Era a final feminina dos 100 metros dos Jogos Olímpicos de 1988. Em Seul, na Coreia do Sul, Florence Griffith-Joyner bateu Evelyn Ashford e Heike Drechsler, as principais adversárias, e venceu a primeira medalha de ouro olímpica da carreira. Foi a 25 de setembro, há exatamente 30 anos, e nos dias seguintes a atleta norte-americana ainda iria conquistar o ouro nos 200 metros e nos 4×100 metros, além da medalha de prata nos 4×400 metros.

Flo-Jo, como era conhecida, já tinha por esta altura o recorde mundial dos 100 metros que ainda vigora, 10.49 segundos, e atingiu em Seul o recorde mundial dos 200 metros, que também ainda é seu. Antes de 1988, a norte-americana nascida em 1959 em Los Angeles era um mistério por desvendar. Florence, a sétima dos onze filhos de Robert e Florence, inscreveu-se na Sugar Ray Robinson Organization quando tinha apenas sete anos e começou a praticar atletismo. Ao longo da adolescência, enquanto ia acumulando vitórias em torneios e competições, foi desenvolvendo um especial interesse pela moda e começou a usar collants coloridos com o equipamento de corrida. Era o princípio de uma imagem de marca que a iria acompanhar durante toda a carreira: a norte-americana gostava de sublinhar que “não é preciso ser masculina para ser atleta” e competiu sempre com unhas longas, arranjadas e pintadas e equipamentos arrojados, que chegaram a incluir uma espécie de capuz ou a ter apenas uma perna.

Durante os Mundiais de Roma, em 1987

Entrou na universidade com uma bolsa de atletismo e começou a ser treinada por Bob Kersee, um conhecido treinador de atletas de alta competição. A equipa de atletismo da California State University venceu o campeonato nacional universitário no ano de caloira de Florence mas, no final desse mesmo ano letivo, a norte-americana acabou por desistir dos estudos para ajudar os pais, que atravessavam graves dificuldades financeiras. Kersee acreditava que um talento como o de Florence Griffith não podia ser desperdiçado e acabou por conseguir uma bolsa mais substancial para que a rapariga estudasse na UCLA. No verão de 1980, com apenas 20 anos, Florence participou nas provas de apuramento para os Jogos Olímpicos daquele ano, na União Soviética, mas acabou por não conseguir as marcas necessárias – algo que não a deixou muito frustrada, já que os Estados Unidos já tinham decidido boicotar aquela edição dos Jogos devido à invasão do Afeganistão por parte da União Soviética. Três anos depois, terminou a licenciatura em psicologia e participou nos primeiros Mundiais de atletismo, onde ficou em quarto lugar nos 200 metros.

Por esta altura, Bob Kersee achava que o futuro de Florence estava nos 200 metros e não necessariamente nos mais mediáticos 100. Em 1984, qualificou-se para os 200 metros dos Jogos Olímpicos daquele ano com a segunda melhor marca de sempre à época – competiu em casa, em Los Angeles, e conquistou a medalha de prata, o primeiro feito olímpico da carreira. E decidiu que era tempo de fazer uma pausa.

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Corria apenas nos tempos livres, não quis participar nos campeonatos nacionais de 1985, voltou a trabalhar num banco como nos tempos da universidade e ainda acumulava com um part-time enquanto esteticista. Pelo meio, casou com Al Joyner, campeão olímpico do triplo salto em 1984, e começou a apresentar-se enquanto Florence Griffith-Joyner. Só regressou ao atletismo a tempo inteiro em abril de 1987 e decidiu que ia preparar-se para conseguir competir nos Mundiais de Roma, daí a quatro meses. Cumpriu o compromisso que fez consigo mesma e em agosto ficou no segundo lugar nos 200 metros. A meta, a partir daí, passou a ser os Jogos Olímpicos de Seul no ano seguinte.

Nas provas de apuramento para os Jogos Olímpicos de Seul, com um dos equipamentos mais mediáticos

Na altura das provas de qualificação, Florence Griffith-Joyner ainda treinava dois dias por semana com Bob Kersee mas tinha passado a correr três dias com o marido. Na primeira eliminatória dos quartos de final do apuramento, a norte-americana de 28 anos deixou toda a gente boquiaberta ao terminar o percurso de 100 metros em 10.49 segundos, um recorde mundial absoluto que se mantém até aos dias de hoje. Ainda que a Association of Track and Field Statisticians classifique a prova como “fortemente ajudada pelo vento”, reconhece a marca como um recorde mundial. Mas Florence ainda estabeleceu o segundo e terceiro tempos mais rápidos de sempre de uma mulher nos 100 metros nos dias seguintes. Em julho, a poucos meses dos Jogos Olímpicos onde Greg Louganis se sagrou campeão olímpico de saltos para a água depois de bater com a cabeça na plataforma, a atleta decidiu deixar Bob Kersee, alegando que queria um treinador que pudesse dar-lhe “maior atenção pessoal”.

Chegada aos Jogos Olímpicos e depois do êxito retumbante na qualificação, Flo-Jo era a grande favorita para vencer as principais provas de velocidade e não desiludiu. Venceu nos 100 metros, venceu nos 200 metros com recorde mundial, venceu nos 4×100 metros e ficou no segundo lugar dos 4×400 metros. Numa entrevista anos depois, contou que a medalha mais especial foi a de prata: “É a mais especial. Eu não era para competir nos 4×400 metros. Estava exausta e depois dos 4×100 vieram ter comigo e disseram: ‘Queres ir aos 4×400 metros?’. E eu respondi que sim. É a mais especial porque foi o meu país a querer dar-me mais uma medalha de ouro”.

Florence Griffith-Joyner, ainda hoje considerada a mulher mais rápida da história do atletismo, terminou a carreira logo depois dos Jogos de Seul, com apenas 28 anos. Morreu dez anos depois, em 1998 e com apenas 38 anos, ao sofrer uma massiva convulsão epilética durante o sono. 30 anos depois daquela noite histórica na Coreia do Sul, Florence permanece como um ícone intemporal do atletismo mundial.