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João Mendes documentou a história do heavy metal português para que não se esquecessem dela

O primeiro documentário sobre o heavy metal em Portugal foi apresentado no passado dia 6 de outubro perante uma plateia de mais de 200 pessoas. O produtor João Mendes fala num momento "histórico".

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João Mendes produziu, com a ajuda da irmã, o primeiro documentário sobre o heavy metal em Portugal

© Teresa Ribeiro

João Mendes produziu, com a ajuda da irmã, o primeiro documentário sobre o heavy metal em Portugal

© Teresa Ribeiro

Passou uma semana desde que “Heavy Metal Portugal”, o primeiro documentário sobre a história do heavy metal português, foi apresentado. A sessão, que muitos acharam que nunca iria acontecer devido aos sucessivos atrasos na produção, decorreu no sábado, no Auditório Centro Engenheiro Eurico de Melo, perante uma plateia cheia. Foram mais de 200 as pessoas que se deslocaram até a Santo Tirso para assistirem em primeira mão a “algo histórico, nunca antes feito” em Portugal, como descreveu o produtor João Mendes numa mensagem de agradecimento publicada no dia seguinte, 7 de outubro, no Facebook. E poucos parecem ter ficado desiludidos: ao Observador, Mendes garantiu que o “feedback tem sido extremamente positivo”, que tem recebido “muitos elogios” e que até houve “malta que não gosta do estilo” a elogiar o documentário. “Confesso que estou à procura daquela crítica que deita abaixo ou que é maldosa sem sentido, e até ao momento ainda não encontrei”, disse o produtor.

A ideia de fazer um documentário sobre a história do heavy metal nacional não surgiu de um momento para o outro. João Mendes, de 39 anos, estava na faculdade quando pensou em realizar um projeto assim, aproveitando o material que tinha acumulado ao longo dos anos. “Já tinha filmado muitas bandas e tinha feito um canal de Youtube, na última fase da faculdade”, contou ao Observador. Numa altura em que a música era muitas vezes de difícil acesso, sobretudo no meio underground, João ia trocando cassetes com os amigos e conhecidos. mas também os vídeos que fazia, em formato VHS. “Fui acumulando arquivo que mais ninguém tinha. Fazer o documentário foi um passo lógico”, explicou. Além dos pedidos que recebia das bandas que filmavam, que lhe diziam que devia fazer “alguma coisa” com o que tinha, João Mendes, com formação na área do audiovisual, sentiu que um documentário sobre o heavy metal português seria “um passo natural”. Para isso contribuiu em parte a situação de desemprego, que levou a que “arriscasse” e fizesse o filme “com o apoio pontual da irmã”, Sónia Mendes, que assina a produção juntamente com João.

Dito assim parece fácil, mas “Heavy Metal Portugal — O Documentário” é fruto de um processo longo e moroso, que consumiu cinco anos da vida de João Mendes, “sem férias, sem nada”. Os muitos atrasos e imprevistos foram adiando a conclusão da longa-metragem, anunciada em 2015. De tal forma que muitos chegaram a temer que nunca se concretizasse. Ou pior ainda: que nunca chegasse sequer a existir.

Contar a história através das palavras de quem a viveu

“Heavy Metal Portugal” vive sobretudo de entrevistas. Dividido em quatro partes, o documentário inclui o testemunho de mais de uma centena de intervenientes — músicos, produtores e divulgadores, que contribuíram de alguma forma para o desenvolvimento do género musical e de todas as suas vertentes em solo nacional, desde as primeiras bandas de rock mais pesado até à atualidade, passando pelo grande boom dos anos 90 e pelo surgimento de subgéneros como o black e o death metal. Dos 135 entrevistados, apenas dois ficaram de fora por não terem entregue a declaração de direitos de imagem a tempo. O número é elevado, mas João Mendes garante que gostava de ter mais contribuições. Contudo, garante que o resultado final é “o mais representativo possível”. “Temos aqui uma ou outra lacuna, mas não foi por falta de convite”, afirmou o produtor, revelando que foram contactadas mais de 300 pessoas.

Isto significa que, além de ser o primeiro documentário sobre a história do heavy metal português, o filme de João Mendes é também o registo que maior número de testemunhos inclui. Isso criou, naturalmente, algumas dificuldades, sobretudo de ordem técnica. Até porque chegar à fala com estas três centenas de pessoas foi bastante fácil — os contactos foram sendo cedidos por amigos e conhecidos, e o Facebook também deu uma grande ajuda. “Se não fosse o Facebook, era muito mais complicado”, admitiu o produtor. Para realizar as entrevistas, João montou um estúdio em casa, em Santo Tirso, mas o facto de muitas bandas serem originárias da zona da grande Lisboa obrigou-o a fazer várias viagens à capital. Ao todo, terá passado 18 dias, não consecutivos, na cidade. Houve, contudo, alguns músicos lisboetas que acabaram por ser entrevistados no norte. “Quando as bandas de Lisboa iam tocar ao Porto, ia buscá-las e fazia aqui [em casa] as entrevistas”, explicou.

