Na mesma semana em que Frederico Varandas se demitiu da chefia do departamento clínico para assumir a vontade de liderar uma nova solução para o Sporting, também o médico Pedro Lopes da Mata se tornou notícia de uma forma “indiscreta”: na última participação no programa “Trio de Ataque” da RTP3, já depois de ter sido chamado por Bruno de Carvalho para ficar à frente do departamento de futebol dos leões, uma câmara apontada para o bloco de Augusto Inácio, antigo jogador e treinador verde e branco, apanhou de forma inadvertida o seu nome como possibilidade para assumir o cargo que tinha ficado vazio. “Nunca fui convidado nem nunca ninguém me falou da possibilidade de fazer parte da estrutura”, referiu depois, mas ficou a curiosidade.

Lopes da Mata e Varandas conhecem-se bem, depois do primeiro ter sido professor do segundo em duas cadeiras. Agora estão em listas diferentes nas eleições do clube, com o alergologista com especialização em Medicina Desportiva a surgir como coordenador do Sporting Performance, um dos pontos fulcrais do programa de João Benedito à presidência dos leões. “A excelência e as vitórias no desporto moderno já não se atingem somente com bons plantéis e boas infraestruturas e esta estrutura de apoio tornará possível que, através do uso da inteligência artificial ,se possa dar aos diversos departamentos do clube a informação mais importante sobre o seu maior ativo: o estado físico e de saúde de cada atleta”, explicou o candidato. Em entrevista ao Observador, concedida por email por uma questão de agenda, o médico explica não só as bases deste projeto mas também as principais influências que foi tendo no estudo desta área cada vez mais cara e explorada no desporto.

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Vai ser o coordenador pelo Sporting Performance em caso de vitória da lista de João Benedito nas eleições do Sporting. Inicialmente, como se pode definir esse projeto?
De forma resumida, para apresentar o Sporting Performance, devemos destacar quatro vetores fundamentais: a capacidade de perceber antecipadamente as capacidades físicas e mentais de cada um dos atletas e, consoante isso, trabalhar com foco as suas carências e o que pode ser melhorado; com base nesse diagnóstico global das capacidades, trabalhar diariamente com todo o staff médico e técnico, entre treinador, preparador físico etc., para se atingir o máximo das capacidades do atleta para a formação de talentos; ajudar, em conjunto com as indicações técnicas, a administração e os seus decisores sobre a gestão dos ativos; e montar aquilo que descrevemos como uma ‘fábrica de campeões’, que alimente o desempenho desportivo e os sucessos a nível de alta competição de uma forma mais sustentada.

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Na apresentação do Sporting Performance falou do exemplo do AC Milan, que é reconhecido até por ter jogadores com maior longevidade em termos desportivos. É essa a principal referência?
Há cerca de 25 anos descobri que o AC Milan tinha sido o primeiro a inovar no sentido de colocar a tecnologia e os novos métodos existentes ao serviço da medicina desportiva e do bem estar dos atletas. E esse interesse também aumentou por considerarem que ia ser uma revolução no desporto e que traria um maior rendimento do atleta, que está sempre em evolução. Um atleta mais saudável, mais preparado, com menos lesões e focado no desenvolvimento sistemático suas capacidades.

E foi aí que tudo começou, nesse projeto pioneiro do AC Milan?
Depois acabei por ir à procura da verdadeira origem e parece que tudo isto surge na NASA…

NASA, a NASA?
Sim. No rescaldo da Missão Apolo 13, o grupo de três cientistas que estava responsável pela avaliação dos erros e desvios ao longo dessa missão, que ia das rotas e parâmetros biológicos aos astronautas, foi absorvido por outras indústrias e setores da sociedade, mas houve um que utilizou a sua experiência para criar uma enorme base de dados dos indicadores do que se seria a normalidade de todos os sinais possíveis na população geral. Era um assunto novo que me foi suscitando enorme curiosidade, especialmente depois de saber que o AC Milan tinha contratado esse mesmo cientista pelo período equivalente a uma temporada, para a vertente em especial do controlo de atletas. Os resultados de então foram extraordinários…

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E começou a seguir esse fenómeno com maior atenção.
Tudo isso que se passou no AC Milan gerou ainda mais curiosidade e comecei a dedicar-me ao tema, como médico e cientista, a nível de pesquisa, numa perspetiva de aperfeiçoar metodologias, resultados e estratégias.

Alguma vez conheceu o tal cientista que os tinha ajudado?
Sim, pessoalmente, em 2003. Tentei aprender mais e perceber os princípios desta abordagem matriculando-me numa formação sobre a matéria. Fiquei com as ferramentas para desenvolver tudo aquilo que sei hoje e que quero colocar ao serviço do Sporting.

Como surge o convite do João Benedito para assumir essa coordenação do Sporting Performance?
Por um amigo comum que conhecia o meu percurso e também a minha experiência profissional. Conheci de forma direta o Milan Lab nos anos 90, tenho formação em Medicina Desportiva com especialidade que fiz na antiga Jugoslávia e estive por exemplo em Campeonatos do Mundo de Inverno. Ao mesmo tempo fui fazendo a minha especialidade em imunologia e alergologia, área em que tenho seguido atletas de alta competição pela confiança das principais instituições desportivas nacionais para seguir os situações clínicas dos seus atletas neste âmbito. Penso que esse amigo em comum deve ter acreditado que seria a pessoa certa.

