Neurociência

A ilusão que leva o cérebro a “viajar no tempo”

Há uma nova ilusão ótica e auditiva que mostra como o cérebro consegue "viajar no tempo" para arrumar ideias e construir memórias. Experiência foi criada por cientistas da Caltech. Experimente-a aqui.

Uma equipa de cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) inventou uma ilusão que explica como o cérebro “viaja no tempo” para conseguir gerir a informação com que é bombardeado através dos cinco sentidos. Essa ilusão — que tem uma componente ótica e outra auditiva — foi publicada no canal do Caltech no YouTube e, segundo os cientistas, prova que “os sentidos podem influenciar-se uns aos outros, em particular o som pode dar origem a ilusões visuais”. Esta experiência é dos primeiros trabalhos científicos “a mostrar este tipo de ilusão de viagem no tempo através de múltiplos sentidos”, acredita a equipa.

Nesse vídeo, que pode ver aqui em cima, o Caltech desafia o internauta a concentrar-se numa cruz preta no centro de um ecrã cinzento e a contar quantos flashes aparecem por baixo dessa cruz. O vídeo está separado em três partes: na primeira, os flashes aparecem acompanhados de sinais sonoros; na segunda aparecem em silêncio; e no terceiro voltam a aparecer com sinais sonoros associados. Em cada uma das partes, a maioria das pessoas diz ver três flashes: o primeiro e o terceiro aparecem à esquerda e à direita e o segundo flash aparece entre esses dois. Mas, como desvendam os cientistas, na realidade só aparecem dois flashes ao longo do vídeo, embora se oiçam três sinais sonoros.

A primeira parte da experiência chama-se Coelho Ilusório. Um flash no canto inferior esquerdo e um sinal sonoro muito curto aparecem quase simultaneamente no vídeo; depois, 58 milissegundos mais tarde, ouve-se um segundo sinal sonoro muito curto; e a seguir, 58 milissegundos depois, um flash no canto inferior direito surge quase ao mesmo tempo que o terceiro sinal sonoro. O curioso é que, apesar de só haver dois flashes no vídeo, a maior parte das pessoas vê três. E todas as que veem esse flash invisível dizem que ele surge no centro do ecrã ao mesmo tempo que o segundo sinal sonoro.

A segunda parte da experiência chama-se Coelho Invisível. Desta vez, aparecem de facto três flashes no ecrã: o primeiro no canto inferior esquerdo, o segundo a meio do monitor e o terceiro no canto inferior direito. O primeiro e o terceiro flashes é que surgem acompanhados por sinais sonoros, mas a maior parte das pessoas só vê dois desses flashes, como se ignorassem aquele que não aparece ao mesmo tempo que o som. Segundo o Caltech, “a ausência do segundo sinal sonoro leva o cérebro a decidir que na verdade não havia flash, embora estivesse de facto presente”.

Noelle Stiles, uma das criadoras do estudo, explica em comunicado de imprensa que “o cérebro usa suposições sobre o meio ambiente para determinar a realidade com base em informação que é barulhenta e confusa vinda de sentidos múltiplos”: “Quando essas suposições acontecem erradamente, podem ocorrer ilusões quando o cérebro tenta determinar o que faz mais sentido numa situação confusa”, concretiza. E isto acontece tão rápido que mesmo um estímulo que acontece mais tarde pode afetar as perceções que temos de um evento anterior. A este fenómeno chamamos “postdiction” em inglês, uma palavra que em português pode ser traduzida para “retrodição”.

No caso particular desta ilusão ótica e auditiva, “o cérebro assume que deve ter perdido o flash associado ao sinal sonoro não emparelhado e literalmente inventa sozinho o facto de que deve ter havido um segundo flash que ele perdeu”: “A chave para ambas as ilusões é que os estímulos sonoros e visuais ocorrem rapidamente, em menos de 200 milissegundos (um quinto de segundo). O cérebro, na tentativa de dar sentido a essa barragem de informações, sintetiza os estímulos de ambos os sentidos para determinar a experiência, usando a retrodição para fazê-lo”, conta Noelle Stiles.

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