Luís Aragonés, Vicente Del Bosque. Europeu, Mundial, Europeu. Depois do insucesso no Campeonato de Europa realizado em Portugal, em 2004, a Federação de Espanha acertou na escolha de um perfil de técnico mais experiente, de consensos, de grupo. Soube jogar com a qualidade de uma nova geração influenciada pelo tiki taka do Barcelona, acrescentou as outras mais valias que não jogavam nos catalães mas olhavam para o futebol com a mesma veia romântica e conquistou, entre 2008 e 2012, as três grandes provas de seleções realizadas na Áustria/Suíça, na África do Sul e na Polónia/Ucrânia. Depois, desceu à terra. Falhou no Brasil, em 2014, não passando sequer da fase de grupos de um Campeonato do Mundo ganho pela Alemanha mas muito aquém para os europeus; caiu nos oitavos em França, em 2016, quando perdeu com a Itália nos oitavos do Europeu. E mudou.

As coisas correram bem com Julen Lopetegui, uma aposta para suceder a Del Bosque muito ligada às novas gerações de miúdos que tinham trabalhado com o antigo técnico do FC Porto nos Sub-21, mas a novela que levou à sua saída sem ter perdido sequer um jogo pela Espanha por ter assinado pelo Real Madrid, em vésperas de estreia no Mundial, foi um tiro demasiado grande no pé. Fernando Hierro, um bombeiro chamado à última hora para o trabalho de terreno, tentou controlar os estilhaços de uma crise que teve de novo latente as tensões entre jogadores do Real e do Barcelona mas somou três empates em quatro jogos, caindo nos oitavos frente à anfitriã Rússia. Mais do que um projeto deitado abaixo pelo campeão europeu de clubes, colocou-se pela primeira vez em xeque o prazo de validade do tiki taka (pelo menos na Roja). Luis Enrique, o escolhido, sabia disso.

Luis Enrique, o Ironman que trocou Madrid por Barcelona nos anos 90, faz maratonas e sobe montanhas

“Não vai haver nenhuma revolução, até por ser uma palavra que não gosto. Deve haver e vai haver, isso sim, uma evolução assente em algumas mudanças. A seleção vai manter o seu estilo de jogo de sempre, com posse e assumindo a iniciativa. Mas também será preciso defender melhor sofrendo menos golos, dar maior profundidade ao ataque e criar mais oportunidades”, comentou o antigo técnico do Barcelona no dia da apresentação. Na estreia em Wembley com a Inglaterra para a Liga das Nações, cumpriu e ganhou (2-1); no primeiro encontro em casa para a mesma competição com a vice-campeã mundial Croácia, cumpriu e goleou (6-0); no primeiro particular em Gales, cumpriu e goleou (4-1). Ao todo, a Espanha venceu os três encontros com um total de 12 golos marcados e apenas dois consentidos, fazendo lembrar aquela equipa quase imbatível de anos anteriores.

Com os resultados a favor, os primeiros meses de Luis Enrique foram marcados pelos elogios e qualquer das alterações que iam sendo anunciadas em termos de concentrações tinham sempre uma ampla taxa de aprovação: a proibição dos telemóveis à mesa, o estilo mais dialogante, o corte no número de horas de folga, a alteração da habitual escala que os aviões faziam em Madrid. Chegou ao céu. Esta noite, durante 45 minutos, viveu um verdadeiro pesadelo.

Alonso nem acreditava: Inglaterra desceu com perigo três vezes e marcou três golos até ao intervalo (CRISTINA QUICLER/AFP/Getty Images)

As primeiras duas oportunidades do encontro até pertenceram à Espanha, que lançou esta noite surpresas como Jonny Otto na lateral direita ou Iago Aspas no ataque com Rodrigo e Asensio: na primeira, numa jogada de estratégia, Thiago rematou forte mas a bola saiu para fora desviada por um defesa inglês; na segunda, no mesmo minuto, Pickford teve uma enorme intervenção após cabeceamento de Sergio Ramos e desvio de Alonso. A Roja podia ser a primeira seleção a carimbar a passagem à fase final da Liga das Nações e até bastava um empate mas o conjunto de Luis Enrique queria mais. Afinal, ficaria apenas pelas intenções.

