Há cerca de 150 anos, a ganga, algodão tingido com índigo, não era mais do que um material resistente, especialmente útil para vestir mineiros, trabalhadores dos caminhos de ferro e outras profissões de alto esforço físico. Quem é que poderia adivinhar que, na segunda metade do século XX, esta matéria rude ia conquistar um lugar cativo no guarda-roupa? Foi precisamente isso que aconteceu — de James Dean, na década de 50, altura em que as calças de ganga se tornaram uma referência de estilo (e também de estilo de vida), ao fenómeno Calvin Klein, já nos anos 90, quando ter um par de jeans passou a ser tão essencial como usar roupa interior.

Hoje, continuamos a não viver sem elas. Há muito que deixou de ser um parente pobre da indústria têxtil para se tornar num negócio de milhares de milhões. Mas a relação que mantemos com as nossas calças de ganga é paradoxal — queremos que estejam a estrear, mas que venham com vestígios da passagem do tempo, ou seja, novas mas com aspeto de usadas. Para os fabricantes, não basta cortar e coser. A lavagem é uma parte importante do processo e também o mais poluente. Em países como a China, a Índia e o Bangladesh, onde as fábricas se concentram, a contaminação dos cursos de água com os químicos resultantes da lavagem da ganga atinge níveis surpreendentes.

Numa fábrica japonesa, as calças de ganga são postas numa centrifugadora com água e lixívia © Photo by Chris McGrath/Getty Images

Recentemente, uma equipa da Greenpeace analisou a qualidade da água e de sedimentos junto a descargas de fábricas na província chinesa de Xintang, onde são feitos 300 milhões de pares de jeans por ano. Em 21 amostras recolhidas, 17 continham vestígios de cinco metais pesados: cádmio, crómio, mercúrio, chumbo e cobre. Na China, a mesma equipa também já encontrou manganês, metal que pode estar associado a danos no cérebro. No país, a legislação existe, falha o controlo e a monitorização das descargas.

Os dados impressionam, mas não são novidade. Afinal, estamos a falar da indústria têxtil (que está entre as dez mais poluentes do mundo e conectada com muitas outras, como é o caso da industria energética, da petrolífera e dos plásticos e da agropecuária), da qual a produção da ganga é apenas uma face especialmente perversa. Estima-se que 70% dos rios e lagos asiáticos estejam contaminados com 2500 milhões de galões de água libertados pela indústria têxtil, o equivalente a quase 9,5 milhões de metros cúbicos. Segundo o documentário RiverBlue: Can Fashion Save the Planet?, de 2016, uma grande multinacional do ramo chega a precisar de cerca de 106 mil milhões de metros cúbicos de água para produzir roupa.

Além da poluição dos cursos de água com produtos químicos, metais pesados e pigmentos, o próprio desperdício de água é outro dos problemas da indústria, o primeiro a ser pensado por Kevin Youn, criador do método Wiser Wash. Kevin é um dos rostos de uma nova geração preocupada em encontrar alternativas aos processos convencionais de produzir e lavar a ganga. A quantidade de água necessária para produzir e finalizar um par de calças de ganga pode chegar aos 300 litros. Youn conseguiu reduzir essa quantidade para um único copo e ainda reutilizá-lo, através de um processo de filtragem antecedido por eletrocoagulação. Por todo o mundo, outros projetos têm sido desenvolvidos, sempre com o propósito de atenuar os efeitos da indústria no meio ambiente e na saúde pública, entre eles a utilização dos laser.

Ao mesmo tempo que patenteou o método, foi também apostando no desenvolvimento da sua própria marca, a Tortoise Denim. No ano passado, a “nova” forma de produzir calças de ganga em Los Angeles chegou à Europa e atraiu as atenções da Pepe Jeans. Em março deste ano, a marca apresentou o programa Tru-Blu, um compromisso com uma produção ética e sustentável de peças em ganga, marcada pela colaboração com três projetos internacionais. O Wiser Wash é um deles e as primeiras peças já chegaram às lojas. De passagem por Lisboa, Kevin Youn falou com o Observador. Reconhece que o setor tem um longo caminho a percorrer até se tornar plenamente sustentável, sobretudo na Ásia, mas encara o futuro da indústria da moda com otimismo.

