Título: “Palácio da Brejoeira. Dois Séculos de História”
Autor: Ernesto Português
Editora: Palácio da Brejoeira
Páginas: 304, ilustradas
Preço: 38 €

Muito conhecido pelo excelente alvarinho que produz, o Palácio da Brejoeira, nos arredores de Monção, bem merecia o livro que agora se publicou, contando os sucessivos altos e baixos da longa vida daquela que é considerada a casa senhorial mais estimável do extremo norte do país e cuja produção vinícola comercial, iniciada pelos anos 1970, se inspirou directamente na tradição dos châteaux franceses (p. 216). A arquitectura neoclássica da sua fachada principal — que muitos visitantes confundiram, num primeiro vislumbre, com a do Palácio da Ajuda (e alguns com a do agora malogrado palácio de São Cristóvão, que foi residência régia e imperial no Rio de Janeiro) — aparece amiúde nos escaparates de garrafeiras e supermercados como “marca clássica, por excelência, de maior notoriedade e prestígio desta monocasta” (p. 199); e os apreciadores deste alvarinho podem agora degustá-lo enquanto lêem e folheiam este livro que lhes conta uma história antiga que tem tanto de portuguesa como o invulgar sobrenome do autor que a escreveu.

Alianças familiares visando um reforço patrimonial que depois não se sabe gerir ou potenciar, protagonismos com prestígio social que não são produtivos e resistem mal aos infortúnios do tempo, heranças dispersivas, mas também, em contrapartida — aqui e ali — cuidado, instinto e zelo para contratar os melhores artistas e os técnicos mais capazes de reverter um declínio anunciado, brio de conservar e reinventar, de tudo um pouco se faz e fez uma história de dois séculos que parecia amiúde destinada ao aniquilamento mas que soube dar a volta por cima e encontrar o seu trilho.

Não se trata apenas duma história local com agentes locais, como seria de esperar de um lugar de pendor fronteiriço, mas que em momentos diferentes atinge o epicentro da vida económica da capital do reino: ramo dos fundadores é a família Pereira Caldas, activa nos grandes negócios comerciais de Lisboa, a ponto de o Palácio do Caldas — construção pós-terramoto, de 1765-75, oferecida para residência de Junot na invasão de 1807, hoje sede central dum partido político — e o patrocínio da construção do Teatro Nacional de São Carlos lhe estarem associados; mais tarde, é para uma herdeira de José Rovisco Paes, grande lavrador na Chamusca e em Pegões, industrial de cerveja e filantropo dos hospitais civis de Lisboa e da leprosaria da Tocha, que a antiga Quinta do Vale da Rosa é adquirida.

Mas o Palácio da Brejoeira também interessou, nos inícios do século passado, ao capitalista portuense, membro duma dinastia de armadores de navios, banqueiros e terra-tenentes, Pedro Maria da Fonseca Araújo — a venda em hasta pública revelou-se um excelente negócio (p. 121) para o então presidente da Associação Comercial do Porto e par do reino, a quem a recém-inaugurada linha férrea Porto-Valença facilitava muito o transporte para estadas de lazer e veraneio ­—, que ali viria a aplicar os seus “cabedais” e mobilizar Miguel Ventura Terra e José Marques da Silva, arquitectos de topo (este último desenhou-lhe o palacete no Campo Alegre em que residia), para obras de restauro e reabilitação que duraram uma década e deram ao edifício palaciano e à sua envolvente imediata as feições que tem hoje, e foram tanto uma “verdadeira revolução no visual exterior da quinta” como uma inteira renovação da sua decoração e imobiliário (p. 141), com compras a conhecidas manufacturas de Paris — a sala de teatro Apolo, projectada em 1912-13, inclui gessos a cargo de Avelino Ramos Meira, um mestre de obras portuense; o pórtico de entrada e a escadaria que leva ao andar nobre têm painéis de azulejos de autoria de Jorge Pinto versando uma vintena de temas da mitologia grega; e no jardim fez construir um lago e gruta artificiais, projecto confiado a Jacinto de Matos, um dos grandes jardineiros-paisagistas da época, também autor dos parques da Curia e das Pedras Salgadas, entre outros.

Nesta história palaciana que liga o Porto a Monção também aparece Emílio Biel, famoso e laborioso fotógrafo germânico mas igualmente representante de empresas alemães e nessa qualidade fornecedor do quadro eléctrico instalado na Brejoeira em meados de 1910; e D. António Barroso, bispo do Porto entre 1899 e 1918, também visita assídua, que ali passou parte do seu “exílio republicano” e voltaria para celebrar o casamento do filho mais novo, Eugénio da Fonseca Araújo, oficial do exército mais tarde empenhado na Monarquia do Norte (1919) e por tal também forçado a exílio, em Madrid.

Depois do breve apogeu de duas décadas e meia, a guerra europeia e a crise financeira internacional haveriam de dar golpes duros à gente e à vida do Palácio da Brejoeira. A casa comercial do conselheiro Araújo faliu (p. 128), a saúde do antigo autarca e governador civil do Porto foi vertiginosamente corrompida até à sua morte em Outubro de 1922 e, quatro anos mais tarde, seu filho Eugénio também não resistiu ao desespero das hipotecas e à ruína, suicidando-se. Sem demora, grandeza mobiliária e decorativa do palácio e terrenos extra-muros da quinta da Brejoeira seriam confiscados ou alienados, jardins sem cuidados exibiriam degradação — afectando também “muita gente que ali ganhava o seu sustento” (p. 179).

