O vice-procurador-geral dos EUA, Rod Rosenstein, sugeriu gravar secretamente Donald Trump para “mostrar o caos na administração”, noticiou esta sexta-feira o The New York Times. O objetivo seria encontrar motivos para invocar a 25ª emenda da Constituição do país para destituir o presidente americano por este não estar habilitado para desempenhar o cargo. Rosenstein negou perentoriamente. Trump afirma que quer livrar-se do “mau cheiro” que paira no departamento de Justiça.

O The New York Times é impreciso e está factualmente incorreto. Não vou comentar uma história baseada em fontes anónimas obviamente tendenciosas que estão a promover a sua agenda pessoal contra o departamento de Justiça. Mas deixem-me ser claro quanto a isto: baseando-me na minha experiência pessoal com o Presidente, não há bases para invocar a 25ª emenda”, afirmou Rod Rosenstein quanto às alegações.

O número dois da Justiça norte-americana terá feito esta sugestão a maio de 2017, na mesma altura em que Trump despediu James B. Comey do cargo de diretor do FBI — pela mesma altura, foi noticiado que Trump tinha revelado segredos de Estado ao embaixador e ministro dos negócios estrangeiros russos. Rosenstein assumiu o cargo de vice-procurador duas semanas antes, a 26 de abril de 2017, e sentia-se “usado”, alega o jornal, por Trump ter citado as suas notas sobre porque é que Comey não devia continuar no FBI.

As sugestões de Rosenstein sobre querer gravar secretamente Donald Trump e falar da emenda que, por inaptidão ou morte, permite que o presidente dos Estados Unidos seja substituído pelo vice-presidente, foram feitas a outros membros do Departamento de Justiça americano e agentes do FBI. Segundo o mesmo jornal, Rosenstein disse ao sucessor do diretor do FBI, Andrew McCabe, que foi despedido por Trump em março de 2018, que conseguia persuadir Jeff Sessions, o procurador-geral americano, e Jeff F. Kelly, o responsável da pasta da segurança nacional americana da administração Trump. McCabe recusou-se a prestar declarações.

Oito dúvidas sobre a demissão do diretor do FBI. Um novo Watergate ou uma investigação errada?

Segundo outra fonte do jornal, Rosenstein fez, de facto, essa sugestão de gravar Trump, mas fê-lo de forma sarcástica. Outras fontes do New York Times, contudo, afirmam que o vice-procurador confirmou que queria avançar com as pretensões de gravar secretamente o chefe de Estado norte-americano e voluntariou-se para o fazer. Tudo no contexto da utilização (por Trump) das notas de Rosenstein para justificar despedir Comey, em 2017 — isto é, porque se queria vingar.

Vai Trump despedir Rosenstein ou não?

No seguimento da notícia publicada pelo The New York Times, surgiu a questão de o presidente norte-americano ir ou não despedir o vice procurador. Em abril deste ano, Trump já tinha, alegadamente, falado em demitir Rosenstein, o que poderia facilitar a vida do presidente. É Rosenstein quem está a fiscalizar a investigação de Robert Mueller sobre se houve ou não influência russa nas eleições de 2016, em que Trump saiu vitorioso.

Enquanto membros do partido Republicano pedem a Trump para não demitir Rosenstein com as eleições intermédias a chegar — e para a notícia não prejudicar também a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça –, ainda não se sabe o que o líder americano vai fazer. No Twitter, ainda não se pronunciou, apesar de costumar fazê-lo nestas situações.

Segundo a CNN, poucas horas depois da história ter sido publicada esta sexta-feira, Trump afirmou se deveria ou não despedir o vice-procurador imediatamente. No Twitter, as jornalistas da Fox News Laura Ingraham e Jeanine Pirro disseram que Rosenstein devia ser demitido. Contudo, Laura Ingraham apagou os tweets quando outros republicanos mostraram hesitação quanto à possível demissão.

Donald Trump ainda não se pronunciou diretamente sobre o caso, mas, este sábado, o presidente norte-americano prometeu que ia despedir mais pessoas no departamento de Justiça e no FBI. Num comício em Springfield, no estado Missouri, Trump afirmou que quer livrar-se do “mau cheiro” nestas entidades.