Criou um projeto que mudou a forma como a ganga é produzida. Antes do Wiser Wash, já trabalhava neste ramo?
Sim. Há 25 anos que lido com ganga, comecei assim que saí da universidade. Tive a oportunidade de trabalhar para a AG Jeans, da Koos Manufacturing, que acredito ser uma das melhores e mais inovadoras fábricas de ganga em Los Angeles. Foi lá que descobri os encantos do índigo. Ainda assim, ao mesmo tempo que aprendi imenso sobre a forma como a ganga é trabalhada, também percebi que a produção de jeans envolve uma série de químicos prejudiciais, bem como o desperdício de toneladas de água e de energia.

Foi quando percebeu a urgência de mudar isso?
A ganga é uma das indústrias mais poluentes no setor da moda, em primeiro lugar, por causa do processo de lavagem. A poluição gerada na água coloca sérias ameaças aos ecossistemas, mas também à saúde humana. Apesar do impacto ecológico, a ganga continua a ser um subsetor em crescimento. E, enquanto as pessoas continuarem a procurar peças com acabamento vintage, os especialistas vão desenvolver métodos que lhes permitam recriar esse aspeto gasto da ganga. A beleza da ganga ficou dependente do processo de lavagem, é com ele que a personalidade e a complexidade do material se revelam. Enquanto as outras peças podem ser feitas em várias cores e materiais, a indústria da ganga não consegue. E é precisamente esta limitação que torna a indústria da ganga tão criativa e engenhosa. Assim que percebemos que era a lavagem que dava vida à ganga, soubemos que não podíamos abdicar dela. Não abdicamos, mas podemos criar uma solução para responder a essa necessidade. Além disso, não podemos manter a nossa qualidade de vida enquanto seres humanos nem esperar que a natureza prospere sem que haja uma mudança. Há anos que a produção de ganga faz estragos e os sinais estão em todo o lado. A escassez e a poluição da água são reais, é um recurso limitado.

Kevin Youn, criador do Wiser Wash, agora parceiro do programa Tru-Blu da Pepe Jeans © Divulgação

Acha que parte dessa mudança também passa por dizer às pessoas, aos consumidores, o que está a acontecer?
Sim. É importante dar às pessoas o conhecimento necessário para que possam tomar uma decisão mais informada. Quanto mais tivermos consciência dos efeitos que o nosso comportamento tem no ambiente, mais nos sentiremos responsáveis pelas nossas decisões. Até as pessoas com um entendimento muito limitado de como as nossas atividades diárias afetam o ambiente podem começar a dar pequenos passos em frente e a iniciar pequenas mudanças. É a sustentabilidade do planeta que está em jogo e, no final, são as ações dos consumidores vão afetar as decisões das empresas.

Wiser Wash: os números da poupança

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Duração do processo: 63%
Número de procedimentos com água: 75%
Uso de químicos corrosivos: 100%
Utilização de pedra-pomes: 100%
Consumo de energia: 66%
Consumo de água: 94&

www.tortoisedenim.com

Métodos como o Wiser Wash estão a surgir em todo o mundo. O que é que torna este especial?
Com cada vez mais empresas a perceberem a importância da sustentabilidade, há vários desenvolvimentos a acontecer em diferentes áreas da indústria do vestuário. A maioria está ligada às matérias-primas utilizadas, como o uso de plástico reciclado, por exemplo. No que toca à lavagem da ganga, acredito que o Wiser Wash está na linha da frente desta revolução. Fomos pioneiros. As pessoas pensavam que não era possível, foi preciso estudar e aprender muito. Há cerca de cinco anos, criámos a Tortoise Denim. Queríamos, em primeiro lugar, provar que o método funcionava. Durante anos, a marca mostrou que era possível criar peças de ganga bonitas, de uma maneira ética, orgânica e transparente, sem penalizar, mais uma vez, os recursos naturais do planeta.

Como funciona ao certo? É muito diferente do método convencional? Sai mais caro?
Para criar aquele aspeto vintage que os consumidores querem na ganga, a maioria das lavandarias usa técnicas de lavagem que incluem pedra-pomes, lixívia, permanganato de potássio ou lacases [enzimas que contêm cobre] para obter cores e estilos diferentes. Devido ao pigmento do índigo e ao acabamento do tecido, esses métodos de lavagem exigem, frequentemente, que se use muita água enquanto se aplicam os químicos e a pedra. Infelizmente, quase toda a água usada nesse processo é devolvida à natureza, poluída com o pigmento do índigo, lamas provenientes da pedra-pomes e produtos químicos nocivos. Entretanto, houve quem começasse a usar ozono, que se torna um agente oxidante quando em contacto com a água. Ele era capaz de oxidar o índigo e muitos outros corantes, mas as peças acabavam sempre por ter um aspeto meio cinzento e os consumidores começaram a associar os métodos ecológicos a peças de roupa sem graça.