Um novo ciclo haveria de iniciar-se em 1933-37, com a venda a Francisco d’Oliveira Paes, comerciante de Lisboa e “familiar muito chegado”, indica o autor Ernesto Português, ao citado José Rovisco Paes, e supostamente por via dos créditos filantrópicos deste por Óscar Carmona tornado comendador em 1939. Foi numa viagem com a filha Hermínia ao Alto Minho, procurando uma propriedade que lhe oferecesse, que ambos deram de caras com o palácio e logo ficou decidido comprá-lo. Então com apenas 15 anos, Maria Hermínia Silva d’Oliveira Paes haveria de tornar-se, de 1962 a 2015, ano de sua morte, aos 98, o seguro e a garantia do Palácio da Brejoeira, desde logo por accionar o direito de remição num processo de execução por insolvência movido contra seu pai, em Lisboa, mas sobretudo porque passou a decidir ela mesma o tipo de exploração a implantar na quinta, onde também viria a residir.

Aparentemente, nada habilitava uma empresária especializada em equipamentos de artes gráficas, com sucursais nas colónias de Angola e Moçambique, a dirigir uma propriedade agrícola e içá-la a um patamar de excelência e grande prestígio, mas foi o que ela fez — com a audácia de ceder a sua terra para uma “exploração-piloto” do Posto Agrário de Braga, com vista a criar um vinho da Quinta Alvarinho, com a marca do palácio. Compreendendo o engenheiro agrónomo João Simões Vasconcelos, “um revolucionário para a sua época” (p. 200), deu acordo à reconversão sistemática do plantio das vinhas, abandonou a tradicional latada minhota e a recolha em dornas e cestos, criou parcelas em terrenos bem escolhidos e ensaiou diferentes porta-enxertos e sistemas de condução — e sobretudo contratou em 1974 o reputadíssimo enólogo Amândio Galhano, principal responsável pelo seu alvarinho, visitou o salão agrícola de Paris para ver o que faziam os vitivinicultores franceses (p. 216) e decidiu avançar para uma garrafa distintiva (infelizmente, nada é dito sobre a autoria do rótulo e da figura da garrafa). Sucessivos prémios e êxito comercial dentro e extra-fronteiras firmaram bons créditos que a fundação na propriedade da Real Confraria do Vinho Alvarinho (e primeira “entronização de confrades”) e a abertura do palácio ao enoturismo viriam reforçar em 2008-10. Num apontamento manuscrito, facsimilado na p. 207, Hermínia Paes escreveu em 1999: “Meu Alvarinho é meu fihlo | que ajudo a estar de pé, | quando eu cá já não estiver | alguém o fará por fé.” E não parece haver dúvidas quanto a isso.

O autor trabalhou muito e bem sobre fontes de arquivo e imprensa da época, mas teve também a sorte de contar com documentação que podemos considerar extraordinária: uma centena de cartas do mordomo e procurador do palácio João Luís Gomes ao general Augusto Xavier Palmeirim, “resgatadas em alfarrabistas da capital” (p. 15) e relativas aos derradeiros anos de vida do último morgado e à partilha da herança; e para período sequente, os registos diários dum barbeiro de Monção, António Sá Vieira, que durante cerca de três décadas aparou madeixas e rapou queixos ao capitalista Fonseca Araújo e seus descendentes imediatos. E refere fontes ilustres, como as conhecidas memórias de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, o inconfundível 7.º marquês de Fronteira, que ali passou com o marquês de Angeja durante a guerra civil e zurziu no “antigo coronel de milícias, conhecido pelo fidalgo da Brejoeira [Luís Pereira Velho de Moscoso], próximo parente da família Caldas, bem conhecida em Lisboa, o qual teve o mau gosto de, na província do Minho, jardim de Portugal e talvez da Europa, escolher para edificar a sua casa o sítio mais árido e mais triste que tenho conhecido neste país” — uma má impressão exagerada, decerto deixada por “um frio terrível” nessa “bela residência” “onde nada nos faltou”, mas em que os quartos tinham “chaminés que só serviam de aparato, porque se lhes não podia acender lume, por onde saísse o fumo” (cit. p. 62; itálicos meus).

O inquérito às últimas décadas do Palácio da Brejoeira também se baseia em testemunhos directos, ou indirectos, como este, que vale a pena lembrar, como prova da fibra e astúcia da “Dama do Vinho de Ouro” (p. 226), Maria Hermínia, afinal tão decisivas. Durante a revolução de 1974-75, um grupo de militares deslocou-se à Quinta em “reconhecimento da propriedade”. O caseiro telefona à senhora, então em Lisboa, pedindo-lhe instruções. “— Faz já uns pãezinhos com presunto, dá-lhes bastante vinho e acena com a cabeça a tudo que sim. E não há mais conversas! — Passadas umas horas, o Manuel voltou a ligar-me e disse-me: — Não se preocupe, minha senhora, que já foram embora a trocar o passo!” (p. 215). Foi remédio santo…