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Que memórias guarda desses Campeonatos do Mundo de Inverno?
Foram em Sarajevo, em 1986. Foi uma experiência extraordinária onde tive, mais uma vez, o contacto com alta roda do desporto mundial, não só as metodologias de treino mas também a oportunidade de executar ao máximo nível parte dos princípios que fui adquirindo e aperfeiçoando como médico. É isso que quero agora colocar ao serviço do Sporting Performance.

E aceitou de imediato o convite da lista A?
Sim.

Porquê?
Primeiro porque me revi no projeto apresentado, na equipa e na liderança do João Benedito. Depois, porque senti não só um bom ambiente na equipa mas também uma grande conduta em termos éticos. Por fim porque para mim é uma honra pertencer a algo onde queremos implementar um projeto inovador no Sporting. Por tudo isto, era impossível dizer que não a este convite.

Qual é a importância do Sporting Performance no plano existente em termos desportivos e financeiros?
Só posso responder a isso como médico, não como CEO ou CFO. Repare numa coisa: é nos recursos humanos, técnicos, nos equipamentos e nos custos dos exames complementares que mais dinheiro se gasta. E qual é o retorno expectável? A melhoria do rendimento de cada um dos atletas, a diminuição do número de lesões, uma convalescença mais rápida, a identificação de forma mais precoce de um potencial talento aproveitando-o, até na rentabilização desta unidade para responder a pedidos vindos do exterior. Ao fim de algum tempo, podemos até ambicionar pensar no goodwill da marca Sporting Performance.

É também um investimento que permite rentabilizar custos potenciando receita?
Não tenho dúvidas. Ainda há dias, em conversa com a administração do Bayern de Munique, vi que o seu plantel é composto por 23 jogadores. Nem mais um, são 23. E não há emprestados. Tem uma equipa de 23 jogadores na equipa A e 23 na equipa B. E esse conjunto de atletas está preparado para a pressão e para a intensidade de uma época longa e muito dura.

Que balanço faz dessa viagem que fez a Munique com João Benedito, onde se encontrou com os dirigentes do Bayern? O que pode o Sporting retirar do Bayern além do seu modelo de gestão?
Foi incrível testemunhar o respeito, a admiração e a total disponibilidade que Karl-Heinz Rummenigge e toda a sua equipa revelaram pelo João Benedito e pelo projeto. Houve um reconhecimento do mérito do seu projeto e a concordância com o sucesso dos resultados, até porque foram 12 vezes campeões nos 17 anos em que estão na direção. Deu para perceber o rigor em termos de organização desportiva, a excelência das instalações que têm, ver também o respeito pela hierarquia e pelo exemplo dado por uma liderança composta por antigos campeões, uma identidade muito vincada numa região muito competitiva. Ficou também registado o potencial de sinergias entre os dois clubes para um entendimento estratégico e duradouro.

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Conhece também Frederico Varandas, de quem foi professor, e que é agora adversário de João Benedito. Que opinião tem dele?
O Frederico é meu colega, amigo e foi também de facto meu aluno, nas cadeiras de fisiopatologia e patologia respiratória. Não tenho dúvidas que o Frederico concordará que sou a pessoa certa para criar e liderar o Sporting Performance, até porque ele sempre me honrou com pedidos de opinião e decisão clínica para os seus doentes. Tudo o resto são fait divers que passam ao lado porque precisamos dos melhores em cada posição mas também de paz no clube.

Chegou a falar com ele depois dos ataques na Academia e quando anunciou que seria candidato?
Falei com o Frederico, desejei-lhe boa sorte e toda a força.

Quais são as diferenças entre o Sporting Performance e a Unidade de Performance de Frederico Varandas?
Parece-me claro que o único modelo de performance, tal como o entendemos, é o nosso porque aquele que foi apresentado pelo Frederico não considera várias questões e pontos que consideramos cruciais. Alguns exemplos: o conhecimento do perfil genético que nos dará os perfis das capacidades físicas, o perfil genético da resposta à medicação e eventuais interações medicamentosas e tratamentos; os meios para avaliar as personalidades de cada atleta; a intervenção no controlo emocional da alta competição; a estimulação cognitiva tanto do atleta como da família; a regeneração do atleta, tanto após treino como após competição porque mais importante que controlar o esforço é refazer a condição física que é essencial para se evitarem lesões; a definição e o controlo das cargas de treino adequadas a cada atleta; a otimização das capacidades físicas de cada atleta; a prevenção das lesões e a respetiva reabilitação à medida… Há detalhes cruciais que temos pensados e que vamos implementar. Um talento no desporto só o pode ser se o for também do pescoço para cima, é isso queremos fazer e é nisso que vamos apostar.

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O Cristiano Ronaldo é a principal referência nesse capítulo?
O Cristiano Ronaldo é um dos meus ídolos mas tenho mais alguns como Karl-Heinz Rummenigge, Franz Beckenbauer, Sócrates ou Falcão, o brasileiro, atletas que não foram e não são apenas atletas do pescoço para baixo mas também do pescoço para cima.

Concorda também que continua a existir uma certa resistência ainda do futebol aos avanços científicos e a nível de performance comparando com outros desportos?
Não tenha dúvidas sobre isso, existe de facto essa resistência por parte da classe médica, na qual me incluo, às formas de promoção da saúde modernas e inovadoras.