Nos anos 70 e em parte dos anos 80, Burt Reynolds esteve sempre entre os 10 actores mais lucrativos dos EUA, e chegou a ser número um de popularidade em 1978. Reynolds, que morreu na quinta-feira, com 82 anos, não se contentava em ser uma presença carismática na tela e um símbolo sexual na vida real, admirado pelas mulheres e invejado pelos homens, com o seu físico de ex-jogador de futebol americano, o bigode “macho”, o bronzeado permanente, as namoradas loiras de fartos peitos e os carros de desporto descapotáveis . Queria ser levado a sério, e emular os dois actores que mais admirava, Marlon Brando e Cary Grant. Nunca conseguiu, porque não tinha o talento do primeiro nem a classe do segundo. Mas acabou por estar bem na sua pele, a do másculo Burt Reynolds.

[“Os Bons e os Maus”]

Era um actor limitado, mas natural, descontraído e “físico” na velha tradição de Hollywood, com um carisma viril e um sorriso empático. Tinha vocação para a comédia, sabia aprender com a experiência, gozar com a sua imagem e fazer papéis que a contrariassem. Passou de moda na década de 80, tal como passaram o “disco” e as cassetes áudio. Mas Burt Reynolds continuou activo: precisava do dinheiro (gastava muito porque vivia a vida em cheio, e teve um divórcio ruinoso de Loni Anderson) e gostava de trabalhar. Fez quilos de filmes desprezíveis, e a espaços foi a melhor coisa de filmes execráveis, como o político priápico de “Striptease” (1996) ou o bronco Boss Hogg da versão de cinema de “Os Três Duques” (2006). E ainda foi magnificamente melancólico em “Dog Years” (2017), num outrora célebre actor, hoje acabado, que vai receber um prémio a um obscuro festival de cinema.

[“Golpe Baixo”]

Reynolds era também modesto, por vezes demais. Disse numa entrevista que só se orgulhava “aí de uns cinco filmes” dos mais de cem que tinha feito. Mas será lembrado pelos cinéfilos por muitos mais. Recordemos “100 Armas ao Sol”, o “western” de fim de género de Tom Gries (1969); “Fim-de-Semana-Alucinante”, de John Boorman (1972), o seu filme favorito e onde capitaliza nas suas qualidades físicas; “Golpe Baixo”, a comédia prisional de Robert Aldrich (1974) para homens de barba dura, onde volta a jogar futebol; “A Cidade dos Anjos”, também de Aldrich (1975), excelente num polícia apaixonado por uma prostituta de luxo (Catherine Deneuve); comicíssimo em “O Vendedor de Sonhos”, de Peter Bogdanovich (1976), a fazer de canastrão temperamental do cinema mudo; ou em “Amar de Novo”, de Alan J. Pakula (1979), ao lado de Jill Clayburgh e Candice Bergen, num divorciado que não consegue esquecer a ex-mulher.

[“Fim-de-Semana Alucinante”]

[“A Cidade dos Anjos”]

E ainda: a comédia esfuziante “Uma Mulher dos Diabos” (1975), dirigido por Stanley Donen e ao lado de Liza Minnelli e Gene Hackman, numa história do tempo da Lei Seca; os espectacularmente esparvoaçados “Os Bons e os Maus” (1977) e “A Corrida Mais Louca do Mundo” (1981), ambos de Hal Needham ; o “filme de assalto” sofisticado “Ladrão por Excelência”, de Don Siegel (1980), em que se mede com David Niven; “Cidade Ardente”, de Richard Benjamin (1984), uma fita de “gangsters” dos anos 30, ao lado de Clint Eastwood; ou “Ladrão e Meio”, de Bill Forsyth (1989), num ladrão veterano que treina um aprendiz sem a menor vocação para a actividade; e claro,“Jogos de Prazer”, de Paul Thomas Anderson (1997), como Jack Horner, o realizador de pornos e figura paternal da comunidade do cinema “X”, papel pelo qual a Academia lhe ficou a dever o Óscar de Melhor Actor Secundário.   

[“Cidade Ardente”]

[“Jogos de Prazer”]

Burt Reynolds também realizou um punhado de filmes, e pelo menos três são dignos de nota. “O Fim” (1978), uma comédia negra onde contracena com o seu amigo e parceiro Dom DeLuise, interpretando um homem com pouco mais de um ano de vida, que não consegue suicidar-se e contrata um assassino psicopata para o matar, mas este falha sempre; “Brigada Anti-Crime” (1981), que é, nas calmas, um dos melhores policiais de acção da década de 80, juntando no elenco, além de Reynolds, Vittorio Gassman, Brian Keith, Charles Durning e Rachel Ward; e o movimentado e engraçadíssimo “Stick, o Rebelde” (1985), adaptado por Elmore Leonard do seu livro, e em que mostra como fazer malabarismo com acção e comédia.

[“O Fim”]

[“Brigada Anti-Crime]

Não esqueçamos a televisão. Reynolds assinou vários episódios da sua série “Jogar em Casa” (1990-1994), na qual personifica Wood Newton, um jogador de futebol americano que se reforma e vai viver com a família na cidadezinha em que nasceu, e treinar a equipa do liceu local. A sua interpretação de Newton, completamente descontraída e cheia de subtileza cómica, revelando um actor seguro de si mesmo e que domina a técnica, sem precisar de a exibir ou de se pôr à frente dos colegas com que contracena, deu-lhe um Globo de Ouro de Melhor Actor numa Série de Televisão de Comédia ou Musical.

[“Jogar em Casa”]

Por gosto, por necessidade ou por uma mistura de ambos, Burt Reynolds ficou em cena mesmo até ao fim. Sem alarido, sem auto-piedade e com humildade. Como escreveu um crítico americano sobre ele, “a simples capacidade de resistência também é uma virtude masculina”. E Reynolds mostrou que, apesar dos inevitáveis estragos causados pelo passar do tempo, pela idade e pela doença, tinha-a às carradas. Como ele próprio declarou ao saber que tinha sido indicado para o Óscar de Melhor Actor Secundário em “Jogos de Prazer”: “O facto de ter sido nomeado este ano não significa que este seja o meu regresso, porque simplesmente sempre me recusei a ir embora.”

[“Dog Years”]