A surpreendente Inglaterra do Mundial da Rússia, que ficaria no quarto lugar após derrotas com Croácia e Bélgica nos dois últimos encontros, parecia ter perdido fôlego mas voltou a dar uma lição tática pela mão de Gareth Southgate: alternando os momentos de pressão (Eric Dier viu o primeiro amarelo do jogo num carrinho sobre Ramos na área espanhola), os britânicos tiveram sempre duas linhas muito juntas que fecharam por completo o jogo interior da Roja. Recuperando as palavras de Carlos Queiroz após a derrota (com tanto de inglória como de cruel, face ao que se passou em campo) do Irão com a Espanha por 1-0, foi como se houvesse autorização para o adversário ter posse e circulação à vontade em zonas mais longe da baliza mantendo sempre o sinal de proibido em qualquer caminho ao atalho de acesso à área. A isso juntou a eficácia.

Primeira oportunidade, primeiro golo: Harry Kane baixou da posição mais fixa entre os centrais, lançou longo em Rashford na esquerda, o avançado assistiu rápido para o corredor central e Sterling disparou ao ângulo da baliza de De Gea (16′). Segunda oportunidade, segundo golo: assistência de Kane para a velocidade de Rashford nas costas da defesa contrária e remate em jeito desviando a bola do companheiro de equipa no Manchester United (30′). Terceira oportunidade, terceiro golo: mais uma jogada a explorar as costas contrárias que começou em Barkley, cruzamento de Kane e desvio de Sterling para a baliza (38′). O intervalo chegou com uma grande surpresa em Sevilha e uma resposta do avançado do Tottenham para quem vê nele um mero finalizador – como ficou bem patente esta noite, Harry Kane é um avançado completo de múltiplos recursos.

Raheem Sterling. O miúdo que lavava casas de banho e apanhava três autocarros para treinar

Asensio, aos 50′, ainda viu um remate bater num defesa contrário e ficar a poucos centímetros da baliza de Pickford mas era no banco que andava o crédito perdido pelo conjunto de Luis Enrique: mais do que a troca de Dani Ceballos por Saúl Ñìguez, que conseguiu dar outra estabilidade ao meio-campo espanhol, a colocação de Paco Alcácer no eixo do ataque teve resultados quase imediatos, com o avançado emprestado pelo Barcelona ao Borussia Dortmund que leva esta época uma média de um golo por cada 27 minutos jogados (244 minutos em cinco jogos renderam já um total de nove golos entre clube e seleção) a fazer o 3-1 de cabeça após canto… menos de três minutos depois de ter rendido Iago Aspas (59′).

O jogo estava relançado e não ficou mais porque o polaco Szymon Marciniak não assinalou uma grande penalidade clara de Pickford, que quis ser artista e fintar Rodrigo numa ação que correu muito mal e que acabou com um corte para canto depois de ter agarrado duas vezes o antigo avançado do Benfica dentro da área (63′). Havia algo que tinha mudado de vez: a partida continuava a ser de sentido único mas a falta de gás de Sterling e Rashford acabou de vez com a inversão de marcha que causou estragos em três ocasiões durante a primeira parte. No entanto, a disciplina tática dos britânicos, que foi reforçada com a entrada de Kyle Walker como terceiro central na direita, segurou o surpreendente triunfo em Sevilha apesar do golo de cabeça de Sergio Ramos no sétimo e último minuto de descontos que fez o 3-2 final. Se os seus adeptos tivessem a mesma disciplina fora de campo, que não tiveram na última noite, a festa tinha sido perfeita.

Com este resultado, a Espanha mantém a liderança do grupo 4 da Liga A da Liga das Nações com seis pontos em três jogos, mais dois do que a Inglaterra (que voltou a vencer em território espanhol mais de 30 anos depois) e mais cinco do que a Croácia que, tendo ainda dois encontros por disputar, pode chegar a primeiro. O Croácia-Espanha, a 15 de novembro, e o Inglaterra-Croácia, três dias depois, prometem ser mais dois grandes jogos de futebol nesta nova prova da UEFA.