África do Sul faz história: o primeiro transplante de mãe infetada com o vírus da imunodeficiência humana (HIV na sigla inglesa) realizou-se sem que houvesse transmissão do vírus para o bebé. Anúncio foi feito na semana passada pela Unidade de Transplante do The Wits Donald Gordon Medical Centre, em Joanesburgo.

A operação ocorreu em 2017, mas  só agora foi conhecida. A mãe doou o fígado ao seu bebé — na altura, o bebé tinha 13 meses e a mãe era portadora de HIV. Segundo a cadeia televisiva CNN, inicialmente haveria três potenciais dadores, mas dois destes acabaram por ser considerados inaptos. Sobrou a mãe.

Por lei, as pessoas infetadas com o vírus HIV estão impossibilitadas de fazer doações, dado que o vírus pode ser transmitido através do tecido doado. A mãe, ao ver o seu filho deteriorar-se, pediu aos médicos que reconsiderassem. Nesse sentido, e após o bebé estar à espera de um transplante durante 180 dias, o cirurgião responsável pelo departamento de transplantes da unidade hospitalar, Jean Botha, decidiu avançar. ”A chance de salvar uma vida era superior ao risco de possível transmissão”, conta.

Sobre a possibilidade do transplante resultar na infeção do bebé, o médico foi claro: ”era a escolha entre a morte e viver razoavelmente bem com uma doença tratável, acho que eles [médicos] fizeram uma escolha bastante razoável”

Jean Botha explicou todo o procedimento da operação ao jornal AIDS. Primeiro, a mãe da criança foi monitorizada durante seis meses consecutivos para que fosse garantido que os níveis de  CD4 (molécula que se expressa em algumas células e tem por objetivo combater a infeção do vírus) estivessem normalizados. Depois, apenas parte do fígado da progenitora foi usado, uma vez que o órgão tem a capacidade de regeneração, tornando-se completo. Por outro lado, o bebé foi medicado com 3 antiretrovirais na noite anterior à operação, de modo a prevenir a transmissão do vírus.

Mas o grande feito não terminaria por ali. ”Nas semanas seguintes ao transplante, pensámos que a criança tivesse sido infetada pelo vírus HIV, porque detetámos a presença de anticorpos de HIV”, relata o médico à CBC, uma cadeia de televisão canadiana. Contudo, as suspeitas viriam a ser dissipadas quando os especialistas do Instituto Nacional das Doenças Transmissíveis da África do Sul voltaram a fazer novos testes e não foi detetada qualquer infeção ativa no bebé.

A África do Sul tem o maior programa de terapia antiretroviral do mundo, melhorando a vida de muitos seropositivos. No entanto, e de acordo com os médicos, há dois detalhes que tornam este caso único: é a primeira doação de fígado de um dador infetado vivo — nos outros casos, os doadores estavam mortos — e é também o primeiro transplante de fígado de um dador seropositivo para um recetor HIV-negativo.

Esta novidade prova que, ao longo dos anos, é notória a evolução no ramo da saúde. Recorde-se que a partir desta quarta-feira é possível, em Portugal, comprar testes rápidos de despiste do vírus da sida e das hepatites.

De salientar ainda que há cerca de 7 milhões de sul-africanos infetados, o equivalente a 13,1% da população, de acordo com estudo do serviço de estatística do país realizado em 2018  (STATS SA).