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Naufrágios

Giorgia, a mulher que dá nome aos mortos no mar Mediterrâneo

A investigadora siciliana Giorgia Mirto recorre aos cemitérios do sul de Itália para contar e identificar os falecidos no mar Mediterrâneo que querem entrar na Europa, vítimas dos naufrágios.

Getty Images

Desconhecido número 7. Encontrado por M.M. [barco da Marinha Militar italiana] ‘Dattilo’. Naufrágio 11/07/2015“, é a inscrição que aparece numa das 120 sepulturas do cemitério de Santa Maria de Rotoli, em Palermo, capital da Sicília, Itália. A maioria não tem nome.

Girgia Mirto, investigadora siciliana da Universidade de Bolonha, visita os cemitérios do sul de Itália, desde 2011, para contar o número de mortos nos naufrágios, de modo a chegar ao valor aproximado dos falecidos e dar uma resposta às famílias daqueles que um dia partiram para a Europa e nunca mais regressaram. Escreve cada detalhe no seu caderno e a sua investigação é rigorosa.

A última tragédia que se registou foi há poucas semanas, onde cerca de 100 pessoas, entre elas 20 crianças, perderam a vida no canal da Sicília no naufrágio da embarcação pneumática, ao largo da costa da Líbia. Somente 55 foram resgatados pelos guardas libaneses, que os levaram para um centro de internamento no país africano, devolvendo-lhes o inferno do qual tentavam escapar.

Não se sabe, porém, quantas pessoas viajavam a bordo dessa embarcação nem quantos corpos sem vida descansam para sempre no mar Mediterrâneo. Segundo estimativas, os cadáveres que chegam à costa representam menos de 50% do total de migrantes que embarcam. Destes, apenas uma pequena parte é identificada. A maioria termina sepultada, anonimamente, num cemitério no sul de Itália.

“São pessoas esquecidas neste fragmento de terra”

Giorgia Mirto trabalha com a Cruz Vermelha Internacional, desde 2013, para elaborar uma base de dados que ajuda a identificar os corpos enterrados em Itália cujo nome não se conhece. Anteriormente, a investigadora realizou o projeto “Border of Death”, com o qual pretendia perceber como a política europeia incidia na mortalidade dos migrantes que tencionavam alcançar as costas de Itália, Espanha, Grécia, Malta e Gibraltar. Desde então, a sua pesquisa baseia-se no registo civil dos municípios e nos arquivos dos cemitérios.

Cooperando com a Cruz Vermelha, Mirto recolhe os dados com a informação que a Organização obtém diretamente dos familiares dos desaparecidos e esta, posteriormente, vai cruzá-los. Quando conseguem obter indícios suficientes, comparam o ADN dos falecidos com o dos familiares, que, com sorte, podem viajar até Itália para reconhecer os seus ente queridos. Com este sistema, já se conseguiu dar nome a cerca de 25% dos migrantes enterrados na cidade italiana desde 2013.

Há que pensar que as famílias das pessoas aqui sepultadas sem identificação não voltarão a ter notícias delas, o que as impede de fazer o luto e as deixa num “limbo jurídico”

O facto de os falecidos nunca chegarem a ser reconhecidos faz com que os seus familiares fiquem, então, num estado de indefinição jurídica porque não existe uma certidão oficial de óbito a confirmá-lo, como explica a investigadora. Assim, há mulheres que não podem voltar a ter um novo matrimónio e os seus filhos ficam sem direito a heranças, condicionando desde logo o seu futuro.

Desde Sardenha a Calábria, em quase todos os cemitérios do sul de Itália podem encontrar-se sepulturas de migrantes mortos do mar. “Agora pensamos que a imigração é um fenómeno novo, mas nos anos 90 chegavam imigrantes de outros tantos países, desde Apúlia a Albânia”.

Em comparação com o resto da Europa, Itália está à frente na identificação de pessoas mortas no Mediterrâneo. Existe até um comissário do Governo encarregado de pessoas desaparecidas e uma equipa multidisciplinar que trabalha com a Cruz Vermelha e algumas ONG (Organizações Não Governamentais) para encontrar os familiares nos países de origem.

Eu conto apenas os que chegam, que são os únicos que podem ser identificados. A maioria morre e permanece no mar, porque nessa zona não estão as ONG para resgatá-los.”

Em outubro de 2013, mais de 400 pessoas perderam a vida nos trágicos naufrágios de Lampedusa. Dois anos mais tarde, uma embarcação com 800 migrantes a bordo naufragou no Canal da Sicília. Nessa altura, cerca de 60 famílias conseguiram reconhecer os seus entes, graças a amostras de sangue e fotografias do Facebook, mas a investigadora salienta que apenas os que chegam são os que podem ser identificados; “a maioria morre e permanece no mar, porque nessa zona não estão as ONG para resgatá-los”.

Desde agosto que a Itália não tem barcos de resgate para as costas da Líbia e a política de imigração impulsionada pelo ministro do Interior de Itália, Matteo Salvini, não parece funcionar nem parar de contribuir para o aumento do número de pessoas sem nome nos cemitérios.

O panorama parece agravar-se ainda mais com o passar dos anos, que se somam assombrados pela falta de medidas concretas para controlar os naufrágios: entre janeiro e julho de 2018, pelo menos 1500 pessoas perderam a vida no mar, segundo a Organização Internacional para as Migrações. Contudo, o número podia ser bem mais elevado, dado que a maioria dos corpos não são recuperados nem identificados.

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