“O tema desta noite é a rede social Facebook — o pior sítio do mundo para desejar os parabéns a um amigo, sem contar com o funeral”. Foi assim que o comediante britânico John Oliver abriu esta semana o segmento do programa “Last Week Tonight with John Oliver”, dedicado exclusivamente a destruir os propósitos da rede social mais utilizada em todo o mundo, cujo lema, diz, parece ser “avançar rapidamente e partir tudo o que vier à frente”.

Numa altura em que é relativamente unânime que a rede social de Mark Zuckerberg tem uma significativa quota parte de responsabilidade na proliferação de alguns dos fenómenos mais tóxicos dos dias de hoje — da disseminação de notícias falsas e discurso de ódio às questões de privacidade e apropriação de dados, como foi o caso da Cambridge Anatytica —, o humorista dedica-se neste segmento a mostrar como a utilização do Facebook está a afetar os países de todo o mundo, muito para lá dos EUA. Incluindo aqueles países, como o Myanmar (ex-Brimânia), do qual quase ninguém “sabe nada”.

O caso de Myanmar é, para o humorista, paradigmático: em 2013, apenas 1,2% da população tinha acesso à internet, uma realidade que mudou radicalmente a partir do momento em que o Facebook começou a aparecer nos smartphones de forma pré-definida (a aplicação aparece instalada automaticamente). Hoje em dia, explica, estima-se que 18 milhões de cidadãos daquele país utilizem a plataforma, confundindo muitas vezes o conceito internet com o próprio conceito Facebook.

É nesse contexto que Oliver apresenta um vídeo de um professor birmanês, que se apresenta indignado por todos os jovens usarem aquela rede social — que apelida de, nada menos, do que “toilet” (retrete, ou sanita). Para o humorista, contudo, o termo é redutor, já que “chamar retrete ao Facebook é um pouco injusto para as próprias retretes”. E explica, já no meio de risos da plateia: “Chamar retrete ao Facebook é um pouco injusto para as retretes porque elas fazem a porcaria ir embora, enquanto o Facebook retém a porcaria, dissemina-a e ainda te lembra da porcaria que espalhaste há sete anos, ao mesmo tempo que permite que as empresas ponham a porcaria delas à frente dos nossos olhos”, disse. “O que eu quero dizer é que há uma integridade nas retretes que falta claramente ao Facebook”, resumiu ainda, debaixo de risos.

Insistindo muito no caso do Myanmar, John Oliver atenta para o facto de ser particularmente preocupante que a grande maioria dos cidadãos daquele país obtenham notícias e informações através da rede social, já que o país está há muito envolvido em conflitos violentos e sistemáticos entre hindus e a comunidade muçulmana Rohingya. Em 2017, o país executou o que se acredita serem cerca de 10 mil muçulmanos Rohingya, com outros 750 mil a continuarem a fugir para o Bangladesh.

No entender do comediante, o grande desafio do Facebook, enquanto multinacional norte-americana, é superar as barreiras culturais e linguistas de forma a controlar que tipo de conteúdo é disseminado em países tão sensíveis e permeáveis como o Myanmar. “Não digo que os desafios que enfrenta não são difíceis, mas para uma empresa que avança rápido e parte tudo o que aparece à frente, o que vemos é que estão a avançar muito devagar para corrigir as coisas erradas que têm feito”, diz.

Mas enquanto o Facebook não consegue corrigir esses erros, John Oliver resume que era importante que os utilizadores daquela rede social olhassem para ela com ceticismo e tratassem o Facebook aqpenas e só como aquilo que ele é: “Um pântano cheio de mentiras descaradas, ocasionalmente intercaladas com a lembrança de um animal de estimação que morreu. É isso que o Facebook é”, disse.