O blog Mercado de Benfica, associado ao hacker Rui Pinto, voltou a divulgar esta quarta-feira novas mensagens trocadas entre o assessor jurídico do Benfica, Paulo Gonçalves, e Nuno Cabral, que foi delegado da Liga. Tal como noticiado pelo Correio da Manhã, que esta quinta-feira também revela o conteúdo de algumas dessas conversas feitas em 2013 e 2014, as mensagens indiciam que o ex-delegado da Liga colaborava com o clube encarnado e acompanhava as equipas de arbitragem. Além disso, surgem expressões que parecem ser usadas como código para determinado tipo de práticas ou pessoas.

Nos e-mails, o sexo com prostitutas recorre a expressões diferentes da popular designação ‘fruta’, nome associado a uma anterior investigação e processo envolvendo o FC Porto. Neste caso, as acompanhantes cobravam 200 euros por cada cliente. Encontram-se ainda vários pedidos para ‘discoteca’ e ‘camisolas’, fotos de mulheres com nomes, preços e indicações de contacto enviados por Nuno Cabral. A certa altura, o ex-delegado terá mesmo pedido um “aumento mensal de mil euros” pelos serviços prestados aos benfiquistas.

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Num e-mail específico enviado por Nuno Cabral, o ex-delegado envia uma fotografia de duas mulheres e escreve: “Brasileira e amiga. 200€ o tempo que quiseres…se for a três é 400€”. Noutra mensagem, esta enviada diretamente a Luís Filipe Vieira e com data de março de 2013, é pedido que “aos homens de sábado seja entregue alguma lembrança do SLB bem como ao observador, Carlos Matos, de Lisboa” e é feita ainda uma ressalva. “Peço ainda que à parte e num ’embrulho’ cuidadoso, seja entregue ao 4.º árbitro, Carlos Reis, sem que os outros vejam, uma camisola e um livro, com uma dedicatória sua, dedicada ao pai dele”, lê-se no e-mail.

Mário Figueiredo, antigo presidente da Liga de Clubes, também surge nos emails agora revelados. Em abril de 2014, Mário Figueiredo revelou a Luís Filipe Vieira toda a sua preocupação com uma eventual candidatura de Rui Pedro Soares, presidente da SAD do Belenenses, e como esta seria “um desastre para as pretensões do Benfica”. 

Caro Luís Filipe Vieira, segue em anexo o programa de candidatura do Rui Pedro Soares à presidência da Liga em entrevista ao Record de 1.11.2013 onde assume – entre outras coisas – que é a favor do ‘robustecimento financeiro’ da PPTV e que ‘o Belenenses vai pronunciar-se na Autoridade da Concorrência’ a dizer que considera ‘positiva a operação (de concentração da PT, da ZON e da PPTV na Sport TV)’ e que é favorável à sua aprovação. Isto é um desastre para as pretensões do Benfica. É uma ode à Olivedesportos e ao robustecimento financeiro desta empresa que como sabemos somente entre 2006 e 2012 ficou com 172 milhões de euros de resultados líquidos antes dos impostos (que podiam/deviam ter ido parar aos clubes)…”, disse Mário Figueiredo ao presidente do clube da Luz.

Num outro e-mail, este de janeiro de 2013, uma conta de correio eletrónico que dá pelo nome de “benficanorte” enviou a Luís Filipe Vieira várias indicações sobre o delegado do jogo Benfica B-Feirense – referindo até que o árbitro assistente seria o mesmo que já teria beneficiado os encarnados anteriormente. “Sei que o árbitro para o jogo Benfica B-Feirense é o Jorge Ferreira de Fafe e que um dos assistentes é o João Nuno, o tal que no Moreirense para a Taça da Liga indicou a grande penalidade sobre o Cardozo aos 92 minutos que deu o empate. Peço que ao serem recebidos sejam entregues ao delegado de jogo cinco sacos com lembranças (1 galhardete + uma camisola) para os dois assistentes, 4.º árbitro, motorista e o árbitro”, pode ler-se no e-mail enviado ao presidente do Benfica.

As conversas, sempre encriptadas, nunca identificam os destinatários dos bilhetes ou outro tipo de alegadas ofertas que poderiam representar crime de corrupção: como forma de proteção, apenas se usavam iniciais ou então Nuno Cabral referia apenas que eram pedidos para ele próprio, o irmão ou a irmã. Os e-mails dão ainda conta de vários encontros que terão ocorrido num hotel de cinco estrelas localizado junto ao Estádio da Luz e de quartos reservados para noites a seguir aos jogos pagos pelo Benfica. Essas reservas seriam então feitas em nome do próprio Paulo Gonçalves.

Há ainda uma troca de mensagens que parece implicar o presidente do Benfica na oferta de bilhetes para jogos do clube. N0ma troca de mails com Paulo Gonçalves, a 8 de janeiro de 2014, sobre uma oferta de bilhetes para um jogo com o FC Porto, Luís Filipe Vieira deixa claro que esse assunto só pode ser tratado com ele e não com outro funcionário. “Tenho em meu poder os bilhetes possíveis para oferecer”, terá respondido o dirigente a Paulo Gonçalves, que precisaria de 11 convites para essa partida. Em causa estava um jogo em casa frente ao FC Porto. Luís Filipe Vieira já negou ter conhecimento dessas ofertas.

Noutro conjunto de e-mails revelado esta quinta-feira pelo jornal Record é exposto o apoio do Benfica às claques do clube, algo que o emblema da Luz sempre negou. Num email enviado a Nuno Gago, que hoje é oficial de ligação dos adeptos do Benfica, são pedidos 166 bilhetes para o Benfica-Olhanense de 20 de abril de 2014, domingo de Páscoa, data em que os vermelhos e brancos se tornaram campeões nacionais da temporada 2013/14.

“A entrega é feita por mim em dia de jogo. Vou proporcionar que os meus rapazes do Norte venham em força. Queria saber se havia alguma forma de entrar no meu setor amanhã, durante o dia, para esconder parte da ‘festa’!”, referindo-se provavelmente a material pirotécnico presente nas bancadas. Num outro email, enviado dias antes, o Benfica responsabiliza-se por quaisquer danos que aconteçam durante a deslocação dos adeptos até Aveiro, para um jogo com o Beira-Mar: “A SAD declara assumir a responsabilidade por eventuais danos que venham a verificar-se por atos de vandalismo nos autocarros da empresa Isidoro Duarte”.

Paulo Gonçalves assistiu ao Benfica-Bayern Munique desta quarta-feira na tribuna presidencial do Estádio da Luz – ainda que o Benfica tenha anunciado esta segunda-feira que o assessor jurídico cessou funções no clube encarnado. O advogado, que está acusado de 79 crimes no âmbito do processo e-toupeira, sentou-se ao lado de João Gabriel, ex-diretor de comunicação do Benfica, que por sua vez tinha ao lado Luís Bernardo, o atual responsável por esse departamento. Apenas três filas à frente estava Luís Filipe Vieira.