O documentário foi apresentado a 6 de outubro no Auditório Centro Engenheiro Eurico de Melo, em Santo Tirso

Apesar de ter demorado cinco anos a concluir o documentário, João Mendes não sabe dizer ao certo quanto tempo passou a fazer as entrevistas. Talvez “mais de ano e meio”, atirou. “Foi mais longo do que estava à espera por causa de desistências, alterações de data”, mas também pelo facto de muitos dos possíveis entrevistados terem, entretanto, saído do país. João ainda tentou realizar algumas das entrevistas por Skype, mas como a qualidade do som e imagem não era a melhor, acabou por optar por não as fazer. A edição foi, porém, a parte que acabou por demorar mais tempo, dificultada por uma série de imprevistos. Um deles esteve relacionado com a mistura de som: “Agora a fechar isto tudo, tive de mudar a pessoa que estava a fazer a mistura de som porque não tinha tempo [para trabalhar no documentário]. Só agora é que a conseguimos acabar. Todo este trabalho de editar demora sempre algum tempo e nós tivemos alguns atrasos”, explicou João, admitindo que tanto ele como a irmã gostavam “que o filme estivesse cá fora há mais tempo”.

A última entrevista de Phil Mendrix

O documentário arranca com as origens do heavy metal em Portugal, um capítulo que ocupa uma parte substancial do filme. Depois de uma breve introdução — em que vários entrevistados contam como foi o seu primeiro contacto com este estilo musical –, surge o testemunho de músicos ligados à cena do rock dos anos 60 e 70 e a bandas como Xeque-Mate, NZZN e Arte & Ofício, entre outras, cujas dificuldades contrastam fortemente com as facilidades dos músicos mais novos, entrevistados na reta  final do documentário. Phil Mendrix, lenda do rock português, também aparece durante aquela que será muito provavelmente a sua última entrevista. O guitarrista morreu no passado mês de agosto, aos 70 anos, deixando um importante legado.

Com mais de 50 anos de carreira, Mendrix atravessou vários períodos do rock nacional, integrando grupos como os Chinchilas, Heavy Band, Roxigénio e, mais recentemente, os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita de Manuel João Vieira. No início do documentário, o músico conta como aprendeu a tocar guitarra de forma “completamente autodidata, excetuando o método que o meu avô me ensinou de posições”. “Fui aprendendo, vendo ouvindo. Ouvindo sobretudo”, explica. Mais à frente, fala de algumas bandas em que participou, nomeadamente da Heavy Band, banda formada no início dos anos 70 antes dos Roxigénio, já da década de 1980.

Durante a hora e meia que durou a entrevista concedida a João Mendes, Phil Mendrix, mostrou-se sempre “muito acessível”, “humilde” e contou “muitas histórias”. Algumas delas ficaram imortalizadas na longa-metragem, mas houve muito material que ficou por usar. João não põe por isso de lado a hipótese de vir a lançar um filme com a entrevista na íntegra, mas admite que, neste momento, não tem disponibilidade para isso. Além do mais, nunca o faria sem falar primeiro com a família, o que ainda não aconteceu. O produtor, que admitiu ter ficado “um bocado chocado com a notícia da morte do músico”, dedicou-lhe o seu trabalho durante a apresentação de “Heavy Metal Portugal” em Santo Tirso.

O primeiro festival, o álbum ao vivo que nunca saiu e outras peripécias do heavy metal português

A segunda parte do documentário é dedicada às primeiras bandas portuguesas de heavy metal, como os Ibéria ou os Tarântula. São também referidos grupos como os Vasco da Gama, os primeiros a editar um LP, no ano de 1983. Data também desse período a realização do primeiro festival de heavy metal, em Santo António dos Cavaleiros, que teve de acabar mais cedo por falta de licenças. Os cabeças de cartaz nem chegaram a tocar. Já mais tardia, de junho de 1987, é a série de concertos no mítico Rock Rendez-Vous, em Lisboa, que deveria ter dado origem ao primeiro álbum ao vivo de heavy metal português, o que não veio a acontecer. As gravações estão desaparecidas desde então e ninguém sabe o que lhes terá acontecido.

