André Gil Mata (São João da Madeira, 1978) filmou “A Árvore” durante um período em que viveu em Sarajevo, onde estava a fazer um doutoramento de realização. A sua terceira longa-metragem, depois de “Cativeiro” (2012) e “Como Me Apaixonei Por Eva Ras” (2016), chega finalmente às salas nacionais, depois de se ter estreado no início de 2018 no Festival internacional de Cinema de Berlim e das honras de abertura da edição deste ano do IndieLisboa, onde André Gil Mata venceu o prémio de Melhor Realizador na Competição Nacional.

Em “A Árvore” acompanha-se o percurso de duas personagens que caminham para um mesmo local. O cenário é de um inverno rigoroso, a caminhada é dolorosa, com um sentimento ténue de esperança, embora o espectador esteja alheado de uma ausência de destino. As imagens são belíssimas, fortes, e em off ouvem-se sons de guerra, bombas, tiros, tropas a marcharem. Não há imagens de guerra, há um cenário desolador que a sugere, mas a sua presença é marcada com mais impacto através do som. O convívio com as imagens e o som tornam “A Árvore” numa experiência sensorial, o próprio filme torna-se num lugar para o espectador reflectir, localizar-se com as personagens e o seu percurso. É um filme de guerra sem o ser, talvez o maior conflito seja o interior, aquele que o espectador irá sentir enquanto caminha o caminho com aquelas personagens. “A Árvore” é um encontro interior, um encontro do cinema com o sagrado.

Estivemos à conversa ao telefone com o realizador, que entretanto voltou para o Porto, sobre a sua visão do cinema e de como chegou a esta ideia de filme de guerra.

Ao longo do filme há algumas referências aos conflitos nos Balcãs no final do século passado. Contudo, o modo como a guerra marca maior presença é através do som, tornando o seu filme numa experiência muito sensorial. O que o levou a referenciar a guerra dessa forma?
Isso surgiu da minha experiência de viver em Sarajevo durante uns anos [desde 2013 até há poucos meses]. Uma das coisas de que me consciencializei durante esse período é de que a imagem da guerra, não necessariamente aquela, mas de todas as guerras, na minha opinião, é explorada de uma forma que, por vezes, a torna quase pornográfica. Sabia que não queria fazer da guerra um espectáculo de fundo e de a mostrar através da imagem. Mas a ideia também surgiu através da criação de uma personagem que se confronta consigo mesmo, com a solidão durante esse período. Não queria mesmo mostrar algo que tivesse a ver com o conflito de guerra, porque para mim isso já está banalizado e eu queria seguir por outro caminho. Queria dar uma experiência que fosse minha, de forma a que essa experiência também passasse para o espectador, que se tornasse dele. Queria que o som não andasse com a imagem, que criasse uma outra linha narrativa e tornasse a experiência da guerra mais sensorial, e que acrescentasse algo mais à imagem. O que acontece no fundo é sempre em off, em relação à personagem mas através do som. Sejam as tropas a caminharem, as bombas…

A árvore acaba também por se tornar numa personagem do filme, é mais do que um ponto de encontro. Como chegou a essa ideia?
Fui para Sarajevo para fazer um doutoramento em realização de cinema e a pessoa que estava a coordenar o doutoramento ficava muito irritado comigo pelo facto de eu não filmar. Após ter chegado, durante algum tempo, não conseguia sequer pensar em filmar. A minha relação com aquele lugar não me permitia sequer pensar em filmar alguma coisa. Quando não conheço os espaços, ou não tenho uma relação afectiva com eles, torna-se muito difícil, para mim, filmar. Mas havia essa premissa de filmar e eu sentia essa pressão. Mas eu não conseguia, andava sempre com uma máquina fotográfica comigo mas também não conseguia tirar fotografias. Além das fotografias que tirava no quarto onde estava a viver, a primeira fotografia que tirei foi na periferia da cidade. O inverno era muito rigoroso, estava sempre a nevar, e fotografei uma árvore junto ao rio, uma árvore despida com um homem ao lado, não percebi bem o que ele estava a fazer, mas havia fumo que estava a sair de junto da árvore. Na minha inocência, por não conhecer os hábitos locais, pensei que ele estava a fazer uma fogueira. Mas quando revelei a fotografia percebi que havia um outro rio ao lado e que o fumo não era de uma fogueira mas do cruzamento das águas: o PH das águas devia ser bastante distinto e criava uma subida de ar, o fumo provinha dali. Mas fiquei com essa imagem de quando tirei a fotografia, de alguém que se tenta aquecer na neve. E daí surgiu-me a ideia de que alguém ao pé de uma árvore pode procurar uma espécie de aconchego, quando estás num vale, sem mais nada. Foi mais uma sensação, uma imagem, que se tornou noutra coisa qualquer. Uma ideia muito simples, de que ao te tentares aquecer encontras um momento tanto exterior como interior. Nunca estive num espaço de guerra, mas imaginei aquele cenário como uma situação em que te podes aquecer, exterior e interiormente, para ganhares esperança, coragem para continuar.

