora o faça há décadas, a resposta foi surpreendente: “Nunca tentei, acho que não funciona”, retorquiu. “Há um intercâmbio entre artistas e artesãos e isso cria uma dinâmica construtiva dentro do atelier. Isso permite fazer coisas a que não estamos habituados, mas também coisas diferentes das que a casa Hermès está habituada a fazer”, esclarece Godefroy. O desfecho foi imprevisível. Virieu recorreu a um tubo de plástico, coseu a seda à volta e usou uma cesta a vapor (daquelas em que são cozinhados e servidos os dumplings) para plissar o tecido. Tudo isto, na própria cozinha.

O resultado está à vista e, como qualquer objeto saído deste laboratório criativo, tem uma função. “Não há objeto sem objetivo”, nas palavras de Pascale Mussard, recordadas por Virieu. O lado utilitário das peças é indispensável para o Petit h, por isso, do simples martelo ao mais aparatoso dos castiçais, a função está sempre lá.

À mesa com a Hermès

Joana Astolfi não se limitou a desenhar um complexo expositivo. Na sala seguinte, uma mesa de cortiça tem capacidade para mais de 20 pessoas. A Hermès quer que ponhamos as mãos na massa. Até ao fim do mês, a residência do Petit h inclui uma agenda de workshops, como aliás o amontoado de retalhos de peles e tecidos no centro da bancada de trabalho dá a entender. Isabelle Leloup, joalheira, é a orientadora de serviço e, tal como no Petit h, parece não haver limites à criatividade. À semelhança dos artistas e designers que entram no atelier de Pantin para trocar ideias e testar possibilidades em conjunto com os artesãos, também os alunos de Leloup podem usar tudo o que têm à mão.

A mesa está posta para o workshop, com todas as peles no centro

Há cola, tesouras, fio e alicate. As peles estão mesmo ali, muito provavelmente, partes do “esqueleto” de uma Birkin ou de uma Kelly que hoje já terá dono. Durante uma hora, o desafio é simples: cortar, colar e combinar ao sabor da imaginação. No final, pode levar o resultado para casa e manter a prova de que a arte pode mesmo ser feita a partir de sobras.

O quê? Petit h
Quando? De 6 a 29 de setembro, das 10h30 às 19h30
Onde? Loja Hermès, Largo do Chiado, 9 (Lisboa)
Quanto? A entrada é gratuita, bem como a participação nos workshops. Informações e inscrições através do número 21 324 2070

Artigo atualizado no dia 19 de setembro, às 10h15, com o prolongamento do evento até 29 de setembro.