São Tomé e Príncipe

População são-tomense procura “saídas” num país confrontado com o desemprego

Em São Tomé, Zito, Selsiley, Mister, Ed, Mauro e Nelson lutam contra a atual situação económica e política do país e esperam uma mudança já nas próximas legislativas de 7 de outubro.

NUNO VEIGA/LUSA

Zito enche um carrinho-de-mão com a areia que apanha na marginal de São Tomé, o único rendimento da família. Uma “saída” num país onde o combate ao desemprego é tema na campanha eleitoral. Do outro lado do muro, está a praia, mas se forem lá buscar a areia, que se destina à construção, “a Polícia Marítima dá porrada”, contou o homem, de 43 anos, à Lusa, ainda antes das 9 horas.

Antes, Zito, com cinco filhos, trabalhou como pescador. “Perdi-me quatro vezes no mar, cheguei a estar mais de 20 dias sem comida nem água. Comia peixe cru, salgado, e molhava os lábios com água do mar”, conta, enquanto mostra as tatuagens que desenhou com uma agulha no braço esquerdo: uma borboleta, um escorpião, uma caveira, recordação desses dias em que viu a morte de perto.

Zito está revoltado com a atual situação económica e política do país e acredita que o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe — Partido Social Democrata (MLSTP-PSD), o principal partido da oposição, vai vencer as legislativas de 7 de outubro, destronando a Ação Democrática Independente (ADI), do primeiro-ministro, Patrice Trovoada, que venceu as últimas eleições com maioria absoluta.

“Este país está horrível, horrível”, critica, enquanto relata que, num comício recente em São Tomé, o líder da ADI “disse ao povo que ‘quem falha, come'”. “Isso não se diz. Nós somos são-tomenses, devíamos estar assim”, comenta, enquanto entrelaça os dedos. Zito prefere Jorge Bom Jesus, líder do MLSTP-PSD, ministro da Educação do executivo anterior: “Fez muito pelos alunos”.

Ao início da tarde de um dia de semana, uma dezena de homens, com idades entre os 20 e os 30 anos, senta-se à beira da estrada, numa ‘terriola’ no litoral sul da ilha de São Tomé. Têm um jarro de plástico cheio de vinho da palma, a bebida típica do país, que extraem das palmeiras duas vezes por dia. “Quando é acabada de fazer, é doce, mas umas horas depois fica alcoólica”, explicou Selsiley, guia turístico, à Lusa. Ao lado deles, um alguidar cheio de água com espuma, onde passam copos de plástico ou de vidro, antes de os voltarem a encher. Duas doses custam 50 dobras (dois euros).

Selsiley descreve que os homens “vivem disto, vendem vinho da palma, têm uns animais [de criação], comem fruta-pão, matabala”. Aqui, onde a energia elétrica ainda não chegou, “deitam-se cedo, às 18 horas já está escuro”.

“Aqui em São Tomé mais de metade da população está desempregada”, afirma o jovem da capital, 27 anos e dois filhos. “Mister” transporta turistas entre a ilha principal e o ilhéu das Rolas. Tem 65 anos, sete filhos, 31 netos e dois bisnetos. “Sei os nomes deles todos. Quase todos”, conta. Foi “feitor”, o responsável máximo, de uma empresa portuguesa durante quase 20 anos, mas depois da nacionalização, ficou no desemprego.

“Recebo subsídio”, relata, enquanto explica que os passeios de barco são “um complemento” à pensão. Tal como a ‘ajuda’ que pede aos visitantes para lhes mostrar o caminho, floresta acima, até ao marco da Linha do Equador, no ilhéu: “Quando o turista tem bom coração, dá 10, 20 euros”.

Na capital, “Ed”, 19 anos, aproveita as manhãs livres, antes da escola, para ajudar no artesanato, o negócio da família. É o mais velho de três irmãos. Faz canoas, ímanes e porta-chaves em madeira de cedrela, na roça Agostinho Neto, no norte da ilha, para depois vender em São Tomé, mas nem sempre consegue ir lá: “Quando vendo algum artesanato, consigo comprar bilhete, ou então peço uma boleia”. Ed veste uma t-shirt da ADI, onde se lê “Patrice Trovoada”, sinal da campanha eleitoral que está a decorrer. É no atual primeiro-ministro que vai votar, garante.

Mauro perdeu o emprego quando o banco do Equador fechou portas. “Enviei currículos para todos os meus amigos, para todo o lado, mas não há emprego. Tirei formação de guia turístico, para ver se consigo trabalhar, mas está difícil”, contou. O homem diz compreender as críticas ao Governo de Patrice Trovoada (ADI) — o aumento do custo de vida, a subida dos impostos: “O país estava muito endividado. Temos dívidas até aqui”, disse, apontando para o pescoço. “Mas o primeiro-ministro conseguiu que o FMI não nos voltasse as costas”, sublinhou.

Nelson, 34 anos, trabalhava numa instituição que desenvolvia um projeto, na área da saúde, da cooperação portuguesa, mas diz que, com a entrada do Governo da ADI, foi despedido. “O responsável máximo era de outro partido. Saímos uns 12 ou 13”. Ao fim de “quatro ou cinco meses em casa”, Nelson conseguiu encontrar trabalho num hotel. “É bom”, diz, com um encolher de ombros.

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