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Exatamente uma semana depois de sair de casa às quatro da manhã para iniciar o protesto dos motoristas de táxi junto à Avenida da Liberdade e à Praça dos Restauradores, Pedro Nascimento está sentado no jardim adjacente à Assembleia da República, a tentar recuperar do calor que se fazia sentir às três da tarde desta quarta-feira. Depois de uma semana na principal avenida de Lisboa, de reuniões com todos os grupos parlamentares, de uma reunião com um representante da Casa Civil da Presidência da República, de uma reunião com um assessor de António Costa na residência provisória do primeiro-ministro no Terreiro do Paço, os taxistas decidiram que era preciso pressionar ainda mais. Desceram com escolta policial dos Restauradores até ao Parlamento e manifestaram-se desde o início do debate quinzenal. O objetivo era exatamente o mesmo que tinha sido apresentado há uma semana: suspender a chamada “Lei Uber”, que regulamenta o transporte em veículos descaracterizados (TVDE) s e que entra em vigor a 1 de novembro.

“O objetivo é fazer pressão. Ele [António Costa] acabou agora de dizer que nós só temos regalias. O objetivo é ver se alguém nos recebe, fazer um bocadinho de pressão e se nada se resolver, é ficar. Seja até quando for. É que esta lenga-lenga, este disco riscado de que só há condições para uns e que eles ‘não sei o quê’ é tudo treta. Queremos a suspensão da lei e que nos digam que vão colocar regulamentação mais concreta”, explica Pedro Nascimento, motorista de táxi da zona de Sintra, que está a ouvir o debate quinzenal em direto através de um pequeno rádio.

Na Praça da Constituição de 1976, em frente à Assembleia da República, uma carrinha carrega dois megafones que vão passando música. “Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”, ouvia-se ainda longe da praça, mas a música foi interrompida assim que o debate começou. As intervenções do Bloco de Esquerda, do PCP e do PEV são amplamente aplaudidas – ao passo que, quando é a vez de o PSD falar, o PS, o Governo ou o PAN, as palavras emitidas pelos altifalantes são abafadas pelos apupos. À vista desarmada, o protesto parece não ter sido muito concorrido: não há muita gente concentrada junto à carrinha nem perto da escadaria da Assembleia, que está vedada e com forte presença policial, mas centenas de motoristas de táxi estão sentados à sombra, junto aos prédios em frente ao Parlamento ou mesmo já no fim da rua de S. Bento.

“Quando arrancámos de lá [Restauradores] éramos para aí uns 300, mas depois foi engrossando porque as pessoas vieram por outras ruas e chegou aí muita gente. E a média lá na avenida tem sido sempre 700, 800 carros. O domingo foi o dia mais forte, tivemos quase 2000”, conta Pedro Nascimento. O motorista de táxi, que a meio do protesto ficou “muito cansado, da cabeça também”, esteve dois dias inteiros na Avenida da Liberdade até ir a casa. A partir daí, regressou a Sintra “dia sim, dia não”, até porque o protesto é “como uma greve da fome, custa nos primeiros dias mas depois o corpo habitua-se”. “Hoje, ainda consegui falar um bocadinho com os meus filhos, estive um bocadinho até mais tarde e vi-os acordados. Tenho-os visto sempre a dormir”, diz.

Uma semana depois, taxistas terminam protesto contra lei das plataformas eletrónicas

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Junto à Assembleia da República, os ânimos aquecem quando três deputados – José Luís Ferreira do PEV, Heitor Sousa do Bloco de Esquerda, e Bruno Dias do PCP – descem até ao encontro dos manifestantes e demonstram (uma vez mais) o total apoio ao protesto. Entre as palavras de ordem e os múltiplos “obrigado” que se ouviam entre a multidão, começaram os desentendimentos entre alguns motoristas de táxi, empurrões e tensão. Até que a discussão foi sanada por outros colegas de profissão. “Agora é que se põem com estas coisas, pá!”, protestava um taxista, descontente com o comportamento dos colegas.

A semana passada na Avenida da Liberdade, além do grande impacto mediático, trouxe cansaço e impaciência – mas Pedro Nascimento acreditava que se nada tinha acontecido depois da caminhada até à residência do primeiro-ministro, nada aconteceria também esta quarta-feira. “Aquele jogo de diversão de irmos à residência do primeiro-ministro e depois ele não estar lá foi uma entrada por trás. Tentaram mesmo tudo para ver se as coisas descambavam. Espero que hoje não descambem”.

