Pouco depois do 25 de Abril, foi publicado em Portugal um livro de anedotas anticomunistas (quase todas passadas na União Soviética) chamado Será o Comunismo Solúvel em Álcool?. Sobre “Guerra Fria”, do polaco Pawel Pawlikowski’ (“Ida”, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), poderíamos perguntar: “Será o amor louco solúvel no comunismo?”. Tendo em conta a paixão turbulenta, dilacerante e inoxidável que une as personagens do filme, Zula e Wiktor, do pós-guerra na Polónia até aos anos 60, passando por uma Berlim ainda sem muro, pela Jugoslávia titista e por Paris, para regressar ao ponto de partida, tão complexa e ardente como no primeiro minuto, a resposta é simples: não.

[Veja o “trailer” de “Guerra Fria”]

Zula (Joanna Kulig) é mais jovem que Wiktor (Tomasz Kot) quando se conhecem, na Polónia comunista, em 1949. Ele faz parte de uma equipa que anda a recrutar e formar os melhores jovens cantores e bailarinos do país, para fazerem parte de um grupo folclórico que representará o país, e a cultura popular socialista, nos países irmãos de Leste e mesmo no Ocidente; ela é bonita, despachada e canta e dança bem. Apaixonam-se e percebem de imediato que são feitos um para outro. Zula até revela a Wiktor que o comissário do partido que acompanha o grupo a encarregou de o vigiar e denunciar, se necessário. Os amantes decidem dar passar para o outro lado da Cortina de Ferro durante uma estadia do grupo na Alemanha, mas Zula não aparece e Wiktor foge sozinho.

[Veja a entrevista com o realizador Pawel Pawlikowski]

Inspirando-se na história dos pais, que deixaram a Polónia pela Inglaterra, Pawlikowski faz Zula e Wiktor encontrarem-se, separarem-se e reencontrarem-se ao longo dos anos, chegando mesmo a viver juntos e livres durante algum tempo em Paris, onde ele é músico num bar de jazz e toca em bandas sonoras de filmes, e ela chega mesmo a gravar um disco. Mas a inquieta Zula é mais intransigente do que Wiktor, não só em termos artísticos como também na paixão e na dedicação amorosa, e acaba por regressar à Polónia. Incapaz de viver sem ela, Wiktor vende a alma ao diabo e volta também, mas paga o preço da sua dissidência. Zula, no entanto, não o abandona, e não recua ante nenhum sacrifício para o ver livre e ao lado dela. Porque nasceram um para o outro, mesmo que não consigam encaixar seja no Ocidente democrático, seja no Leste opressor.

[Veja a entrevista com Joanna Kulig]

Filmando, tal como em “Ida”, num preto e branco severo e imperturbável, o que faz que “Guerra Fria” pareça, como aquele, um filme vindo dos tempos do Leste totalitário onde grande parte do enredo se passa, Pawel Pawlikowski conta esta história de um amor constante, complicado e tão abrasador que nem o rigor da invernia ideológica da Guerra Fria o consegue extinguir, recorrendo a grandes elipses temporais, a uma enorme poupança narrativa e a uma banda sonora omnipresente e correlativa sonora dos acontecimentos, que mistura folclore polaco, canções de propaganda comunista, jazz e uma pincelada de rock dos primórdios. E nem chega a gastar meia hora, nesta idade em que grande parte dos filmes se prolongam por duas horas ou mais, numa prolixidade estéril. (A fita teve o prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes).

[Veja a entrevista com Tomasz Kot]

Tomasz Kot é muito bom no lacónico e meditativo Wiktor, mas “Guerra Fria” pertence totalmente à fabulosa Joanna Kulig, que como Zula nos dá um dos mais arrebatadores retratos de paixão, irascibilidade, tenacidade e devoção feminina do cinema recente. Aos 36 anos, Kulig, que também canta e dança bem, é completamente convincente a interpretar uma rapariga que ainda não terá 20 anos quando a história se inicia, e no final, na década de 60, anda perto da sua idade real. Não é para admirar que seja a incansável e inabalável Zula a encontrar a solução para este amor indestrutível, exactamente no mesmo sítio onde ele nasceu. Sob a sua aparente austeridade e frigidez, “Guerra Fria” é um filme emocionalmente arrasador, com um final de recorte “dreyeriano”, e de derreter o mais gelado dos corações.