Dois dias depois de estarem juntos nas comemorações, a 5 de Outubro, da laicíssima I República, as três primeiras figuras do Estado deverão voltar a cruzar-se numa pequena aldeia do concelho de Sintra para uma festa religiosa com 250 anos de tradição. Trata-se das festas de Nossa Senhora da Graça em Almoçageme, freguesia de Colares, uma celebração que terá o seu ponto alto no domingo, dia 7, com a tradicional procissão solene.

Marcelo Rebelo de Sousa, conhecedor destas festas em anterior edição, já disse que estaria presente. António Costa, que tem a sua residência principal a poucos quilómetros, em Fontanelas, também não deverá faltar, tal como Ferro Rodrigues, que possui uma segunda habitação naquela povoação situada junto à praia da Adraga.

E eis que chega o CARTAZ COMPLETO! As Festas de Almoçageme – 250 anos! têm o prazer de poder contar com grandes nomes…

Posted by Festas de Nª Srª da Graça – Almoçageme on Thursday, September 27, 2018

A organização das festas de 2018 tem mobilizado mais vontades e recursos do que é habitual, o que é visível no cartaz dos artistas que animarão as noites de Almoçageme nos próximos dias – Herman José, no dia maior que será domingo dia 7, mas também Quim Barreiros, Tatanka e António Zambujo, Toy e Van Breda. Tudo porque este ano celebram-se 250 anos de realização ininterrupta de umas festas de onde nunca se sai sem saber quem fica responsável por organizar as do ano seguinte, assim se tendo assegurado que nunca houvesse interregnos.

Com efeito tudo começou em 1768 quando, 13 anos depois do terramoto de 1755, ficou pronto o novo templo, uma igreja consagrada a Nossa Senhora da Graça erguida numa “terra de semeadura” como forma de um “reconhecido júbilo pelo facto de o violento sismo do dia de Todos-Os-Santos de 1755 não ter provocado senão danos materiais” na povoação. Inaugurada a igreja a 15 de Agosto, consagrou-se o primeiro domingo de Outubro para a festa em honra da Senhora da Graça, assim se criando a tradição de “uma romagem numa terra a que não acudia qualquer romagem”.

Cartaz das festas de 1925. Nessa altura, ainda na I República, não se fazia qualquer referência à tradicional procissão.

A povoação, que antes se situaria mais para os lados de Santo André – junto à actual estrada do Rodízio, onde de resto foram descobertas no início do século passado as ruínas daquela que terá sido a vila romana situada mais a ocidente de toda a Europa, ainda só parcialmente escavadas e recuperadas –, deslocou-se desde então para a zona da igreja, organizando-se em torno de um largo de características singulares em Portugal. Aliás isso mesmo escreveu o arquitecto Nuno Teotónio Pereira no livro“Guia Sentimental – Parque Para Que Te Quero”, quando considerou que Almoçageme era “uma aldeia onde se pode encontrar um largo que penso que deve ser caso único no país, pois nele se reúne tudo o que pode estar num largo de aldeia. É qualquer coisa de excepcional, pois tem cemitério, igreja, mercado, coreto, fontanário, cruzeiro, café, bombeiros e adega. Tudo numa aldeia agradável e humana onde os naturais ainda são mais numerosos que os forasteiros.”

É precisamente esse largo que será o palco central da festa, com as instalações de som bem em frente das janelas da única casa com vista privilegiada para a Igreja e o coreto: aquela em que vive Miguel Esteves Cardoso. E como ele um dia notou, estas “festas são feitas pelos habitantes de Almoçageme e festejadas por eles, incluindo serem bons anfitriões das muitas visitas que recebem. Em Almoçageme ainda se sabe conversar e ainda há curiosidade em conhecer outras pessoas.”