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O futebol tem destas coisas. Este texto tinha tudo para ser sobre Raphinha e sobre a forma como o extremo galgou a ala direita, ainda deu uma perninha na ala esquerda e se estreou a marcar com a camisola do Sporting, 226 minutos depois — desatando o nó de um primeiro tempo lento e morno, jogado devagar, devagarinho, (quase) parado. Chegámos a pensar, nesse primeiro tempo, como teria Bruno Fernandes chegado àquela versão pálida de si mesmo, muito longe da que tinha habituado os adeptos portugueses desde que trocou a Sampdoria pelo Sporting.

Mas depois aconteceu o futebol. O capitão leonino foi aparecendo tímido mas determinante — oferecendo o passe para golo a Raphinha, aos 26 minutos, que viria a dar o 1-0 para os verde e brancos. Era ainda pouco para o que o camisola 8 podia fazer mas, devagarinho, em crescendo e sem estrondo, o médio foi abrindo o livro. Primeiro, converteu o penálti cavado por Jovane Cabral — o que, apesar da execução perfeita, ainda não era suficiente para arregalar o olho ao adepto, mas sempre traduzia em números a vitória leonina. Depois, aí sim com outra classe, tirou dois adversários do caminho, puxou para a direita e “fuzilou” Charles. Nos festejos, o capitão tapou os ouvidos — a forma de celebração que fez nascer esta época. Mas para quem via o jogo, era impossível fechar os sentidos à exibição do camisola 8.

Ao apontar o 3-1 — Correa tinha entretanto reduzido para o Marítimo –, Bruno Fernandes bisou pela quinta vez na carreira, a quarta ao serviço do Sporting. A primeira aconteceu a 19 de agosto do ano passado. O médio tinha acabado de chegar ao emblema leonino e tinha passado os três jogos anteriores (frente a Aves, V. Setúbal e Steaua de Bucareste) no banco. Mas à quarta foi de vez e, diante do V. Guimarães, no D. Afonso Henriques, o médio marcou dois golaços, deixando a sua marca nos pontapés de longa distância.

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A exibição valeu-lhe a titularidade que nunca mais o abandonou. E assim seguiu até 22 de fevereiro de 2018. O jogo em Alvalade diante do Astana era uma mera formalidade, depois da vitória por 3-1 no Cazaquistão, mas o Sporting carimbou a passagem aos oitavos de final da Liga Europa com um ‘bis’ de Bruno Fernandes. Primeiro, num pontapé de levantar o estádio e, em seguida, numa tabela com Bas Dost que terminou com um remate cruzado, mesmo ao cantinho, saído da bota do português.

O último ‘bis’ até este domingo aconteceu já a polémica tinha rebentado em Alvalade com a exibição diante do Atlético de Madrid muito criticada por Bruno de Carvalho. Já nessa época o médio tapou os ouvidos ao ruído externo e embalou para uma exibição de encher o olho — em que abriu o marcador num remate picado por cima do guardião algarvio e encerrou com (mais) um golaço, desta feita à meia-volta, direitinho para o fundo das redes. Cinco meses depois, o camisola 8 voltou a ser decisivo e a mostrar que, quando consegue mostrar as suas capacidades, não há quem tape os ouvidos ao estrondo do seu futebol.