Crítica de Livros

Tiago Ferro. A literatura não salva ninguém

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A simultaneidade de tudo, tempos, dores, memórias e dúvidas é o que faz de "O Pai da Menina Morta", de Tiago Ferro, uma unidade tão sólida, mais do que a morte, mais do que o luto.

Autor
  • Sara Figueiredo Costa

Título: “O pai da menina morta”
Autor: Tiago Ferro
Editora: Tinta da China

O livro chega às livrarias a 12 de outubro. Antes, no dia 5, Tiago Ferro estará no Folio para o lançamento de “O pai da menina morta”, com apresentação de Ricardo Araújo Pereira

Não há rede, escoras ou capacete para a travessia de O Pai da Menina Morta, primeiro romance do brasileiro Tiago Ferro, publicado em Portugal pela Tinta da China. No centro da trama, o luto pela morte da filha. Oito anos, o coração a deixar de bater numa unidade de cuidados intensivos e a rasurar para sempre o futuro de quem lhe sobrevive. O narrador sobrevive, é ele o pai,  sem nome, agora acrescentando à identidade o novo facto que fará de todos os outros – a idade, a frequência cardíaca, a roupa que usa, o modo como se relaciona com as pessoas – um amontoado de insignificâncias.

Este será um romance sobre o luto, mas é antes de tudo o romance de alguém que procura sem sucesso a possibilidade de voltar a ser mais do que o Pai da Menina Morta. A vulnerabilidade vem de saber que procurar essa possibilidade é também uma traição, à sua filha, ao amor que sente por ela, à certeza de que não pode haver um depois:

“Quando me esqueço da dor, eu me afasto da Minha Filha.” (pg.75).

Ao longo de 187 páginas, o romance estrutura-se a partir de fragmentos. A forma corresponde à função, já que não há linearidade possível na devastação emocional de um ser humano. Podemos intuir o que aconteceu antes e depois, perceber alguma ordem nos acontecimentos (a menina adoece, há uma infecção que alastra, os antibióticos deixam de ser eficazes, a menina morre), mas no lugar escuro que é a cabeça, o coração e o corpo todo do narrador, o tempo deixou de existir desse modo ilusório com que persistimos em organizá-lo.

Os fragmentos são a matéria e neles se cruzam as imagens da filha no hospital, os medos de infância, o primeiro beijo, Yuri Gagarin flutuando no espaço, um lobo rondando os sonhos, Diego Maradona e o golo de 1986 contra os ingleses. Pelo meio, há referências a dores semelhantes – as de Carlos Drummond de Andrade, Eric Clapton ou Gilberto Gil, que também perderam filhos – e há a culpa, a certeza de que os outros vêem este homem como quem olha para um estropiado, a desgraça feita espectáculo público entre a comoção e a secreta felicidade de ter sido com outra pessoa.

O lugar distante do passado invade os momentos presentes e as memórias do narrador são esta amálgama de factos e as suas interpretações, tudo imediatamente arrastado para o mesmo vórtice, sinapses em agitação constante, a vida de todos os dias a ganhar espaço contra a morte. Não será por acaso que a epígrafe do romance é uma citação de Karl Ove Knausgard, o norueguês que transformou a sua vida num edifício literário avassalador, angustiante e cheio das arestas que mostram os cacos ao mesmo tempo que confirmam a integridade do seu lugar de origem. E Knausgard surgirá outras vezes neste livro, como uma espécie de arauto de uma forma de escrever que tem as suas raízes no século XX, mas que parece reinventar-se agora num gesto partilhado por muitos escritores:

O coração é um órgão sem mistérios. O Karl Ove já olhou dentro de um cérebro humano vivo. Depois disso, ninguém conseguiu escrever melhor que ele.”

Assumido o obstáculo, o narrador avança. O luto também, mas parece não ter bússola. É multi-direccional, incontrolável, infiltra-se em todos os fragmentos que o narrador vai construindo. Recorrendo à artilharia clássica, Eros e Thanatos, o narrador abraça a hipótese do esquecimento, ou pelo menos de alguma anestesia, enquanto descobre os recantos de um corpo feminino. Calha que o corpo é o da sua professora de yoga, a Terapeuta Budista, uma das muitas panaceias a que sucumbiu no desespero de tentar não enlouquecer.

Há humor nesta fase – e alguma barafunda de gemidos, suores, tapetes de yoga manchados – como há em muitas passagens, algo que vem confirmar que o riso não é apenas alegria, mesmo que nunca deixe de ser inteligência. E há, mais adiante, a severidade do narrador perante o seu próprio projecto, quando revela, num fragmento, o conteúdo de um WhatsApp vindo da editora:

Oi, querido. O pessoal da editora está um pouco apreensivo. Quantas mortes você ainda pensa incluir no livro? Acha mesmo que essa mistura de sexo e morte funciona? Não seria melhor encerrar? Beijinho.” (pg.133)

Este é um romance com as costuras à vista, que faz avançar a sua trama a partir dessa visão despida, sem acabamentos. É nas costuras que está a unidade narrativa possível naquilo que, sendo reflexão a partir da morte, é também digressão pela vida. Podíamos ser uma história organizada, com tempos arrumados e factos em sucessão. Não somos e este narrador sabe-o de modo agudo. A simultaneidade de tudo, tempos, dores, memórias e dúvidas é o que faz de O Pai da Menina Morta uma unidade tão sólida, mais do que a morte, mais do que o luto. Dolorosa é a constatação de não haver redenção na literatura, por esta não ser a coisa em si, nunca deixando de ser uma imitação qualquer, uma aproximação, a hipótese minúscula de uma compreensão. “Quem morreu foi a sua filha. Você está apenas encenando a sua morte na forma estética. Não tem sangue de verdade, entende?” (pg.140) E o narrador entende, enquanto procura formas de impedir que o líquido vermelho que o anima se escoe todo de uma vez.

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