Imaginemos um daqueles jogos de pergunta-resposta. Surge a pergunta “cantor ou cantora do Canadá?”. É provável que a primeira resposta seja Leonard Cohen, é quase inevitável e percebe-se porquê. Mas se não vier em primeiro, o nome de Leslie Feist surgirá de certeza em segundo lugar. A voz, a composição, o estilo e a interpretação são únicos e inconfundíveis e Feist tornou-se numa genial autora de canções rock-pop-folk-etc que junta a tradição da América do Norte à emoção indie de escrever e cantar tudo o que há de mais íntimo. Foi isso que voltou a fazer em Pleasure, o álbum de 2017, e é isso que que traz a Braga (este sábado, no Theatro Circo) e a Lisboa (domingo, Coliseu dos Recreios). Antes dos concertos, conseguimos alguns minutos com Feist ao telefone. Pouco tempo mas ótimo tempo. Ela atendeu e nós continuámos:

Olá

Olá. Leslie?
Sim. Quem fala?

Sou jornalista, estou a ligar de Portugal, acho que estava à espera desta chamada…
Claro, claro que sim. Estás bem?

Tudo bem. E por aí?
Tudo ótimo. Estou quase a chegar à Europa para alguns concertos. Desculpa se parecer que estou aqui a falar a correr mas estou a tratar de umas quantas coisas ao mesmo tempo.

Sem problema. Por falar em concertos, este ano são menos, não são?
Bom, este último disco saiu em Abril de 2017 e eu andei em digressão o ano quase todo. E a verdade é que com este álbum decidi tocar menos, dar menos concertos. Eu sei, as pessoas fazem contas e dizem que eu gravo um disco novo de sete em sete anos e acham que se calhar não trabalho muito. Mas o normal é andar na estrada durante uns dois ou três anos e depois tiro um momento para respirar. Depois escrevo e depois faço um álbum novo. Mas as tours é que fazem estes intervalos tão grandes. Desta vez decidi tocar durante um ano, mais coisa menos coisa, depois parar e escrever e tentar viver tudo isto de uma forma mais equilibrada, tentar encontrar aquele balanço difícil entre o tempo que passo na estrada e o tempo que passo em casa. Na verdade, esta passagem por Portugal é uma viagem especial. No ano passado não conseguimos arranjar maneira de tocar aí. E gosto tanto de tocar em Portugal… Lembro-me de começar aí em sítios pequenos, coisas modestas, coisas com 50 pessoas. Agora de repente chegar ao Coliseu… é como se eu e as pessoas de Portugal… fizemos tudo isto juntos, percebes.

Claro que fizemos. Mas essa não é a frase que os jornalistas de outros países ouvem, pois não?
Não. Juro. É a verdade. Porque nos outros sítios é diferente, o ambiente é diferente, em Portugal é tudo muito mais punk rock, há muita energia, concertos pequenos que vão crescendo. Vou confessar-te uma coisa…

Vamos a isso.
Só vou tocar em França, Bélgica e Inglaterra como desculpa para tocar em Portugal. Não quero deixar as pessoas com muitas expectativas, mas é mesmo uma alegria muito especial.

Isso de moderar as expectativas já não vale muito a pena, depois de um disco como o que lançou no ano passado. As expectativas estão todas lá.
Ah, és demasiado simpático. Estás a fazer um bom trabalho.

Vou aproveitar e escrever isso. Mas é verdade, é um disco raro.
Obrigado. É óbvio que gosto muito de ouvir esse tipo de coisas. Ainda por cima em relação a um disco que resultou de um tempo e de acontecimentos complicados na minha vida. E fazer este disco ajudou-me. Bom, na verdade, esse é o único motivo que me leva a escrever canções.

O único? Porquê?
Escrevo canções desde que tenho 15, 16 anos. E isso transformou-se na lente através da qual vejo o mundo. Hoje, se canto canções que escrevi há 15, 20 anos e recordo a perspetiva que tinha na altura… Aprendo com tudo isso, aprendo muito. Canto isso tudo e aprendo muito, ainda hoje. E isso influencia a forma como escrevo. Gosto da ideia de, daqui a muitos anos, ouvir o que escrevi muito tempo antes e ter a certeza que estava perto da verdade. Mesmo que muito devagar. Até porque, ao contrário do que muitos pensam, a idade às vezes não chega para estarmos perfeitamente esclarecidos seja do que for.