O capítulo “A Afirmação do Heavy Metal Nacional” conta com o testemunho de músicos (e não só) ligados às bandas que surgiram no final dos anos 80 e inícios de 90, como é o caso dos Decayed, Moonspell, Sacred Sin ou Heavenwood. É dado também algum destaque ao death metal, black metal e grindcore, géneros que tiveram mais expressão a partir do início da década de 1990. A última parte tem, ao contrário dos capítulos anteriores, os olhos postos no futuro e fala das expectativas (ou falta delas) de músicos e promotores.

Tudo isto é contado através dos testemunhos dos entrevistados. O documentário não tem narração, tendo João Mendes recorrido a imagens e pequenos clips de atuações ao vivo (alguns gravados por si, outros cedidos pelas bandas) para separar as conversas. A ideia era fazer “as coisas de maneira diferente”, com o produtor a admitir que, “pessoalmente”, sempre preferiu “assim” — sem narração –, “a ter alguém a contar o que se passou”. “São as pessoas que contam a história, é tudo focado nisso. Neste caso, arrisquei. Foi um risco que corri”, admitiu. Isto tem vantagens — mais espaço para os entrevistados relataram os acontecimentos à sua maneira, por exemplo –, mas também tem desvantagens.

Uma vez que não é fornecida mais nenhuma informação além daquela que é adiantada pelos próprios músicos, torna-se difícil seguir o fio à meada, principalmente para quem não tem um conhecimento profundo da história do underground nacional. Ainda que o documentário esteja organizado cronologicamente (à exceção do capítulo introdutório), há muitas datas importantes que ficam por dizer. Teria sido também relevante incluir mais informação acerca das bandas, os seus membros, editoras e locais referidos. Mas, mais uma vez, a falta de datação também foi propositada: “Podia ter datado, mas não quis. Arrisquei um bocadinho”, disse João Mendes, acrescentando que a cronologia é “percetível” devido à forma como as entrevistas estão enquadradas “dentro de cada um dos separadores. “Alinhei mais por aí e não quis especificar datas.” Além disso, “queria que as pessoas fossem pesquisar”.

Ao Observador, João Mendes explicou que o objetivo final de “Heavy Metal Portugal” é sobretudo “histórico”. O produtor, que começou a ouvir metal no final dos anos 80 com a irmã Sónia, quis documentar “o estilo, as bandas e as pessoas”, mostrando muitas das dificuldades por que passaram os grupos mais antigos e dando a conhecer algum do material que foi acumulando e que entretanto conseguiu encontrar. “Porque há pessoas que conheci e que já morreram. Porque tudo cai no esquecimento” e porque “é pena” que certas coisas fiquem perdidas.

Tudo isto foi feito com dinheiro tirado do seu bolso que, se calhar, “nunca vai ter retorno”. “Sabia que era um risco e assumi-o desde o primeiro dia. Não me arrependo de nada. Tenho pena de não ter mais bandas dos Açores e alguma da Madeira, mas não tinha dinheiro para lá irmos. Disso tenho mesmo pena”, afirmou, acrescentando que está de “consciência tranquila”. “Heavy Metal Portugal” é o melhor que conseguiu fazer com aquilo que tinha, tendo por isso “todas as condicionantes de um filme independente”. “Gostávamos que tivesse sido de maneira diferente, mas não foi mesmo possível. Há uma coisa curiosa: muitas pessoas que nos mandam emails ou nos escrevem para página a dar os parabéns pela iniciativa, costumam mandar um abraço à equipa. Mas a equipa não existe. A equipa sou eu, agora quase a 100 por cento, e a minha irmã pontualmente. A equipa são estas pessoas pontuais.”

Desde a apresentação a 6 de outubro, o número de interessados em comprar uma cópia do filme tem vindo a aumentar. E isso é “fundamental”, como explicou João Mendes: “Não temos apoios e precisamos de vender DVDs. De outra forma não é possível haver outro trabalho deste género”. A longa-metragem — que tem por objetivo homenagear todos aqueles que contribuíram para o desenvolvimento do heavy metal em Portugal, contribuindo assim para que a sua história não seja esquecida — foi produzida sem qualquer tipo de apoio, financeiro ou de outro tipo, sendo essa uma das razões pelas quais demorou tanto tempo a ver “a luz do dia”. Mas cinco anos e alguns imprevistos depois, João Mendes pode finalmente respirar em paz. O primeiro documentário sobre o heavy metal português é uma realidade.

O documentário “Heavy Metal Portugal — O Documentário” pode ser adquirido através do endereço de email heavymetalportugalodoc@gmail.com ou nas apresentações de Lisboa e Porto, numa data ainda por anunciar. Custa 15 euros (mais portes).

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