André Gil Mata durante a rodagem de “A Árvore”

A caminhada de ambas as personagens até à árvore sugere a ideia de peregrinação, principalmente da personagem mais velha, carregando as garrafas vazias às costas. A ausência de uma referência de destino causa essa sensação. A sugestão de peregrinação foi intencional?
Para mim a ideia prende-se mais com um ritual diário da personagem do que uma peregrinação. Tinha consciência de que esse ritual se poderia transformar noutra coisa, devido aos elementos presentes e ao que é sugerido. Acho que tens sempre a consciência que se pode tornar noutra coisa, algo próximo da caminhada de Cristo com a cruz. Mas a ideia base era esse ritual, de alguém que sem motivo, esperança na humanidade, no que o rodeia, que sem olhar para isso sai de casa todas as noites para ir buscar água para ele e para os vizinhos. Era mais uma ideia de comunhão. Creio que num espaço de guerra, pela necessidade de sobrevivência, voltas a conhecer os teus vizinhos e as comunidades tornam-se mais próximas. Aqui no Porto não conheço um vizinho. Hoje em dia vivemos assim, ninguém se interessa muito pela vida de quem está ao lado. Penso que nesses momentos a sociedade volta atrás por necessidade, há uma necessidade de colaborar, porque não conseguimos viver juntos. A ideia partiu daí, ele está a fazer uma ação, e os vizinhos farão outra, sugerindo uma ideia de troca, de trabalho pela sobrevivência, num grupo. Escolhi esse ritual diário, mas poderia ser qualquer outro. A busca da água era bastante importante, porque levaria a personagem para fora do cerco de conflito, levava-o para a natureza, para um certo apaziguamento com ele mesmo.

Mas queria sugerir essa ideia de Cristo a carregar a cruz? O modo como ele carrega as garrafas, com aquele pau, é muito sugestivo…
Tive sempre a imagem desse homem com esse pau de madeira, com as garrafas presas. Se a iria transformar numa imagem fílmica, iria ter sempre essa ligação. Agora foi uma escolha de seguir essa vontade, de ter essa imagem e de ter de viver com essa ligação e conotação, porque os símbolos se sobrepõem às nossas ideias. Achei que não deveria abdicar dessa imagem por causa disso. Se as pessoas lerem com essa ideia, de uma caminhada de Cristo com a cruz, acho que há abertura para isso, para as pessoas interpretarem assim: não conseguimos controlar o que os outros sentem. Não queria suprimir a minha ideia com receio do que os outros pensariam.

Quando o velho encontra a criança, junto à árvore, há varias sugestões, seja o encontro de duas personagens, o encontro de uma visão de futuro ou de passado (conforme a perspetiva das personagens) ou de um certo limite, de que já não existe nada para a frente. Quis deixar isso em aberto?
Para mim é mais um encontro do personagem mais velho com uma outra idade, e vice-versa, sem a personagem mais nova ter essa perceção, porque não consegue, de que está a falar com ele mesmo.

É quase como se acontecesse algo de sagrado, junto à árvore. Intensifica a simbologia da guerra.
Acho que a árvore é um lugar sagrado no sentido em que lhe é permitido, naquele lugar, encontrar-se com ele mesmo. O lado sagrado será esse, de conseguirmos, termos um espaço, para conseguirmos estar connosco. Creio que hoje é muito difícil termos esses espaços, é difícil as pessoas terem esses momentos. Se calhar as pessoas antes tinham esses momentos através da religião, se calhar conseguiam isso. Os lugares ditos sagrados, como tu dizes, acho que se perderam na nossa sociedade ocidental, é muito raro as pessoas encontrarem esses lugares. Sinceramente, eu acredito que o cinema se pode tornar um pouco nesse lugar: tu entras numa sala e, quase por obrigatoriedade, tens de estar contigo mesmo, não podes falar, ou pelo menos não deves, estás num lugar de escuridão, que tem uma enorme relação com o sono e o sonho, e é-te dada uma experiência sensorial que te proporciona o confronto contigo mesmo. O cinema pode ser realmente esse lugar, em que te encontras contigo mesmo, tens o espaço e o tempo para esse encontro, podes confrontar os teus medos, erros, o passado: o cinema pode-se tornar num local sagrado se os filmes também o permitirem. E parte da experiência que eu queria proporcionar com o meu filme passa um bocado por aí, permitir ao espectador ter esse tempo e espaço para estar com ele mesmo.