Em abril de 2005, o Chelsea recebeu o Bayern Munique em Stamford Bridge num jogo a contar para a primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões. O filho de Andy Saunders, um adepto dos blues, tinha sido escolhido para ser uma das crianças a acompanhar os jogadores do clube de Londres durante a entrada no relvado. Mas à chegada ao túnel, o representante da UEFA explicou a Andy que o Bayern Munique não tinha levado para Londres quaisquer crianças para acompanhar os jogadores e que, por isso, o Chelsea também não o poderia fazer. Ao chegar ao túnel de acesso ao relvado, John Terry viu que o ambiente não era o melhor e perguntou o que se passava. Quando lhe explicaram a situação, garantiu que ia de mão dada com o rapaz para dentro de campo. Ignorou os ultimatos do representante da UEFA, entrou em campo com a criança e uma semana depois Andy Saunders recebeu uma carta do Chelsea onde lhe era dito que John Terry tinha pessoalmente pedido que o rapaz fosse um dos acompanhantes do jogo seguinte do clube. O adepto do Chelsea guardou a história durante treze anos e só a contou esta segunda-feira – o dia em que o histórico capitão dos blues anunciou o final da carreira.

John Terry não é nem nunca chegou a ser consensual. Considerado por muitos um dos melhores defesas centrais da sua geração, é também considerado por muitos outros um dos jogadores mais sobrevalorizados destes 18 anos de século XXI. Opiniões à parte, a verdade é que o inglês de 37 anos marcou uma fase inédita e histórica do Chelsea e será para sempre recordado como o capitão de uma equipa que fez com que um clube passasse da segunda linha do campeonato inglês para a primeira linha do futebol mundial.

Depois de descobrir o futebol nos habituais torneios de domingo nos arredores de Londres – onde se cruzou com os futuros colegas de profissão Sol Campbell, Jermaine Defoe e Bobby Zamora -, John George Terry chamou à atenção dos olheiros da formação do West Ham, que o descobriram em 1991, quando o inglês tinha apenas 11 anos. Na altura, era médio-centro. Três anos depois, aos 14, as boas exibições e a garra que já demonstrava com a camisola do West Ham atraíram o Chelsea – a falta de defesas centrais na formação dos blues fez com que os treinadores o começassem a colocar mais atrás, no eixo da defesa, e Terry empenhou-se em desenvolver capacidades de central que fizeram com que nunca mais saísse daquela zona do terreno.

Mourinho e Terry: uma dupla de sucesso em Stamford Bridge

Assinou o primeiro contrato profissional com o Chelsea com 16 anos e estreou-se na equipa principal num jogo da Taça da Liga de 1998, aos 18 anos, ao saltar do banco nos últimos minutos de uma partida com o Aston Villa. A primeira titularidade chegou ainda na mesma temporada, numa terceira eliminatória da FA Cup frente ao Oldham Athletic, mas Terry acabou por ser emprestado ao Nottingham Forest em 1999 para manter a pequena pérola da formação do clube londrino a rodar enquanto não tinha lugar na equipa principal. O empréstimo era de apenas um ano e o central integrou a pré-época do Chelsea em 2000/01 – longe de imaginar tudo aquilo que os próximos meses iriam trazer.

Marcel Desailly, campeão mundial e europeu ao serviço da seleção francesa e instituição no Chelsea, era dono e senhor do eixo da defesa dos blues e capitão de equipa. Mas faltava-lhe parceiro. O plantel até incluía um número anormal de defesas centrais (Frank Leboeuf, Winston Bogarde, Graeme Le Saux, Mario Melchiot, Pierre Issa, Bernarde Lambourde e Jon Harley), mas nenhum era solução para Claudio Ranieri. Terry, com o sangue na guelra de quem tem 20 anos e não quer voltar a ser emprestado, mostrou ser o parceiro ideal para o veterano Desailly, na altura já com 32 anos.

Ranieri confiava nele. Deu-lhe espaço para crescer, colocou-lhe o mentor certo ao lado e em 2003/04 pôs-lhe a braçadeira no braço sempre que Desailly não estava. Em 2004, o francês saiu do Chelsea para uma pré-aposentação no Qatar – quase concomitantemente, José Mourinho saiu do recém-campeão europeu FC Porto e chegou a Stamford Bridge. O treinador português olhou duas ou três vezes para o plantel que tinha em mãos e não teve grandes dúvidas: escolheu John Terry para capitão de equipa e assim seria durante os onze anos seguintes. Mourinho e Terry – aliados a Lampard – são a dupla mais frutífera da história do Chelsea e foi com português no banco e inglês em campo que os blues conquistaram a Premier League duas consecutivas e inéditas vezes.

Ao serviço do Aston Villa, o clube que representou em 2017/18

Já depois da saída de José Mourinho de Londres, John Terry conquistou com a camisola e a braçadeira do Chelsea outras três Premier Leagues e outras três FA Cup – para além de uma Liga dos Campeões e uma Liga Europa. Ao serviço dos blues, entre 1998 e 2017, o internacional inglês cumpriu 717 jogos e marcou 41 golos: no último jogo pelo clube londrino, já depois de anunciar que deixaria Stamford Bridge no final da temporada 2016/17, foi substituído ao minuto 26 – o número da camisola que vestiu durante quase 20 anos – da partida com o Sunderland e viu os colegas formarem uma guarda de honra até sair do relvado. Foi para o Aston Villa, o clube contra o qual se estreou pela equipa principal do Chelsea, e foi imediatamente promovido a capitão de equipa. O contrato tinha termo de um ano e Terry anunciou que não renovaria em maio passado, depois do clube falhar a promoção à Premier League. Ainda fez testes médicos no Spartak Moscovo durante o mês de setembro mas recusou a proposta por “razões familiares”. Esta segunda-feira, vinte anos depois daquele primeiro jogo profissional na Taça da Liga, John Terry revelou no Instagram que chegou o momento de colocar um ponto final na carreira.

Os rumores dizem que não vai fugir para longe: vários meios de comunicação social ingleses avançaram nos últimos dias que o Aston Villa pretende contratar Thierry Henry, antigo jogador do Arsenal e da seleção francesa e atual treinador-adjunto da seleção da Bélgica, para ser o novo técnico do clube. E, se assim for, a probabilidade de Aston Villa e Henry convidarem Terry para ser o número 2 do francês é bastante elevada.

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A carreira que agora termina também tem, porém, mais momentos tristes do que vitórias, títulos e conquistas: desde desacatos com turistas norte-americanos no dia a seguir aos atentados do 11 de setembro, um polémico caso extraconjugal com a namorada do então colega de equipa Wayne Bridge (que fez Fabio Capello, selecionador inglês na altura, tirar-lhe a braçadeira na seleção) e ainda insultos racistas ao também futebolista Anton Ferdinand, irmão de Rio Ferdinand, antigo jogador do Manchester United. A agressividade e assertividade que demonstrava em campo – com os voos em que parecia ficar parado no ar, as bolas paradas em que era imparável e os um para um em que se tornava impossível de ultrapassar – eram características pessoais de John Terry que lhe trouxeram dissabores dentro e fora das quatro linhas.

Mas é por atitudes como a de abril de 2005, quando levou o filho de Andy Saunders para dentro de campo à revelia da UEFA, que John Terry é um ícone do futebol internacional do início do século XX. Um ano depois de Stamford Bridge se ter despedido do seu capitão, é a vez de Inglaterra se despedir do homem que usou uma braçadeira todas as semanas durante mais de 15 anos.