Essa pode ser uma má notícia para muitos leitores desta entrevista.
Tenho pena e peço desculpa.

Mas isso de fazer canções por essas razões… isso torna os discos coisas demasiado reveladoras, não?
Eu ponho a minha vida dos discos e nos palcos, é um aspeto bizarro do meu trabalho, isto de partilhar todas estas coisas. Eu ponho tudo nas canções, mas o que me deixa descansada é que ninguém conhece os detalhes. Eu estou tão perdida como todas as outras pessoas, mas estou nesta posição em que as pessoas comunicam comigo por causa das canções. E isto que eu faço não é um trabalho, é uma maldição boa.

A verdade é que eu dei o nome de Pleasure ao disco porque estava sobretudo a sentir dor. Escrever aquelas canções foi escrever sobre coisas difíceis. O existencialismo foi muito profundo e estava completamente naquela fase em que não tinha qualquer tipo de resposta. Foi quase uma experiência científica dar este título ao álbum. Queria mesmo ver se era possível passar para o otimismo. Até na mais complicada das situações nós podemos escolher enfrentá-la pensando “quanta sorte tenho eu de estar a viver isto, uma coisa tão rica, mesmo que seja muito dolorosa”. Dito isto, e já falei de mais, devo esclarecer que não tenho respostas nenhumas para nada.

É uma pessoa normal, como todas as outras, apenas com uma diferença: uma voz melhor. É isso? Mas nas canções, dá a ideia que é mais iluminada que os comuns mortais. Mais lúcida. Muitos podem ouvir estas canções à espera de alguma resposta.
As pessoas fazem o que eu faço. Eu transformo as pessoas que ouço numa espécie de deus, vejo nelas pessoas que descobriram uma resposta. E agarramo-nos a essas pessoas como se fossem salva-vidas. “O Nick Cave sabe. O Nick Cave é que sabe, ele sabe alguma coisa que eu não sei e vou aprender com ele”. É assim que eu penso. Mas o que é bonito é quando esse salva-vidas na verdade é um espelho, quando essa pessoa está tão perdida como tu estás. Sabes quando vais almoçar com um amigo e te queixas durante umas horas? E o teu amigo diz “tens razão, pois é, isso é terrível”. Porque é isso que fazem os amigos, tentam fazer com que te sintas melhor ao mostrar que estão do teu lado. Mas quando acaba aquele almoço e te vais embora, não te sentes melhor. E se te sentes melhor vai ser sempre uma coisa muito temporária. Mas bom, isto é tudo uma questão de disparar e acertar às vezes, outras falhar. Há manhãs em que não percebo como é que faço isto para ganhar a vida, parece que não tenho o direito de estar nesta posição. Noutros dias sinto que é a maior das sortes.

Estava dizer que escrevia canções para a ajudar a ultrapassar dificuldades e dúvidas. E se por alguma razão chegar a um ponto da vida em que descobre que está tudo bem, tudo perfeito?
E achas mesmo que isso vai acontecer?

Suponhamos que sim?
Por acaso, já falei sobre essa possibilidade com amigos meus. Estou sempre a pensar em fazer outra coisa. E se algo se revelasse tão belo e tão inescapável que eu tenho de mudar de vida. Ia ficar muito feliz e era capaz de ir por aí, mas tenho a certeza que ao final do dia ia acabar sempre por escrever canções ou qualquer outra coisa. É o que eu sou, é o que faço. Mas, lá está, se viveres nas Caraíbas, com aquele mar e aquilo tudo, ao fim de uma semana podes parar e pensar “estou farto, quero ver uma floresta”, ou então “preciso de alguma neve”.

Mas isso não é lá muito otimista…
Sim… mas se conseguires encontrar algum conforto nisso, se conseguires dar a volta à coisa com algum sentido de humor… E nós já somos tão privilegiados, vivemos em sítios incríveis, Canadá, Portugal… Por falar nisso, o Mocky [músico canadiano, que co-escreveu os álbuns The Reminder e Metals com Feist] mudou-se para Portugal. Tenho tanta inveja. Também quero fazer isso.

É uma boa ideia.
Já pensei nisso. Mas português é uma língua difícil.

Sem problema. Toda a gente fala inglês por aqui.
Então talvez pondere. E olha, isto até correu bem.