Nos primeiros 100 dias como primeiro-ministro, Pedro Sánchez conseguiu fazer subir as intenções de voto dos espanhóis no enfraquecido PSOE, apesar das dificuldades em aprovar medidas significativas e das dúvidas em relação ao futuro. Todos os analistas com quem a agência Lusa falou em Madrid salientaram que, depois da impressão inicial, muito positiva, que o novo executivo teve, é agora, com a “rentrée” depois das férias de verão, que vai começar a verdadeira prova de fogo.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) surpreendeu todos quando em 01 de junho último conseguiu, com apenas 84 deputados num total de 350, reunir a quase a totalidade da oposição na votação de uma moção de censura contra o Governo minoritário do Partido Popular (PP, direita) liderado por Mariano Rajoy, com 134 membros do parlamento.

Segundo o sistema eleitoral espanhol, as moções de censura são construtivas e a votação permitiu que o secretário-geral socialista saísse investido primeiro-ministro e prestasse juramento perante o rei, Felipe VI no dia seguinte, a 02 de junho. José María Peredo, professor catedrático de Comunicação e Política Internacional da Universidade Europeia de Madrid, classificou de “previsíveis e sem surpresas” os primeiros 100 dias de Pedro Sánchez, depois de o novo executivo ter nascido “débil por causa dos apoios”.

“O PSOE está consciente de que o efeito positivo de ter conseguido remover a direita do poder tem um prazo”, disse José María Peredo, estando convencido de que o próprio PP também está “com uma nova energia” com a mudança de “liderança, imagem e discurso”.

Várias sondagens indicam que o PSOE subiu nos últimos meses dos quase 20% de intenção de votos dos espanhóis para cerca de 30%, igualando e nalguns casos ultrapassando a votação esperada no PP. “Os socialistas recuperaram a liderança política, mas agora a evolução da economia e a situação na Catalunha vão ser decisivos para saber se conseguem terminar a legislatura em 2020”, resumiu José María Peredo.

Nos primeiros 100 dias foram tomadas medidas simbólicas ou já esperadas por todos, que contaram com pouca contestação. O novo Governo iniciou o diálogo com o executivo independentista da região da Catalunha, tomou medidas para liderar o debate europeu sobre a política de migração, decidiu exumar o cadáver do ditador Francisco Franco do Vale dos Caídos e estendeu os cuidados de saúde a comunidades até agora excluídas, como a dos imigrantes ilegais.

O diretor do mestrado de Comunicação Política e Corporativa da Universidade de Navarra, Carlos Barrera, defendeu que Sánchez, apesar das poucas medidas tomadas, “conseguiu dar visibilidade” à nova liderança socialista e “um palco” para apresentar as suas propostas, mesmo que não as possa aprovar agora.

O executivo de Pedro Sánchez caracterizou-se desde o início pelo seu cunho europeísta e técnico que lhe deu uma solidez importante, a par da surpresa que criou por ter uma maioria de mulheres, com 11 ministras num total de 17 titulares. “O PP era menos minoritário no parlamento e era apoiado por partidos ideologicamente mais homogéneos, enquanto o PSOE tem uma base de apoio muito diversa, que inclui nacionalistas e separatistas de direita”, considerou Carlos Barrera.

Para tomarem decisões, os socialistas dependem da margem de manobra que será dada pelo Unidos Podemos (extrema-esquerda, 67 deputados) e outros movimentos mais pequenos e de caráter regional, como os nacionalistas bascos e os separatistas catalães.

O politólogo Pablo Simón defendeu que “o tempo jogou a favor do novo executivo”, porque o parlamento esteve encerrado em agosto, e a partir de agora “é que as coisas vão ser a sério”. O desanuviamento da situação na Catalunha, nomeadamente com o julgamento dos políticos presos por envolvimento na tentativa de autodeterminação em 2017, e a aprovação do Orçamento Geral de Estado para 2019 são os grandes desafios que Pedro Sánchez vai tentar ultrapassar.

“Sánchez tem a seu favor as sondagens, mas a partir de agora é que vamos saber se consegue fazer as alianças necessárias a ser bem-sucedido”, afirmou Pablo Simón. Os socialistas terão nos próximos meses vários testes ao apoio que tem a sua governação e que podem ser cruciais para terminar a legislatura em 2020.

Antes do final do ano deverão realizar-se eleições na Comunidade Autónoma da Andaluzia, se se confirmar, como se espera, a rutura entre PSOE e Cidadãos (direita liberal) naquela que é a maior das regiões espanholas e onde os socialistas têm tradicionalmente um forte apoio eleitoral.

Por outro lado, daqui a menos de um ano, em maio de 2019, irão realizar-se eleições regionais, locais e europeias. O Governo de Pedro Sánchez tem feito “muito ruído e poucas nozes” (ditado popular espanhol), resumiu Javier Rivas, professor de Finanças na escola de negócios EAE de Madrid, referindo-se aos aspetos de política económica do executivo.

Javier Rivas considerou que a gestão do novo executivo, no que diz respeito à parte económica, tem sido “um pouco dececionante”, com vários recuos, depois de ter feito alguns anúncios, como o da criação de um novo imposto à banca. “Todos estamos à espera de saber se vai conseguir os apoios necessários à aprovação do Orçamento para 2019, que deverá incluir um aumento de impostos para as pessoas com maior rendimento”, disse o professor de Finanças.

Javier Rivas sublinha que se está num momento de mudanças, com um dos principais setores, o turismo, a desacelerar, assim como as previsões de crescimento económico para este ano e próximos: “Continuamos à espera”, concluiu.