Ainda antes do final do debate quinzenal – e já depois de uma resposta de António Costa a Heloísa Apolónia que trouxe insultos e palavras menos bonitas -, Carlos Ramos e Florêncio de Almeida, líderes da Federação Portuguesa do Táxi e da ANTRAL dirigiram-se até ao novo edifício da Assembleia da República. A notícia espalhou-se depressa: o PS tinha convidado os líderes das duas associações de taxistas para uma reunião que visava a apresentação de uma proposta de entendimento. Em frente ao Parlamento, ouvia-se Ferro Rodrigues a dar como terminada a sessão plenária e os taxistas começavam a dispersar. O sol não dava tréguas e era preciso restaurar o stock de garrafas de água, que entretanto tinha acabado.

No jardim ao lado da Assembleia, Pedro Nascimento fazia uma ronda pelas redes sociais e mostrava o desagrado com aquilo que tem sido dito pela opinião pública. Afinal, segundo o que diz, “a opinião pública continua a não perceber que esta libertinagem nas aplicações é má para eles também”. Nas horas incontáveis passadas na Avenida da Liberdade, entre conversas e discussões, os taxistas foram acompanhando tudo aquilo que era comentado nas redes sociais e na comunicação social.

“Nas redes sociais até vi gozar com os serviços mínimos gratuitos que nós estamos a fazer. Dizem que afinal é porque estamos carregados de dinheiro. Há uma inversão de tudo, tudo o que acontece é sempre negativo. Se não fizéssemos os serviços mínimos, éramos uns gandulos porque deixávamos os velhinhos, as pessoas em cadeiras de rodas, as grávidas e os bebés todos a pé. Agora até dizem que somos uns parvos porque nos portamos bem”, defende Pedro.

O debate quinzenal foi transmitido em direto através de altifalantes

Junto à Assembleia, o sol começa a descer, já é possível aproveitar os últimos degraus da escadaria para descansar as pernas e a espera pela saída de Carlos Ramos e de Florêncio de Almeida é animada com música, gritos de ordem e o barulho das cornetas coloridas espalhadas pela multidão. Não é difícil perceber qual é o alvo do protesto: “Costa, urgente, ouve o Presidente!”, ouve-se repetidamente. Os pequenos grupos de taxistas que se formam não fogem ao assunto da semana e discutem soluções. Para um motorista de táxi, é preciso “fazer um protesto a sério para eles perceberem que não estamos a brincar, têm de abrir os olhos!”. O ânimo é refreado por vozes mais calmas, que defendem que o protesto pacífico é a melhor maneira de explicar as pretensões do setor.

Carlos Ramos e Florêncio de Almeida saem finalmente do novo edifício da Assembleia da República e, nos escassos metros que percorrem até à concentração, são interrogados por vários taxistas mais impacientes. “Eles vêm a rir, pá! Vêm a rir e com folhas na mão! É bom sinal!”, grita um dos motoristas de táxi, claramente otimista. Os dois líderes do protesto sobem os últimos três degraus da escadaria do Parlamento e anunciam o veredito da reunião com o PS: foi apresentada uma proposta, é necessário reunir as duas associações e tomar uma decisão; para já, o protesto regressa à base. Nem todos ficam contentes e os insultos começam a fazer-se ouvir, já que muitos taxistas queriam saber naquele momento qual era o teor da proposta apresentada. Carlos Ramos e Florêncio de Almeida recusam dar mais explicações e garantem que falam depois de reunir, já na Praça dos Restauradores.

Conversa rápida com a polícia, os dois líderes na frente do protesto e a multidão segue pelo mesmo caminho que percorreu para ali chegar. Pelo meio, um elemento tenta ter uma discussão mais acesa com Carlos Ramos, exigindo explicações, mas é prontamente acalmado por alguns colegas. Cerca de duas horas depois, nos Restauradores, Federação Portuguesa do Táxi e ANTRAL anunciam que – uma semana depois – o protesto acabou e dão ordem para “desmobilizar de forma ordeira”. A solução não é a ideal mas o pensamento de quase todos é o mesmo que Pedro Nascimento tinha apresentado horas antes: “Posso ir-me embora sem nada mas pelo menos estive cá”.