A pedra-pomes continua a ser o método mais utilizado na lavagem da ganga © Photo by Chris McGrath/Getty Images

Nós fomos capazes de descobrir um substituto sustentável para a lavagem à base de pedra. Eliminar a pedra-pomes é fundamental quando falamos de impacto ambiental — a extração do material, o seu processamento, o transporte e a sujidade que resulta do seu uso. Nós usamos um catalisador, um material local, que nos permite reutilizar o que anteriormente era considerado um resíduo têxtil. Este material pode ser usado repetidamente, o que gera menos desperdício. Além disso, para substituir o uso de pedra-pomes, de permanganato de potássio e de lixívia, só precisamos de usar uma caneca de água em todo o processo de descoloração. De certa forma, o Wiser Wash é como ter um veículo elétrico que percorre 1000 quilómetros com pouca bateria ao lado de um veículo velho, a gasóleo, que polui imenso e precisa de muito tempo e energia para começar a andar.

Em termos de custo para o consumidor, as peças feitas ao abrigo do programa Tru-Blu não serão mais caras em relação aos preços praticados atualmente pela Pepe Jeans. A marca tem noção de que o preço é um fator muito importante para os consumidores e quer encorajar a compra de peças mais sustentáveis.

Mas, entretanto, a pedra-pomes continua a ser usada na indústria, certo?
A pedra-pomes continua a ser o principal método, em vários locais do mundo. A maioria dos profissionais já estão habituados a trabalhar dessa forma e essa poderá ser uma das razões pelas quais as fábricas mantêm o método. Até porque abraçar essa nova maneira de lavar a ganga requer um grande compromisso, é um caminho longo, mas vai sempre beneficiar os trabalhadores e o ambiente. Aos poucos, vejo cada vez mais trabalhadores interessados em adotar métodos de lavagem mais sustentáveis.

Está algo a ser feito para que haja legislação a este respeito?
Tem havido muitas iniciativas em todo o mundo para promover legislação, não apenas para a conservação da água e para o uso de produtos nocivos, mas para a sustentabilidade ambiental no geral. Tornou-se uma questão importante nas agendas ambientais dos países e governos. Até a China tem mudado significativamente ao fortalecer a suas leis ambientais. A verdade é que não podemos continuar a negligenciar os efeitos nocivos que a poluição está a causar no ambiente.

As primeiras peças do programa Tru-Blu já chegaram às lojas. Os preços variam entre 85€ e 160€ © Divulgação

Durante os últimos anos, teve de se tornar também num homem de negócios. Investir muito dinheiro no Wiser Wash?
Devo dizer que ‘muito dinheiro’ pode ser bastante subjetivo. Ainda assim, no meu contexto, a quantidade de dinheiro e tempo investida é a maior que já alguma vez gastei, mas foi necessário para entender o processo e ser capaz de produzir usando este método. Acredito que todo este trabalho e investimento ajudou a garantir a patente, do Wiser Wash e da Tortoise Denim. Foi muito importante para nós tê-las, já que ambas são provas sólidas de que esta tecnologia é única e de que é possível aplicá-la ao mercado. Estamos confiantes de que podemos produzir, tal como produzimos cerca de 200.000 calças de ganga para a Pepe Jeans.

Mais do que criar novas formas, e mais sustentáveis, de fazer moda, acha que as pessoas também deviam abrandar e começar a comprar menos?
Concordo com isso até certo ponto. Não posso afirmar convictamente que as pessoas deviam parar de comprar roupa porque o consumo, a produção e o crescimento económico estão ligados. Mesmo em cenários extremamente controlados, uma falha no consumo também pode significar um abrandamento da economia. É por isso que o foco deve estar em perceber quais os produtos ou serviços em que se vai gastar dinheiro. Acredito que não é uma questão de comprar só por si, mas sim daquilo que o consumidor decide consumir. Mesmo que não se promova isso, os consumidores podem sempre abrandar se os rendimentos não forem suficientes. E note-se também que os rendimentos vêm das compras de outros consumidores. É um ciclo e acredito que a mudança está naquilo que os consumidores, eventualmente, vão preferir e espero que façam escolhas inteligentes, que escolham produtos com um menor impacto ambiental.

Como é que a indústria pode lidar com isso?
Nesse caso, é uma questão de ver quem é que faz o produto que acrescenta mais valor ao consumidor. Acredito que as pessoas vão continuar a comprar enquanto os fabricantes forem capazes de antecipar corretamente as suas preferências.